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Tubarão-peregrino: o grande devorador de plâncton

  • 15 de abr.
  • 5 min de leitura

Autores: Beatriz Mendes, Raphaela A. Duarte Silveira e Filipe Guilherme R. C. Neves


Tubarão-peregrino Cetorhinus maximus na costa do Atlântico. Fonte: Green Fire Productions/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS


O tubarão Cetorhinus maximus é popularmente conhecido como tubarão-peregrino, tubarão-frade ou até mesmo tubarão-elefante em algumas regiões. Este é o segundo maior peixe do mundo, perdendo o posto somente para o tubarão-baleia Rhincodon typus. Em média, mede de 7 a 8 metros de comprimento, mas alguns adultos podem alcançar impressionantes 12 metros e pesar mais de 4 toneladas. Possuem uma grande distribuição geográfica, distribuídos ao longo das costas de 50 países. Por exemplo, no Hemisfério Norte, habitam as costas do Japão, da China, da Noruega e da Rússia, tanto no Oceano Pacífico quanto no Atlântico e no Ártico. Já no Hemisfério Sul, são vistos ao largo do Brasil e da África do Sul, no sul do Atlântico. Além disso, ocupam uma ampla faixa de habitats, desde as águas frias e pouco iluminadas das regiões boreais até as águas mais quentes e temperadas, podendo ser encontrados em profundidades que variam de 200 a 2.000 metros.


É comum que as pessoas imaginem que esse animal majestoso seja um predador feroz e carnívoro, principalmente devido ao seu tamanho, sua aparência e sua boca peculiar. Porém, esse tubarão é filtrador, pois se alimenta principalmente de organismos planctônicos. Em cada lado da região faríngea, existem cinco fendas branquiais que correspondem aos espaços entre os arcos branquiais. Nesses arcos, encontram-se duas estruturas: as lamelas branquiais, responsáveis pela troca gasosa que possibilita a respiração, e, na parte frontal de cada arco, os rastros branquiais, que lembram pentes e estão dispostos em fileira única ao longo da extremidade distal. Ao nadar de boca aberta, essas fendas que circundam quase toda sua cabeça atuam na filtragem de zooplâncton a partir da água que entra constantemente com a natação do animal.


Modelo do tubarão-peregrino Cetorhinus maximus, exposto em posição de nado com a boca amplamente aberta. É possível observar as cinco longas fendas branquiais dispostas em arco ao redor da região cefálica, adaptadas para a filtração de plâncton. Fonte: Etee/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).


Desenho anatômico do crânio da espécie mostrando o aparelho de filtragem. A água entra pela boca (primeira e maior seta à direita) e a filtragem ocorre entre os arcos branquiais (setas menores). BA: arco branquial; GF: filamento branquial; GR: rastro branquial. Fonte: Masseter et al./Research Gate.



Suas migrações são influenciadas principalmente pela disponibilidade de plâncton. No Atlântico Norte, esses tubarões se deslocam para o norte enquanto houver abundância de alimento, mas, quando o inverno se aproxima e a concentração de plâncton diminui, eles migram para o sul em busca de novos locais para se alimentar. Além disso, tubarões-peregrino migram para áreas costeiras durante a temporada de reprodução (maio a julho).


A fertilização ocorre internamente, como nos outros tubarões: o macho insere o clásper (órgão masculino) na cloaca da fêmea e assim ocorre a transferência dos espermatozoides. Porém, a reprodução é ovovivípara, ou seja, os embriões se desenvolvem dentro de ovos no útero materno e nascem já formados. Os filhotes nascem com aproximadamente 2 metros de comprimento e já são independentes da mãe. A maturidade sexual é tardia, levando em média 16 anos.



PRINCIPAIS AMEAÇAS


Seu principal predador e ameaça é o ser humano. Apesar do tamanho colossal, a espécie é lenta, seu comportamento não é agressivo, não oferece perigo aos seres humanos e, portanto, é inofensiva. Isso infelizmente pode acarretar grandes problemas para a espécie. A pesca intensiva, as capturas acidentais em redes de arrasto e colisões com embarcações representam os maiores riscos à sobrevivência das populações. Além disso, no passado, eram caçados principalmente por sua carne e pelo óleo de seu fígado. Esse óleo era de grande importância econômica, podendo ser encontrado em vários produtos na indústria cosmética, sendo isso a causa do aumento da taxa de captura pela pesca.


Embora a caça ao tubarão-peregrino tenha diminuído ao longo dos anos, ela ainda não foi completamente interrompida. Um estudo acerca da captura intencional do C. maximus foi feito em Santa Catarina, em 2007. Pescadores entrevistados confirmaram que esses tubarões eram esporadicamente capturados em barcos baleeiros com arpões manuais. Informaram ainda que o animal brigava pouco e não afundava, facilitando o seu trabalho.


Espécime capturado com rede de emalhe a cerca de 50 metros da praia, em Itaipuaçu, Niterói, Rio de Janeiro. Fonte: Soto et al./XII Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar (COLACMAR) - MOVI 39166.



Ademais, as barbatanas ainda são comercializadas como ingrediente para a famosa sopa de tubarão, bastante consumida no mercado asiático. O fígado do tubarão continua sendo vendido tanto como afrodisíaco quanto como alimento, enquanto o óleo extraído pode ser encontrado na indústria cosmética.



CONSERVAÇÃO


Esses animais são particularmente vulneráveis a esses impactos, pois apresentam crescimento lento, longos períodos de gestação, maturidade sexual tardia e baixa fecundidade. Como resultado, não conseguem se recuperar das grandes perdas populacionais sofridas, especialmente no passado. Houve um período no Nordeste do Atlântico em que mais de 100.000 tubarões adultos foram capturados durante 50 anos.


Assim, a crescente conscientização sobre os impactos levou à criação de leis para proteger o tubarão-peregrino. Essa espécie foi incluída no Apêndice II da CITES, garantindo a fiscalização de seu comércio. Além disso, recebe proteção legal nas águas britânicas, ao redor da Ilha de Man e de Guernsey, e a captura e venda comercial estão proibidas nos Estados Unidos. O Shark Trust também estabeleceu diretrizes para navegadores, exigindo redução de velocidade e afastamento cuidadoso para minimizar a perturbação aos tubarões. Atualmente, a espécie está classificada como “em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN / IUCN).


Apesar da proteção existente em algumas regiões, ainda ocorrem capturas acidentais e intencionais desses tubarões, especialmente em regiões costeiras onde o uso de equipamentos de pesca é intenso. Um dos principais desafios é a escassez de dados globais confiáveis sobre as capturas e mortes acidentais dessa espécie. Com a demanda crescente pelas grandes barbatanas de tubarão, torna-se essencial que os registros de pesca sejam aprimorados e mais bem regulamentados. Enquanto isso não acontecer, será difícil obter uma compreensão mais clara sobre a situação de conservação dessa espécie.




Bibliografia


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SIMS, D. W.; REID, P. C. Congruent trends in long‐term zooplankton decline in the north‐east Atlantic and basking shark (Cetorhinus maximus) fishery catches off west Ireland. Fisheries Oceanography, v. 11, n. 1, p. 59-63, 2002.


SIMS, D. W. Sieving a living: a review of the biology, ecology and conservation status of the plankton‐feeding basking shark Cetorhinus maximus. Advances in Marine Biology, v. 54, p. 171-220, 2008.


SOTO, J. M. R.; MINCARONE, M. M.; COLASSO, G. G. Novas descobertas acerca da captura intencional do tubarão-peregrino Cetorhinus maximus (Gunnerus, 1765) (Lamniformes, Cetorhinidae) na costa de Santa Catarina. In: XII Congresso Latinoamericano de Ciências do Mar, Florianópolis, Brazil. 2007.


TUBARÃO-peregrino. Animalia. Disponível em: <https://animalia.bio/pt/basking-shark#refs> . Acesso em: 4 de junho de 2025.

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