Narval: o unicórnio do mar
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Autoras: Catarina Amazonas e Raphaela A. Duarte Silveira

Grupo ou pod de narvais. Perceba o padrão espiralado da presa. Fonte: Dr. Kristin Laidre, Polar Science Center, UW NOAA/OAR/OER/Wikimedia Commons (CC0).
O narval Monodon monoceros faz parte da superfamília de cetáceos Odontoceti. Seu nome, de origem dinamarquesa (nāhvalr), é a junção das palavras “cadáver” (nār) e “baleia” (hvalr), devido à coloração branca e cinzenta destes animais.
PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS
Eles habitam o Oceano Ártico, localizado no Hemisfério Norte, e o conhecimento geral da espécie ainda é escasso, uma vez que não são facilmente avistados. Segundo Kristin Laidre, uma bióloga do Polar Science Center (Centro de Ciências Polares) da Universidade de Washington, “ainda é inacreditável que os narvais possam viver num ambiente tão extremo e ter sucesso”. Laidre estuda a ecologia e a dinâmica populacional dos mamíferos marinhos do Ártico, incluindo os impactos das mudanças climáticas. Ela admite que o narval passa a maior parte de sua vida debaixo d'água, em altas profundidades, e que, por esse motivo, é um animal extremamente difícil de ser estudado.
Alguns de seus predadores são as orcas, os tubarões e os ursos polares. Com um corpo cilíndrico e uma cabeça arredondada, os machos têm um comprimento médio de 4,1 metros, enquanto as fêmeas costumam ter cerca de 3,5 metros. Adicionalmente, os narvais estão classificados como “pouco preocupantes”, de acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
Eles conseguem mergulhar até cerca de 1800 metros para se alimentar, com o suporte de uma camada grossa de gordura, que promove isolamento térmico. Além disso, os narvais possuem mioglobina no sangue, o que lhes garante uma capacidade de armazenar grandes quantidades de oxigênio nos pulmões e músculos.
Eles encontram o seu alimento através da ecolocalização, e sua dieta varia de acordo com o local onde vivem. Estudos revelam que os componentes básicos da alimentação se diferenciam entre as 3 principais populações de narval, localizadas no leste da Groenlândia, no norte da Baía de Hudson e na Baía de Baffin. Porém, no geral, a alimentação é bastante restrita e especializada, sendo os bacalhaus do Ártico e os halibutes da Groenlândia as suas principais presas.

Distribuição geográfica dos narvais Monodon monoceros. Fonte: Cephas/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
POR QUE UNICÓRNIO DO MAR?
Naturalmente, a característica mais marcante do narval é o “chifre” na sua cabeça, o que faz com que essa espécie seja ocasionalmente chamada de “unicórnio do mar”. Na realidade, essa estrutura é melhor descrita como um dente ou presa, de crescimento contínuo, que pode atingir até 3 metros de comprimento em machos. As fêmeas, por sua vez, possuem dois dentes integrados na mandíbula, que raramente se tornam visíveis.
Quanto à composição da presa, a parte mais externa é composta por cemento, um tecido mineralizado que cobre a raiz dos dentes. Logo abaixo, encontra-se a dentina, outro tecido mineralizado. Esta cobre o tecido pulpar, o qual compõe a parte mais interna e macia do dente. O que é interessante e único na presa dos narvais é que o cemento e a dentina possuem túbulos dentinários, canais preenchidos por líquido que interagem com o meio externo e passam mensagens ao cérebro. Outros mamíferos também possuem esses túbulos, mas eles são cobertos por esmalte, o que protege os dentes contra a sensibilidade. Os narvais, contudo, não têm esmalte nas presas. Trata-se de estruturas altamente sensíveis e inervadas, constantemente imersas nas águas congelantes do Ártico.

Crânio de um narval Monodon monoceros, no Museu de Anatomia Comparada de Bolonha, na Itália. Fonte: Marco Vinci/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
A função da presa ainda é amplamente debatida dentro da comunidade científica. Todavia, algumas discussões apontam para a sua funcionalidade na hierarquia social dos narvais, sobretudo dos machos, atuando como um atrativo para acasalamento. Se considerarmos essa hipótese, a presença e o tamanho do dente determinariam uma vantagem reprodutiva. No entanto, um estudo que observou 173 narvais, entre 1993 e 2019, constatou que cerca de 1,5% das fêmeas amostradas também tinham a presa alongada. Diferentes anomalias já foram registradas, como machos sem uma presa e até indivíduos com duas.
Na transição do verão para o inverno, o gelo que cobre a maior parte do Oceano Ártico se expande de 7 a 15 milhões de quilômetros quadrados. Nesse contexto, os animais que sobem à superfície para respirar, como os narvais, correm risco constante de ficarem presos. A cobertura de gelo também concede enormes quantidades de sal à água. Portanto, alguns estudos sugerem que o dente alongado dos narvais funciona como um tipo de antena, captando a temperatura e a salinidade da água. Segundo essa teoria, a presença da presa seria uma ótima adaptação evolutiva, uma vez que a detecção da salinidade da água poderia alertar os narvais da ameaça de aprisionamento no gelo.
Podemos mencionar uma pesquisa realizada no Canadá, que analisou a mudança da frequência cardíaca dos narvais associada à exposição da presa à água doce e salgada. Os pesquisadores projetaram um tipo de jaqueta que foi colocada em torno da presa e ligada a um sistema de tubulação. Esperava-se que concentrações de sal ocasionassem uma resposta fisiológica, a qual poderia ser interpretada como um sinal de que o aprisionamento no gelo era ameaçador. De fato, os resultados demonstraram que a frequência cardíaca dos narvais aumentava conforme a água salgada era introduzida, e caía durante a introdução de água doce, assim comprovando a capacidade sensorial da presa.
Além disso, em 2017, cientistas canadenses observaram um grupo de narvais utilizando a presa para atordoar peixes árticos antes de comê-los. Esta foi a primeira e única vez que esse comportamento foi registrado. Por isso, não se sabe ao certo se é uma prática generalizada da espécie ou se foi um evento pontual.

Ilustração da anatomia de um narval Monodon monoceros. Fonte: W. Scoresby/Wikimedia Commons (CC0).
AMEAÇAS E CONSERVAÇÃO
Esses animais têm uma longa história de caça e exploração. Na Idade Média, eram caçados pelos vikings que colonizaram a Groenlândia. A presa espiralada na sua cabeça era exportada para a Europa. Mais adiante, o narval passou a ser caçado pelas tribos inuit, e essa caça de subsistência continua até hoje, com o uso de métodos artesanais (caiaques e arpões). Para os inuit, a caça ao narval simboliza um modo de vida ancestral. Eles consomem o “muktuk” (nome dado à carne de baleia) e o consideram uma fonte de nutrição física e espiritual. Segundo Mads Peter Heide-Jørgensen, cientista do Greenland Institute of Natural Resources (Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia), “o narval é, de longe, o produto de caça mais valioso da Groenlândia”. Heide-Jørgensen estuda as populações de narval há mais de 30 anos e afirmou que os caçadores locais dependem dos rendimentos proporcionados por esse recurso. Igualmente, a análise dos caçadores é essencial para o estudo da espécie, e a própria legislação da Groenlândia exige que as observações fornecidas por eles sejam incluídas nos relatórios de avaliação das populações. Essa medida foi tomada devido ao conhecimento excepcional dos caçadores a respeito da distribuição geográfica e sazonal dos narvais.
Com o advento de navios baleeiros e a colonização do Canadá, o narval foi explorado em massa. Atualmente, a caça ainda é permitida, porém altamente regulamentada por um sistema de licenças e quotas estabelecidas pelo Departamento de Pescas e Oceanos do Canadá (DFO), Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES), Ministério de Pesca e Caça da Groenlândia, entre outros órgãos.
A exportação e comercialização de produtos derivados de narvais, como presas e “muktuk”, são permitidas sob condições estritas, para evitar a exploração excessiva ou o comércio ilegal, alinhando as necessidades das comunidades locais com a proteção ambiental e os compromissos internacionais.

Ilustração de islandeses caçando narvais (1870). Fonte: Albin Mesnel, Édouard Riou, Edward Blyth, Alphonse de Neuville/Wikimedia Commons (CC0).
Em suma, o narval é um símbolo da adaptação às condições extremas, com a sua morfologia única e enigmática. Para promover a conservação desta espécie tão peculiar, é essencial compreender sua biologia, comportamento e os desafios que ela enfrenta. Nesse sentido, proteger o narval significa também preservar o equilíbrio dos ecossistemas polares como um todo.
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