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Lontras marinhas: mestres da adaptação

Autoras: Maria Victória Fenerich Tormena e Raphaela A. Duarte Silveira


Imagem de uma lontra-marinha nadando de costas enquanto segura uma pedra com as mãos.

Lontra-marinha fotografada por Smithsonian’s National Zoo. Fonte: Smithsonian’s National Zoo/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0).



As lontras fazem parte da família dos mustelídeos, que também inclui as doninhas, texugos e furões. Em todo o mundo, há 13 espécies, com aparência semelhante, mas características distintas. São animais semiaquáticos e vivem boa parte de sua vida na água doce ou salgada, dependendo da espécie.



EVOLUÇÃO


Baseado em observações arqueológicas, acredita-se que as lontras foram divididas em dois grandes grupos evolutivos: as “lontras-peixe” e “lontras-caranguejo”, diferenciados pela sua dentição e morfologia cerebral. Essa diferença fez com que as lontras evoluíssem e se adaptassem de maneira distinta.


As lontras-peixe, consideradas mais primitivas, se alimentam principalmente de peixes e mantiveram sua dentição carniceira, bem desenvolvida para cortar carne. Entre elas estão a lontra-europeia Lutra lutra e a ariranha Pteronura brasiliensis.


Já as lontras-caranguejo, adaptadas a se alimentar de crustáceos, viviam próximas a áreas costeiras e migraram pelo Oceano Atlântico e Pacífico. Esse grupo evoluiu duas vezes separadamente, dando origem aos gêneros Aonyx e Enhydra.


Aonyx significa “sem garras”, e nesse gênero estão presentes a lontra-africana-sem-garras Aonyx capensis, a lontra-sem-garras-do-Congo Aonyx congicus e a lontra-asiática-de-garras-pequenas Aonyx cinereus. Já no gênero Enhydra temos a lontra-marinha Enhydra lutris e outros dois parentes extintos.


Imagem de ariranha Pteronura brasiliensis se alimentando de um peixe perto de galhos de uma árvore.

Hora do almoço da ariranha Pteronura brasiliensis. Fonte: Djalma Armelin\Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



A LONTRA-MARINHA


As lontras-marinhas Enhydra lutris são mamíferos carnívoros encontrados em regiões costeiras ao longo do Pacífico Norte, principalmente no Alasca e na Califórnia. Elas possuem a pelagem mais densa do mundo animal, com milhões de pelos por centímetro quadrado, o que impede que a água gelada do oceano penetre em sua pele. Essa característica fez com que as lontras fossem intensamente caçadas e comercializadas, levando a espécie à beira da extinção, devido ao seu chamado “ouro macio”. A população, que em 1714 era estimada em 300.000 indivíduos, caiu drasticamente para cerca de 2.000 em 1911. Na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), as lontras-marinhas ainda se encontram “Em Perigo”.



FISIOLOGIA


Animais marinhos aquáticos possuem diversas adaptações ao ambiente marinho, e com as lontras-marinhas não é diferente. Seus olhos são adaptados para enxergarem no ambiente aquático e terrestre; seu tato também foi bem desenvolvido, sendo capaz de utilizar seus bigodes e patas para localizar e capturar presas abaixo da superfície. Seu olfato, diferente do de outros mamíferos como focas e leões-marinhos, possui cornetos nasais bem desenvolvidos, conferindo sensibilidade olfativa aguda, como pode ser observada em carnívoros terrestres. Acredita-se que a produção de odores e sua sensibilidade são muito importantes para a espécie, como foi observado na Califórnia, em machos localizando fêmeas em cio pelos odores transmitidos pela água da superfície do oceano.


A lontra-marinha também possui seu esqueleto adaptado à locomoção aquática, pelo quinto dígito dos membros posteriores. Ao ser estendido, proporciona uma estrutura em formato de nadadeira, não observada em nenhum outro mamífero aquático da ordem Carnivora.


Sua musculatura e funções neurológicas também são adaptadas para maior sensibilidade e uso de ferramentas. Por possuírem dentes arredondados e lisos, com concavidades nos molares, os classificando como bunodontes, seus movimentos mastigatórios são limitados. Esse tipo de dentição é observado em outros mamíferos, como humanos e ruminantes, que trituram o alimento ao se alimentar. Porém, por serem animais carnívoros, esse formato dentário limita a alimentação das lontras-marinhas, tornando essencial o uso de uma ferramenta peculiar: sua pedra especial.


Foto de um close no rosto de uma lontra-marinha nadando de costas enquanto mostra os dentes. Ao fundo há outra lontra-marinha desfocada.

Close no rosto de uma lontra-marinha Enhydra lutris. Fonte: Mike Baird/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



USO DE FERRAMENTAS


Cada lontra escolhe uma pedra no fundo do oceano e a utiliza como bigorna e martelo para abrir presas duras, como abalones e mexilhões. Enquanto boia, ela segura a rocha com as pernas dianteiras e a bate contra o alimento diversas vezes até quebrá-lo. Aproximadamente 50% dos alimentos consumidos pelas lontras-marinhas são abertos com essa pedra. Durante 6 dias, foi observado na Reserva Natural e Parque Estadual de Point Lobos, na Califórnia, 30 vezes o uso de pedras como ferramenta entre as lontras-marinhas. Com o tempo, no entanto, muitas lontras adultas reduzem o uso da ferramenta, mas ainda assim continuam a carregá-la em uma dobra de pele localizada na região da axila.


O mais impressionante não é apenas o uso de ferramentas, pois esse comportamento também ocorre em outras espécies, como chimpanzés e algumas aves, mas sim o fato de que as lontras não veem sua pedra como um objeto descartável. Elas a escolhem cuidadosamente, guardam-na e a utilizam ao longo de toda a vida.



ALIMENTAÇÃO E METABOLISMO


Devido à ausência de uma camada espessa de gordura corporal, as lontras-marinhas compensam a perda de calor por meio da sua pelagem densa e pela alta produção de calor interno. Para manter sua temperatura interna em torno de 38 °C, mesmo em águas frias, seu metabolismo acelerado produz calor três vezes maior que o de um mamífero de tamanho similar. Esse alto valor gasto e produzido faz com que sua necessidade energética seja de mais de 4.000 calorias por dia, cerca de 30% do seu peso.


As lontras geralmente caçam até o anoitecer, se alimentando pela manhã. Em sua dieta estão presentes peixes, moluscos, caranguejos e ouriços-do-mar, variando suas quantidades de acordo com a região em que vivem, sendo, na maioria das vezes, necessário o uso de ferramentas para serem consumidos, principalmente em locais com alimentação limitada.



VIDA SOCIAL


As lontras vivem em pequenos grupos chamados de “jangadas”, geralmente organizados por sexo. Os machos ficam em áreas com maior abundância de alimento e menor proteção; já as fêmeas tendem a preferir lugares mais seguros, mesmo que com menor abundância de alimentos.



FILHOTES


Ao contrário das lontras de água doce, cujos filhotes nascem cegos, os filhotes das lontras-marinhas já nascem mais desenvolvidos. Com aproximadamente 2 quilos e 60 centímetros, seus olhos já nascem abertos, os primeiros dentes já emergindo e uma pelagem completa de pelos densos que lhes permite flutuar.


Imagem de uma lontra marinha flutuando de costas com filhote na barriga.

Lontra-marinha carregando o seu filhote sobre a barriga. Fonte: Michael L. Baird/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



A mãe amamenta o filhote enquanto flutua de costas na água, utilizando seus dois mamilos abdominais. Durante os três primeiros meses de vida, ela o carrega sobre a barriga, mantendo-o sempre próximo. Ao mergulhar em busca de alimento, a mãe envolve o filhote em fios de algas para evitar que seja arrastado pela correnteza. Esse esquema de “âncora de algas marinhas” também é utilizado pelas lontras durante a vida adulta, mantendo-as seguras enquanto adormecem na superfície, não sendo levadas pela correnteza.


Foto de duas lontras marinhas nadando de costas enquanto estão presas em algas marinhas.

Grupo de lontras-marinhas Enhydra lutris flutuando juntas. Fonte: Mike Baird/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



A relação entre mãe e filhote vai muito além de somente sua sobrevivência. Um estudo na Califórnia observou que fêmeas com filhotes tendem a aumentar o consumo de presas que exigem o uso de ferramentas, o que pode indicar uma forma de ensinar os mais jovens a manipulá-las.


As lontras-marinhas representam um modelo notável de especialização ecológica e comportamento adaptativo, sendo fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros onde atuam como predadores reguladores.




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