Baleia-franca: a gigante dos mares
- 1 de mai.
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Autores: Jessica Nunes, Raphaela A. Duarte Silveira e Filipe Guilherme R. C. Neves

Espécies de baleias-francas existentes: baleia-franca-do-atlântico-norte Eubalaena glacialis, baleia-franca-do-pacífico Eubalaena japonica e baleia-franca-austral Eubalaena australis. Fonte: NOAA/Wikimedia Commons (CC0); Governo Federal dos EUA/Wikimedia Commons (CC0); Mariomassone/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).
A baleia-franca pertence à infraordem Cetacea e ao gênero Eubalaena (Eu= verdadeiro; balaena=baleia, isto é, baleias verdadeiras). Além de serem grandes mamíferos marinhos, possuem um aparelho bucal constituído por barbatanas, ou seja, placas flexíveis de queratina. Sua principal forma de alimentação é por filtração e o krill, pequeno crustáceo “primo” do camarão, é essencial para a dieta desses animais. Esses animais podem pesar 40 toneladas e medir cerca de 14 metros de comprimento. No mundo, existem apenas três espécies de baleia-franca: Eubalaena glacialis (baleia-franca-do-atlântico-norte), Eubalaena japonica (baleia-franca-do-pacífico) e a Eubalaena australis (baleia-franca-austral) de ocorrência restrita ao hemisfério Sul. Nesse artigo, será abordada a morfologia da baleia-franca-austral.
EVOLUÇÃO DOS CETÁCEOS: DA TERRA PARA A ÁGUA
É crucial compreender o surgimento da infraordem Cetacea a fim de entender sua morfologia e ecologia. Esse grupo teve sua origem há 50 milhões de anos com a separação dos artiodáctilos (hipopótamos, porcos, etc.) do Indohyus (ancestral de todos os cetáceos). A partir do Indohyus, o qual vivia na terra, mas explorava o mar de Tethys, que durante o Mesozoico separava duas grandes massas continentais, a Laurásia (a norte) e o Gondwana (a sul), em busca de alimento, outras espécies se adaptaram para a vida terrestre e marinha. Por exemplo, o Rodhocetus tem a sua narina no topo da cabeça, adaptação conseguida ao longo das gerações. Por fim, nas espécies do gênero Dorudon a nadadeira caudal surge como pernas traseiras bem reduzidas e a abertura nasal se encontra na parte posterior da cabeça, como nos cetáceos atuais. Essas características fizeram do Dorudon o primeiro mamífero exclusivamente marinho, a partir do qual dois grupos de cetáceos atuais divergiram: os Odontocetos e os Misticetos.
MORFOLOGIA: BOCA
As espécies de baleias-franca se distinguem principalmente pela sua distribuição geográfica. Por exemplo, as baleias-franca-austrais estão restritas ao hemisfério sul. Em contrapartida, as baleias-franca-do-atlântico-norte e as baleias-franca-do-pacífico se distribuem no hemisfério norte e no oceano Pacífico, respectivamente.
A baleia-franca-austral pertence à subordem Mysticeti e, por isso, sua alimentação ocorre por meio da filtração. O processo é relativamente simples: essas baleias possuem a boca bastante curvada, em forma de arco, e não apresentam pregas vocais. Durante a alimentação, elas nadam com a boca aberta, permitindo a entrada de grandes volumes de água contendo krill, seu principal alimento. Esse mecanismo funciona como uma rede de arrasto. Quando a água e o krill entram na boca, a baleia fecha e utiliza a língua para pressionar o céu da boca. Esse movimento força a água a passar pelas cerdas filtradoras (barbatanas), retendo o krill em seu interior. Em seguida, a baleia usa a língua para recolher o alimento preso nas cerdas e o engolir. Uma baleia-franca-austral pode consumir até duas toneladas de krill por dia.
MORFOLOGIA: CABEÇA
A cabeça da baleia-franca-austral pode medir até um terço do comprimento total do seu corpo, ou seja, cerca de 30% do seu tamanho. Nessa região, encontra-se uma característica marcante da espécie: um conjunto de calosidades. As calosidades são estruturas de pele espessada distribuídas pela cabeça, incluindo áreas como: ao redor do orifício respiratório, na borda da boca e, em alguns casos, acima dos olhos, formando uma saliência semelhante a uma "sobrancelha". Nessas estruturas vivem os ciamídeos, pequenos crustáceos ectoparasitas que se alimentam da pele morta presente nas calosidades. Esses crustáceos, de coloração branca, conferem às calosidades um aspecto esbranquiçado. Acredita-se que a relação entre os ciamídeos e as baleias seja do tipo harmônica, ou seja, sem causar prejuízos aparentes ao animal hospedeiro. Popularmente, esses organismos são conhecidos como “piolhos-de-baleia”.
O padrão das calosidades presentes na baleia-franca-austral funciona como uma espécie de “digital” natural, permitindo a identificação individual de cada animal. Em outras palavras, cada baleia possui um conjunto exclusivo de calosidades, que variam em forma, número, tamanho, padrão e localização. Essa singularidade também torna possível o monitoramento e o reconhecimento de indivíduos ao longo do tempo, sem a necessidade de métodos invasivos. O padrão já está presente no nascimento e, com o tempo, vai se tornando mais evidente à medida que os ciamídeos colonizam essas estruturas. A transmissão desses organismos ocorre, em geral, por meio de contato direto com a mãe logo após o nascimento, caracterizando uma forma de transmissão vertical. Aos poucos, os ciamídeos se estabelecem nas calosidades do filhote, conferindo a coloração esbranquiçada dessas estruturas. Esse método de identificação, chamado de fotoidentificação, é amplamente utilizado por pesquisadores em estudos de monitoramento populacional, comportamento e migração das baleias-francas. Além disso, outra característica que distingue a baleia-franca das demais espécies é o formato do seu orifício respiratório, que possui a forma de um “V”. O borrifo, que é o jato visível saindo pelo espiráculo, é o ar quente expelido pelos pulmões da baleia ao encontrar o ar frio da atmosfera, formando uma coluna de vapor d’água. No caso da baleia-franca, o orifício respiratório em forma de “V” confere ao borrifo um formato característico que lembra um coração. Isso a diferencia de outras espécies, como a jubarte, cujo orifício é mais reto, resultando em um borrifo linear. Portanto, uma maneira eficaz de identificar a baleia-franca em campo é observar o formato do seu borrifo.

Comparação dos borrifos de dois misticetos comuns no hemisfério sul. Na imagem A, observa-se uma ilustração de uma baleia-jubarte, Megaptera novaeangliae, exibindo um borrifo reto, típico da espécie. Já na imagem B, uma fotografia real mostra uma baleia-franca-austral, Eubalaena australis, com seu característico borrifo em formato de coração, resultado da disposição em “V” dos orifícios respiratórios. Fonte (A): Governo Federal dos EUA/Wikimedia Commons (CC0) e (B) Donald Hobern/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
MORFOLOGIA: CORPO
As baleias-francas não possuem nadadeira dorsal, que é uma característica distintiva da espécie. Essa ausência as diferencia de todas as outras baleias encontradas no hemisfério sul. Além disso, suas nadadeiras peitorais são curtas, largas e apresentam formato trapezoidal, em contraste marcante com as longas nadadeiras peitorais da baleia-jubarte, Megaptera novaeangliae, por exemplo.
A cauda da Eubalaena australis é predominantemente preta, podendo apresentar manchas claras em casos raros. Estruturalmente, é composta por cartilagem e por uma grande quantidade de musculatura, sendo esta a parte mais forte do corpo do animal, fundamental para a locomoção e para os saltos que, por vezes, realiza.
Na região ventral da baleia, é possível observar o dimorfismo sexual, especialmente nos machos e fêmeas adultos. As fêmeas apresentam fendas mamárias, localizadas próximas à abertura genital, mas essas características não são facilmente visíveis durante a observação em campo. Por isso, um dos principais indícios de que uma baleia é fêmea, durante avistamentos em ambiente natural, é a presença de um filhote ao seu lado, já que apenas as fêmeas cuidam da prole.

Comparação de vista lateral das nadadeiras dorsais de dois misticetos comuns no hemisfério sul. Na imagem A, a fotografia mostra uma baleia-franca-austral, Eubalaena australis, com ausência da nadadeira dorsal, característica distintiva. Na imagem B, uma fotografia da baleia-jubarte, Megaptera novaeangliae, exibindo sua nadadeira dorsal, típica da espécie. Fonte (A): Donald Hobern/Wikimedia Commons (CC BY 2.0); (B) Cephas/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).
A morfologia singular das baleias-franca revela um conjunto de adaptações especializadas à vida em ambiente aquático e à alimentação por filtração, pois é marcada pela ausência de nadadeira dorsal, presença de calosidades com ciamídeos, borrifo em forma de coração e cerdas filtradoras. A fotoidentificação, baseada no padrão único de calosidades, se tornou uma importante ferramenta para o monitoramento populacional e estudos de migração, reforçando a importância da pesquisa científica aliada à proteção dos habitats marinhos. Diante da crescente ameaça às espécies marinhas, conhecer e valorizar animais como a baleia-franca-austral é um passo fundamental para promover sua preservação e garantir o equilíbrio dos ecossistemas oceânicos.
Bibliografia
BATOCHIO, M. Distribuição espaço-temporal da baleia-franca-austral no sul do Brasil nas duas últimas décadas e suas influências ambientais. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Biológicas, Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Florianópolis, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/263332. Acesso em: 30. jun, 2025.
PROJETO BALEIA FRANCA – IWC/BRASIL. Plano de ação para a conservação da baleia franca, Eubalaena australis, no estado de Santa Catarina. v. 55, p. 4, 1999. Disponível em: https://www.baleiafranca.org.br/oprojeto/publicacoes/plano.pdf. Acesso em: 30. jun, 2025.
GROCH, K. R.; RENAULT-BRAGA, E. P. A baleia do sul do Brasil: uma gigante em nosso litoral. 2. ed. atual. Florianópolis: Carbo, 2023. 136 p. ISBN 987-85-94319-13-5.



