Identificando orcas: uma prática de apontar e nomear
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Autores: Ricardo Melo e Raphaela A. Duarte Silveira

Orcas residentes do Sul caçando salmão. Fonte: NOAA Fisheries.
O animal de coloração preta com duas manchas brancas que lembram olhos alongados possui diferentes denominações. Orcinus orca, ou simplesmente "orca", também é chamado de "baleia" ou "baleia assassina". A biologia, contudo, nos alerta prontamente: as orcas não são baleias, mas sim golfinhos. Apesar disso, falantes da língua inglesa demonstram que a relação entre palavra e animal pode ser ambígua: killer whale é, curiosamente, a designação mais difundida globalmente.
Essa discrepância nos lembra a importância da linguagem quando nos referimos aos seres vivos. Como explicar, por exemplo, para crianças que têm seu primeiro contato com esses animais por meio de materiais didáticos ou ao navegar na internet?
Essas questões permanecem em aberto, sujeitas a tentativas e erros. A ciência nos mostra que as orcas não são "assassinas" – a menos que consideremos todos os animais carnívoros e onívoros, especialmente aqueles que matam para se alimentar, como assassinos. Em outras palavras, em seu habitat natural, as orcas não atacam humanos deliberadamente – comportamento que pode mudar quando são capturadas e mantidas em cativeiro.
É nesse contexto que surgem pesquisas interdisciplinares, que buscam entender os efeitos práticos e simbólicos da designação das espécies. Tema Milstein, pesquisadora em Comunicação Ambiental (Environmental Communication) e professora da Universidade de Nova Gales do Sul, realizou um estudo etnográfico para investigar como turistas, especialistas e tripulantes identificam e nomeiam as orcas.
APONTAR E NOMEAR
O estudo foi conduzido em passeios turísticos na região costeira entre o Canadá e os EUA, no Oceano Pacífico, onde os visitantes observam as chamadas Orcas Residentes do Sul (Southern Resident Orcas). Para identificá-las, os cientistas desenvolveram um sistema alfanumérico baseado em grupos familiares (pods), organizados em torno de matriarcas, já que os filhotes nunca se separam de suas mães. As famílias locais, explica Milstein, são designadas pelas letras J, K e L, e cada indivíduo recebe um número. Por exemplo, L57 refere-se a uma orca específica do grupo L.
Milstein destaca que as diferentes formas de nomear as orcas têm efeitos práticos que vão além de simples rótulos. Embora seja fácil distinguir uma orca de um tubarão ou polvo, esses mamíferos marinhos são tão distintos entre si quanto os seres humanos.

Manual de identificação de diferentes mamíferos marinhos da REDEMAR Brasil. Fonte: cedida gentilmente por REDEMAR Brasil.
Os humanos aprenderam a reconhecer a individualidade de cada orca por meio de características como a nadadeira dorsal ou a "sela" (saddle patch), uma área cinza ou branca atrás da nadadeira. Esses traços são únicos, equivalentes às impressões digitais humanas. Essa aproximação não é casual: a autora introduz o conceito de consubstancialidade (consubstantiality), que se refere à identificação por meio de características compartilhadas. Um exemplo simples é a semelhança física entre humanos e primatas; outro seria comparar a organização das abelhas a um sistema monárquico.
Ao narrar as histórias, as relações e os conhecimentos ecológicos sobre as orcas, os especialistas passaram a ser questionados pelos turistas sobre como as identificavam. Acostumados a reconhecer rostos, os visitantes não percebiam outras formas de distinção. No entanto, quando a barreira entre as espécies humana e orca se dissolveu, tornou-se claro que, naquele oceano, havia indivíduos que formavam famílias, tinham hábitos únicos e viviam suas próprias vidas – assim como os humanos.
Diante dessa descoberta, Milstein observou que os turistas passaram a tratar as orcas como agentes – seres ativos em seu ambiente. "Elas se identificam assim?", perguntou um turista. "Não sabemos, mas elas têm vocalizações únicas, assim como nós", respondeu um especialista.
ENTRE O INDIVÍDUO E A ESPÉCIE
Milstein categoriza a identificação das orcas em três categorias:
Para proteger – A identificação visual desmistificou a narrativa do Sea World, que usava o nome "Shamu" para diferentes orcas, substituindo-as após a morte. Associar a identificação à proteção ajuda a conscientizar sobre a caça e o cativeiro.
Para conectar – Cientistas acompanham orcas desde o nascimento até a idade adulta, criando laços. Um pesquisador, Kent, relatou: "É fascinante ver os filhotes crescerem e terem suas próprias crias."
Para localizar – Indivíduos podem migrar para outros grupos, e a identificação permite rastreá-los.
A autora discute a mudança na relação entre humanos e orcas, traçando um paralelo com estereótipos culturais. No Ocidente, asiáticos são frequentemente vistos como "todos iguais", assim como indígenas brasileiros têm suas identidades étnicas apagadas. Essa generalização também ocorre com outras espécies, embora a distância filogenética entre humanos e orcas seja maior do que a que nos separa dos primatas.
No entanto, a proximidade genética não é o único fator que permite reconhecer individualidade. Cães e gatos, por exemplo, são amplamente vistos como únicos, enquanto animais de criação para pecuária também podem ser identificados e nomeados.
Milstein ressalta que se trata de uma questão cultural, em que a natureza e a cultura não estão separadas. O problema não está em chamar as orcas de "baleias assassinas" ou em nomear indivíduos, mas nos efeitos práticos dessas designações.

Granny (ou vovó, em português) foi a orca mais velha já registrada. Ela faleceu em 2017 com 105 anos. Também era conhecida como J2 e chegou a ser avistada e mencionada no estudo de Milstein. Fonte: Leigh Calvez/Wikimedia Commons (CC0).
A pesquisadora defende, então, uma abordagem dialética entre o coletivo e o individual. Identificar orcas individualmente destacou sua singularidade, mas também deixou em segundo plano seu status como espécie ameaçada. Além disso, nomear implica separar, gerando preferências – como priorizar a conservação de orcas em detrimento de outras espécies.
A dialética coletivo-individual, por sua vez, considera não apenas a espécie e o indivíduo, mas todo o ecossistema. O discurso conservacionista precisa incluir, por exemplo, os salmões (parte da dieta das orcas) e os impactos das mudanças climáticas nas correntes marítimas que afetam seus habitats, relacionando o saber da espécie ao indivíduo, por exemplo, ou partindo do saber da espécie e retratando os indivíduos.
Essa reflexão pode ser estendida a outras espécies e ecossistemas. Podemos pensar, por exemplo, na dificuldade em aproximar o público geral dos tubarões, geralmente tidos como predadores nefastos. Entretanto, são tão únicos quanto qualquer ser vivo.
Bibliografia
MILSTEIN, T. Nature Identification: The Power of Pointing and Naming. Environmental Communication, v. 5, n. 1, p. 3–24, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1080/17524032.2010.535836.
NEIWERT, D. Of Orcas and Men: What Killer Whales Can Teach Us. New York: Overlook Press, 2015.



