top of page

Ataque de tubarão a seres humanos: um medo que deve ser desmistificado!

Atualizado: 18 de nov. de 2021

Autores: Mariana P. Haueisen, Julia R. Salmazo, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró


A esquerda uma mulher em posição sentada com as mãos erguidas na altura do peito em sinal de 'pare' para um tubarão que esta na frente dela.

Ataques de tubarão são mais raros do que se imagina. Fonte: SarahRichterArt/Pixabay (Domínio Público).



Você sabia que os tubarões não são tão ameaçadores assim? Todo o medo que se tem deles vem por causa da mídia! O ser humano não faz parte de cadeia alimentar destes animais. Descubra mais sobre os ataques de tubarão aqui!



O ATAQUE


O ataque de tubarão ao homem é um acontecimento absolutamente raro, podendo ser considerado um incidente. Contudo, a possibilidade não é descartada, pois esses animais podem representar uma ameaça aos seres humanos quando estes estão em um mesmo ambinte.


No mundo são registrados em média 90 ataques por ano, sendo 12 fatais. Contudo, o potencial de perigo para o ser humano está muitas vezes relacionado com o habitat do tubarão. Nesse sentido, a maioria das espécies só costuma atacar ao sentir que seu território foi invadido ou quando estão em procura de alimento e há um erro de identificação da presa. Entretanto, o ser humano não é uma presa apetitosa para essas espécies, caso contrário, quase não haveriam praias seguras ao redor do mundo e os ataques seriam mais numerosos.


Existem diversos fatores que contribuem para a ocorrência dos ataques, como: o crescimento populacional humano, o tempo que passamos dentro d’água, aumento na abundância de espécies de tubarões, mudança natural ou antropogênica no habitat e a mudança no comportamento das espécies.


Mesmo com a pequena probabilidade do perigo, um ataque de tubarão garante um grande envolvimento da mídia (gerando comoção) e da preocupação pública, ainda que a maioria dos ataques resultem apenas em ferimentos pequenos causados por mordidas exploratórias/investigativas.



DESMITIFICANDO OS ATAQUES


O livro “Jaws” de Peter Benchley e o filme “Tubarão” de Steven Spielberg foram inspiradas pelos diversos casos de ataques de tubarão em um curto intervalo de tempo que ocorreram em 1960. Por serem obras bastante conhecidas, contribuíram para a disseminação do medo de tubarões. A mídia também contribui com a propagação desse medo ao enfatizar o perigo dos tubarões para o homem.



Tubarão avançando em direção a uma nadadora.

Capa do filme “Tubarão” (Jaws, em inglês), de Steven Spielberg. Fonte: Roger Kastel/WikimediaCommons (Domínio Público).



É importante que essa imagem sensacionalista e irreal do tubarão como a fera assassina dos mares seja desmistificada. Das, cerca de, 400 espécies de tubarões do mundo, aproximadamente 33 já provocaram comprovadamente acidentes com seres humanos, sendo apenas 18 espécies consideradas perigosas.


Apesar de ter havido um aumento do número de ataques nos últimos anos, os tubarões ainda representam um perigo raro para aqueles que utilizam a água, além de quase não haver fatalidades. Há estatisticamente mais risco de se afogar do que morrer em um ataque por tubarão. Enquanto a probabilidade de alguém ser atacado por tubarão no mundo é de 1 em 300 milhões, ser atingido por um raio é de 1 em 1 milhão.


Entendendo criticamente a mídia e tendo uma visão menos sensacionalista das reportagens de ataques de tubarão, pode-se contribuir potencialmente para uma abordagem que visa a conservação, com menor impacto nas espécies marinhas.



QUAIS ESPÉCIES MAIS ATACAM?


De 1580 até os dias atuais as espécies mais envolvidas em ataques registrados foram: tubarão-branco, Carcharodon carcharias (324 ataques); tubarão-tigre, Galeocerdo cuvier (111 ataques); e tubarão-cabeça-chata, Carcharhinus leucas (100 ataques).



TIPOS DE ATAQUE


Os ataques podem ser classificados em diferentes tipos, de acordo com sua natureza. O ataque não provocado é aquele que ocorre em ambiente natural, quando o homem ou seu equipamento encontram o tubarão, sem que haja provocação do ser humano. O ataque provocado ocorre quando o tubarão é pego, preso, lanceado, machucado, acertado ou irritado pelo homem.



COMO EVITAR O ATAQUE?


Informar-se sobre a área onde irá nadar, surfar, mergulhar ou pescar é a principal forma de prevenção. É sempre importante saber se há riscos reais envolvidos e que atitudes podem provocar um ataque.


Imagem vista de cima de um barco com uma pessoa em cima rodeada por quatro tubarões.

Informar-se sobre a ocorrência de tubarões na área que pretende utilizar é a principal forma de prevenção aos ataques. Fonte: Jared Rice/Unsplash (Domínio Público).



Além da informação, é importante:

  • nadar, surfar ou mergulhar em grupo, pois os tubarões costumam atacar presas solitárias;

  • não nadar muito longe da costa, pois, além de se isolar, está muito longe da assistência, caso necessária;

  • não entrar ou permanecer na água com ferimentos sangrando e ter cuidado se estiver menstruando, não urinar ou defecar na água, pois o olfato dos tubarões é bem apurado;

  • evitar nadar ou mergulhar:

- em águas turvas, em baías ou estuários;

- onde há descarregamento de lixo ou vazadores de esgoto, pois há alta atividade predatória de diversas espécies;

- áreas de pesca;

- perto de cardumes que são possíveis presas para tubarões;

- perto de golfinhos e botos que são possíveis presas para tubarões;

- com joias brilhantes ou roupas coloridas, já que a reflexão da luz pode atrair o tubarão;

- no período crepuscular ou noturno, pois fica mais difícil de enxergar o tubarão, além de ser o período o qual os tubarões estão mais ativos e têm maior vantagem sensorial competitiva.



COMO REAGIR AO ATAQUE?

Caso perceba que um tubarão está próximo a te atacar, não finja estar morto e nem aja passivamente, é recomendado que você reaja. Tente parecer maior e mais violento, assim, o animal poderá desistir do ataque. Bata em partes do corpo do animal que o machuque, principalmente nas áreas sensitivas: olhos, fendas branquiais e focinho. Quando possível, saia da água rapidamente e busque ajuda.



HÁ CASOS NO BRASIL?

Sim! Mas apesar disso, em nosso país, em 2017 houve apenas 1 (um) ataque no Brasil, o qual não foi fatal, enquanto que no mundo foram 88 ataques, com apenas 5 sendo fatais.

No Nordeste brasileiro, onde ocorre a maior parte dos casos, o tubarão-cabeça-chata, Carcharhinus leucas, é o principal responsável pelos ataques aos surfistas e banhistas. Metade dos ataques ocorridos no Brasil foram em 1990, devido a diminuição da oferta de alimento disponível e ao aumento das atividades de lazer no mar.

Pernambuco é o segundo estado com o maior número de pessoas atacadas no mundo, perdendo apenas para a Flórida, nos Estados Unidos. Entretanto, é recorde mundial ao considerar o número de fatalidades ou a extensão da área envolvida. Isso ocorre, devido à diversos fatores:


  • há muitas ocorrências de espécies agressivas na região Norte e Nordeste do Brasil, como o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre;

  • houve um aumento no número de pessoas na água;

  • aumento da degradação ambiental da região, como a sobrepesca e o aterro de manguezais, principais fornecedores de nutrientes para a cadeia alimentar costeira;

  • despejo de esgotos in natura nos mares, que favorecem a maior concentração de tubarões junto à costa a procura de alimento;

  • topografia submarina da região, a qual atrai naturalmente os tubarões de grande porte;

  • influência sazonal da região, que altera a salinidade e turbidez da água, atraindo ou afastando o tubarão da costa. Tubarões de grande porte preferem águas turvas e com alta salinidade, que ocorre na estação seca (outubro a fevereiro);

  • influência das marés na região, já que as luas cheia e nova provocam maior variação das marés altas, aproximando os tubarões da costa;

  • construção do Porto de Suape.



Foto vista de cima mostrando um porto. A água está com coloração verde azulada.

Porto de Suape/PE, Brasil, em foto de 2012. Fonte: Daniela Nader/WikimediaCommons (CC BY-SA 2.0).



Em relação ao Porto de Suape, sua construção gerou uma grande degradação ambiental, principalmente em áreas de manguezal, e mudanças de habitats, sendo um dos principais fatores contribuintes para o cenário de ataques de tubarão atual nessa área. Para sua implementação, houve o desvio da desembocadura de rios fazendo com que tubarões-cabeça-chata migrassem desse espaço, o qual era um importante habitat para essa espécie, para um habitat alternativo, uma área com intenso uso humano. Ademais, o porto aumentou a intensidade do tráfego marítimo, atraindo os tubarões para áreas costeiras, pois os indivíduos seguem as embarcações. Além disso, dejetos dos navios são jogados ao mar, atraindo tubarões para a região do porto, que, posteriormente, seguem as correntes para as praias.



VILÕES INJUSTAMENTE


Depois de ler tudo isso, você já deve ter percebido que os tubarões não são vilões, pelo contrário, são muito injustiçados pela mídia sensacionalista. Contudo, é recomendado que se tome atitudes preventivas.


Vale ressaltar que os tubarões são importantíssimos enquanto espécies topo de cadeia para a manutenção da biodiversidade marinha. Além de contribuir para o controle das populações de diversas outras espécies, alimentam-se de animais velhos e doentes. Portanto, têm uma grande importância ecológica para o oceano como um todo.


Então, agora já sabe: esqueça o medo de tubarões, ajude a conservá-los e a acabar com sua má fama!



Escute este artigo também pelo nosso Podcast. Clique aqui!



Bibliografia


CURTIS, T. Carcharhinus leucas. Florida Museum of National History. University of Florida. 1995-2018. Disponível em: <https://www.floridamuseum.ufl.edu/fish/discover/species-profiles/carcharhinus-leucas/>. Acesso em: 8 mar. 2018.


CRISS, D. In case a shark attacks, here’s how you can fight back. Cable News Network. CNN Travel. 2018. Disponível em: <https://edition.cnn.com/travel/article/shark-attacks-summer-tips-to-avoid-trnd/index.html>. Acesso em: 16 ago. 2018.


Florida Museum of Natural History. Reducing Your Risk. International Shark Attack File. 1580-present. Disponível em: <https://www.floridamuseum.ufl.edu/shark-attacks/reduce-risk/>. Acesso em: 20 ago. 2018.


Florida Museum of Natural History. Species Implicated in Attacks. International Shark Attack File. 1580-present. Disponível em: <https://www.floridamuseum.ufl.edu/shark-attacks/factors/species-implicated/>. Acesso em: 17 ago. 2018.


Florida Museum of Natural History. Yearly Worldwide Shark Attack Summary. International Shark Attack File. 1580-present. Disponível em: <https://www.floridamuseum.ufl.edu/shark-attacks/yearly-worldwide-summary/>. Acesso em: 20 ago. 2018.

HAZIN, F. H. V.; BURGESS, G. H.; CARVALHO, F. C. A shark attack outbreak off Recife, Pernambuco, Brazil: 1992–2006. Bulletin of Marine Science, v. 82, n. 2, p. 199-212, 2008.

MCPHEE, D. Unprovoked Shark Bites: Are they becoming more prevalent?. Coastal Management, v. 42, n. 5, p. 478-492, 2014.

MUTER, B. A. et al. Australian and US news media portrayal of sharks and their conservation. Conservation Biology, v. 27, n. 1, p. 187-196, 2012.

NEFF, C. Australian beach safety and the politics of shark attacks. Coastal Management, v. 40, n. 1, p. 88-106, 2012.

SCHULTZ, L. P. Predation of sharks on man. Chesapeake Science, v. 8, n. 1, p. 52-62, 1967.

SZPILMAN, M. Tubarões no Brasil: guia prático de identificação. Rio de Janeiro: Aqualittera, 2004. 160 p.

WOOLGAR, J. D. et al. Shark attack: review of 86 consecutive cases. Journal of Trauma and Acute Care Surgery, v. 50, n. 5, p. 887-891, 2001.



2.354 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


Faça parte!

Contribua com o Projeto Bióicos para a continuidade de nossas produções voluntárias, como: Revista, Poscast, Youtube e Instagram

Participe da vaquinha virtual via PIX

Chave Pix CNPJ: 29.093.477/0001-40
Responsável: prof. Dr. Douglas F. Peiró

Assine a lista e receba as novidades!

Obrigado pelo envio! Verifique seu e-mail e marque-nos como contato seguro!

bottom of page