Quando o mar adoece: evidências de câncer em belugas
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Autores: Beatriz Mendes, Filipe Guilherme Ramos Costa Neves e Raphaela A. Duarte Silveira

Baleia-beluga Delphinapterus leucas. Fonte: Pixabay.
No Estuário do Rio São Lourenço, em Quebec (Canadá), vive uma pequena e isolada população de baleias-beluga Delphinapterus leucas, considerada a mais meridional da espécie. Diferente das demais populações que habitam o Ártico, esse grupo é único por seu isolamento geográfico. Estimativas indicam que, no início do século XX, essa população podia chegar a cerca de 5.000 indivíduos. No entanto, a intensa caça praticada nas primeiras décadas levou a uma drástica redução, restando aproximadamente 500 animais. Essa população não apresenta sinais claros de recuperação, mesmo após quatro décadas, levantando diversas hipóteses para explicar essa estagnação. O estuário onde vivem, por exemplo, recebe descargas de uma das regiões mais industrializadas do mundo, o que aumenta a exposição desses animais a poluentes e pode estar relacionado às dificuldades de recuperação populacional. Então, embora a causa exata não esteja completamente esclarecida, a exposição a compostos carcinogênicos (agentes químicos, físicos ou biológicos capazes de provocar câncer) presentes no estuário e a consequente fragilidade do sistema imunológico surgem como fortes suspeitos.
SOBRE A ESPÉCIE
As baleias-beluga são cetáceos odontocetos, ou seja, baleias dentadas pertencentes à família Monodontidae. Os monodontídeos são mamíferos típicos das águas frias do Ártico, caracterizando-se por uma cabeça arredondada, nadadeiras peitorais curtas e ausência de nadadeira dorsal. Juntamente com as baleias-da-groenlândia e os narvais, as belugas são uma das três baleias que vivem apenas nas águas árticas.

As três representantes das águas árticas (de cima para baixo): baleia-da-groenlândia Balaena mysticetus, narval Monodon monoceros e beluga Delphinapterus leucas. Fonte: NOAA/Wikimedia Commons (CC0), NOAA/Wikimedia Commons (CC0) e NOAA/Wikimedia Commons (CC0).
Quando filhotes, elas são cinza-escuras e à medida que vão atingindo a maturidade, sua pele clareia, tornando-se totalmente branca. O topo da cabeça é caracterizado por uma estrutura que lembra um “melão” redondo e flexível que foca e modula suas vocalizações, incluindo "cliques" de ecolocalização. Dessa forma, utilizam o som para se orientar e caçar presas. Devido à sua grande variedade vocal, foram apelidadas de "canário-do-mar". São animais muito sociais, formando grupos para caçar, migrar e interagir entre si.
O nome do gênero Delphinapterus significa "golfinho sem barbatana". A ausência de nadadeira dorsal facilita mergulhos sob o gelo e reduz a perda de calor; em seu lugar, apresenta uma crista dorsal usada para quebrar gelo fino. Além disso, possuem uma espessa camada de gordura e uma pele grossa, que as ajudam a sobreviver nas águas geladas do ambiente ártico e subártico. A cada verão, as baleias-beluga retornam às áreas onde nasceram para se alimentar e se reproduzir. Seus grupos variam de apenas alguns indivíduos a várias centenas. A dieta dessas belugas é diversificada, incluindo peixes, polvos, lulas, caranguejos, camarões, mariscos, caracóis e vermes da areia.
Pesquisas apontam que essa espécie pode viver até 80 anos, mas seu futuro vem sendo ameaçado. Embora as mudanças climáticas já representem um desafio natural, a intensificação das pressões de origem antrópica, como poluição, tráfego marítimo e exploração de recursos, tem potencializado os efeitos dessas alterações, resultando em degradação acelerada do habitat e consequências diretas para a saúde e conservação da espécie.
AS BALEIAS DO ESTUÁRIO DE SÃO LOURENÇO
No coração do Canadá, o estuário do Rio São Lourenço abriga uma das populações mais emblemáticas e vulneráveis de baleias-beluga que recebem o escoamento de uma das regiões mais industrializadas do mundo. O resultado? Uma convivência forçada com uma mistura perigosa de poluentes, entre eles metais pesados, PCBs e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), substâncias reconhecidamente cancerígenas (que podem aumentar o risco de câncer).
Pesquisas apontam que o número de fêmeas grávidas nessa população é surpreendentemente baixo. A análise dos ovários revelou baixa atividade reprodutiva quando comparada às belugas do Ártico, sugerindo uma ligação direta entre a poluição e falhas reprodutivas. Além disso, alterações hormonais e deficiências nutricionais foram observadas, incluindo problemas na tireoide e baixos níveis de vitamina A, fatores que podem comprometer ainda mais o equilíbrio fisiológico desses animais.
As necropsias também revelaram lesões em diferentes órgãos, como nódulos nas glândulas adrenais e abscessos na tireoide. Ainda mais preocupante é a alta ocorrência de tumores: cerca de 40% dos indivíduos examinados apresentavam algum tipo de neoplasia, uma taxa comparável à humana e muito acima do registrado em outras populações de cetáceos. O câncer do trato digestivo, especialmente próximo ao estômago, mostrou-se particularmente frequente, levantando suspeitas sobre a ingestão de poluentes acumulados nos sedimentos e nos invertebrados dos quais essas baleias se alimentam.
Além dos tumores intestinais, foram encontrados cânceres de mama em fêmeas, algo inédito em cetáceos, além de adenocarcinomas em diversos órgãos. O benzo[a]pireno, um dos carcinógenos mais potentes conhecidos, liberado por indústrias de alumínio na região, é um dos principais suspeitos, pois é capaz de deixar sua “assinatura” no DNA.
SENTINELAS AMBIENTAIS
Essas descobertas reforçam o papel das belugas do São Lourenço como sentinelas ambientais. Devido à sua longevidade e à acumulação de substâncias tóxicas ao longo da vida, elas refletem, de forma clara, os riscos de habitar ecossistemas contaminados. Existe uma semelhança entre os padrões de câncer nas belugas e nas populações humanas que vivem próximas. O que afeta essas baleias também sinaliza perigos para outras espécies, inclusive para os seres humanos que compartilham o mesmo ambiente. Dessa forma, é um alerta claro de que a poluição industrial tem efeitos duradouros e profundos, atingindo não apenas ecossistemas inteiros, mas também espécies longevas como as baleias e, inevitavelmente, nós mesmos.

Estuário do Rio São Lourenço, em Quebec (Canadá). Fonte: Abdallahh/WikimediaCommons (CC BY 2.0).
Bibliografia
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