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Quando o mar adoece: evidências de câncer em belugas

  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Autores: Beatriz Mendes, Filipe Guilherme Ramos Costa Neves e Raphaela A. Duarte Silveira


Fotografia de beluga branca nadando de perfil em água esverdeada, com cabeça arredondada característica e nadadeira peitoral visível, próxima à superfície.

Baleia-beluga Delphinapterus leucas. Fonte: Pixabay.



No Estuário do Rio São Lourenço, em Quebec (Canadá), vive uma pequena e isolada população de baleias-beluga Delphinapterus leucas, considerada a mais meridional da espécie. Diferente das demais populações que habitam o Ártico, esse grupo é único por seu isolamento geográfico. Estimativas indicam que, no início do século XX, essa população podia chegar a cerca de 5.000 indivíduos. No entanto, a intensa caça praticada nas primeiras décadas levou a uma drástica redução, restando aproximadamente 500 animais. Essa população não apresenta sinais claros de recuperação, mesmo após quatro décadas, levantando diversas hipóteses para explicar essa estagnação. O estuário onde vivem, por exemplo, recebe descargas de uma das regiões mais industrializadas do mundo, o que aumenta a exposição desses animais a poluentes e pode estar relacionado às dificuldades de recuperação populacional. Então, embora a causa exata não esteja completamente esclarecida, a exposição a compostos carcinogênicos (agentes químicos, físicos ou biológicos capazes de provocar câncer) presentes no estuário e a consequente fragilidade do sistema imunológico surgem como fortes suspeitos.



SOBRE A ESPÉCIE


As baleias-beluga são cetáceos odontocetos, ou seja, baleias dentadas pertencentes à família Monodontidae. Os monodontídeos são mamíferos típicos das águas frias do Ártico, caracterizando-se por uma cabeça arredondada, nadadeiras peitorais curtas e ausência de nadadeira dorsal. Juntamente com as baleias-da-groenlândia e os narvais, as belugas são uma das três baleias que vivem apenas nas águas árticas.


As três representantes das águas árticas (de cima para baixo): baleia-da-groenlândia Balaena mysticetus, narval Monodon monoceros e beluga Delphinapterus leucas. Fonte: NOAA/Wikimedia Commons (CC0), NOAA/Wikimedia Commons (CC0) e NOAA/Wikimedia Commons (CC0).



Quando filhotes, elas são cinza-escuras e à medida que vão atingindo a maturidade, sua pele clareia, tornando-se totalmente branca. O topo da cabeça é caracterizado por uma estrutura que lembra um “melão” redondo e flexível que foca e modula suas vocalizações, incluindo "cliques" de ecolocalização. Dessa forma, utilizam o som para se orientar e caçar presas. Devido à sua grande variedade vocal, foram apelidadas de "canário-do-mar". São animais muito sociais, formando grupos para caçar, migrar e interagir entre si.


O nome do gênero Delphinapterus significa "golfinho sem barbatana". A ausência de nadadeira dorsal facilita mergulhos sob o gelo e reduz a perda de calor; em seu lugar, apresenta uma crista dorsal usada para quebrar gelo fino. Além disso, possuem uma espessa camada de gordura e uma pele grossa, que as ajudam a sobreviver nas águas geladas do ambiente ártico e subártico. A cada verão, as baleias-beluga retornam às áreas onde nasceram para se alimentar e se reproduzir. Seus grupos variam de apenas alguns indivíduos a várias centenas. A dieta dessas belugas é diversificada, incluindo peixes, polvos, lulas, caranguejos, camarões, mariscos, caracóis e vermes da areia.


Pesquisas apontam que essa espécie pode viver até 80 anos, mas seu futuro vem sendo ameaçado. Embora as mudanças climáticas já representem um desafio natural, a intensificação das pressões de origem antrópica, como poluição, tráfego marítimo e exploração de recursos, tem potencializado os efeitos dessas alterações, resultando em degradação acelerada do habitat e consequências diretas para a saúde e conservação da espécie.



AS BALEIAS DO ESTUÁRIO DE SÃO LOURENÇO


No coração do Canadá, o estuário do Rio São Lourenço abriga uma das populações mais emblemáticas e vulneráveis de baleias-beluga que recebem o escoamento de uma das regiões mais industrializadas do mundo. O resultado? Uma convivência forçada com uma mistura perigosa de poluentes, entre eles metais pesados, PCBs e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), substâncias reconhecidamente cancerígenas (que podem aumentar o risco de câncer).


Pesquisas apontam que o número de fêmeas grávidas nessa população é surpreendentemente baixo. A análise dos ovários revelou baixa atividade reprodutiva quando comparada às belugas do Ártico, sugerindo uma ligação direta entre a poluição e falhas reprodutivas. Além disso, alterações hormonais e deficiências nutricionais foram observadas, incluindo problemas na tireoide e baixos níveis de vitamina A, fatores que podem comprometer ainda mais o equilíbrio fisiológico desses animais.


As necropsias também revelaram lesões em diferentes órgãos, como nódulos nas glândulas adrenais e abscessos na tireoide. Ainda mais preocupante é a alta ocorrência de tumores: cerca de 40% dos indivíduos examinados apresentavam algum tipo de neoplasia, uma taxa comparável à humana e muito acima do registrado em outras populações de cetáceos. O câncer do trato digestivo, especialmente próximo ao estômago, mostrou-se particularmente frequente, levantando suspeitas sobre a ingestão de poluentes acumulados nos sedimentos e nos invertebrados dos quais essas baleias se alimentam.


Além dos tumores intestinais, foram encontrados cânceres de mama em fêmeas, algo inédito em cetáceos, além de adenocarcinomas em diversos órgãos. O benzo[a]pireno, um dos carcinógenos mais potentes conhecidos, liberado por indústrias de alumínio na região, é um dos principais suspeitos, pois é capaz de deixar sua “assinatura” no DNA.



SENTINELAS AMBIENTAIS


Essas descobertas reforçam o papel das belugas do São Lourenço como sentinelas ambientais. Devido à sua longevidade e à acumulação de substâncias tóxicas ao longo da vida, elas refletem, de forma clara, os riscos de habitar ecossistemas contaminados. Existe uma semelhança entre os padrões de câncer nas belugas e nas populações humanas que vivem próximas. O que afeta essas baleias também sinaliza perigos para outras espécies, inclusive para os seres humanos que compartilham o mesmo ambiente. Dessa forma, é um alerta claro de que a poluição industrial tem efeitos duradouros e profundos, atingindo não apenas ecossistemas inteiros, mas também espécies longevas como as baleias e, inevitavelmente, nós mesmos.


Fotografia de cima do estuário do rio São Lourenço no Canadá. Ao lado há várias casas e vegetação.

Estuário do Rio São Lourenço, em Quebec (Canadá). Fonte: Abdallahh/WikimediaCommons (CC BY 2.0).




Bibliografia


BELUGA Whale. NOAA Fisheries, 2025. Disponível em: <https://www.fisheries.noaa.gov/species/beluga-whale> Acesso em: 20 ago. 2025.


DE GUISE, S. et al. Possible mechanisms of action of environmental contaminants on St. Lawrence beluga whales (Delphinapterus leucas). Environmental Health Perspectives, v. 103, n. 4, p. 73-77, 1995.


GUISE, S. De; LAGACÉ, A.; BÉLAND, P. Tumors in St. Lawrence beluga whales (Delphinapterus leucas). Veterinary Pathology, v. 31, n. 4, p. 444-449, 1994.


MARTINEAU, D. et al. Cancer in wildlife, a case study: beluga from the St. Lawrence estuary, Québec, Canada. Environmental health perspectives, v. 110, n. 3, p. 285-292, 2002.


THE CIRCLE MAGAZINE. WWF Arctic, [s.d]. Beluga whale. Disponível em: <https://www.arcticwwf.org/wildlife/beluga-whale/> Acesso em: 20 ago. 2025.



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