Aquecimento global: perigo para os cavalos-marinhos
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Autores: Maria Victoria Fenerich Tormena, Filipe Guilherme Ramos Costa Neves e Raphaela A. Duarte Silveira

Cavalo-marinho em Las Palmas de Gran Canaria na Espanha. Fonte: Sergiu lacob/Pexels.
A Terra está em constante mudança, mas nas últimas décadas a aceleração dessas transformações tem levantado sérias preocupações, especialmente no que diz respeito ao aquecimento global. O aumento das emissões de gases de efeito estufa está alterando profundamente a dinâmica do oceano, impactando diretamente a vida marinha. Entre as espécies afetadas, os delicados cavalos-marinhos se destacam como verdadeiros termômetros ambientais, refletindo em seus corpos os efeitos de um oceano em desequilíbrio.
HISTÓRIA
Antes de falar do aquecimento global, temos que entender que a Terra está em constante transformação. Mas o problema é que essas transformações estão ocorrendo de forma drástica e extensa, impedindo e/ou dificultando a sobrevivência de espécies que vivem nela.
A Terra já passou por vários períodos glaciais, iniciando no Período Pré-Cambriano, há cerca de 570 milhões de anos. A última era do gelo, seguida por um aquecimento, ocorreu há aproximadamente 20 mil anos.
Nos séculos XX e XXI, à medida que a produção industrial aumentou, também ocorreu um crescimento significativo na emissão de dióxido de carbono (CO2), impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis. Esse gás é de extrema importância para a Terra, por exemplo, na fotossíntese. No entanto, o aumento de sua concentração na atmosfera está diretamente relacionado ao aumento de sua presença no oceano.

Indústrias costeiras liberando gases poluentes e fumaça, retratando o impacto humano no aquecimento global. Fonte: Chris LeBoutillier/Pixabay.
AQUECIMENTO GLOBAL
O oceano absorve a maior parte do calor gerado pelo aquecimento global. Quando esse calor é absorvido, mudanças físicas ocorrem no oceano. A principal mudança é no seu volume, que vem aumentando devido ao derretimento de placas de gelo e à expansão da água aquecida. Isso causa o aumento do nível do oceano, levando a inundações e favorecendo a penetração de água salgada em rios e lagos. Essa intrusão salina altera a composição da água doce, gerando impactos na fauna e flora do local.
Além das mudanças físicas, mudanças químicas também ocorrem, através da acidificação de suas águas. A acidificação do oceano ocorre devido às reações ocorridas pela absorção do CO2 no oceano, tornando-o mais ácido. Essas transformações químicas liberam íons de hidrogênio (H⁺), que se ligam aos carbonatos disponíveis na água, dificultando a formação de carbonato de cálcio (CaCO₃). Essas reações químicas afetam diversas espécies, como organismos que formam conchas, e o fitoplâncton, algas microscópicas que além de pertencerem à base da cadeia alimentar, também produzem grande parte do oxigênio do planeta. É importante ressaltar que devido ao aumento acelerado das temperaturas, esse processo que antes ocorria de forma natural e controlada, agora se tornou prejudicial ao habitat marinho, impactando o desenvolvimento dos animais mais jovens devido ao estresse oxidativo.
O aumento das temperaturas do oceano afeta em especial os animais ectotérmicos, que dependem de fontes de calor externas para regular sua temperatura corporal, como por exemplo os cavalos-marinhos. Com as crescentes concentrações dos gases do efeito estufa, acredita-se que o aumento das temperaturas até o final do século será de 1,1 a 6,4°C. Esse aumento da temperatura global vem sendo monitorado pela NOAA desde 1940, em que as temperaturas apareciam variando positivamente e negativamente até 1970. Porém, a partir dos anos 70, seu aumento foi exponencial, apresentando na década passada (2011-2020) um ritmo nunca visto antes.
CAVALOS-MARINHOS
Os cavalos-marinhos são do gênero Hippocampus e contam com mais de 50 espécies muito semelhantes entre si, exceto em seu tamanho, que pode ser entre 1,5 e 34 centímetros, e em sua coloração, que pode ser malhada ou listrada. São peixes ósseos encontrados em águas calmas e rasas nos mares de regiões tropicais, subtropicais e temperadas. São animais ectotérmicos; dependem do ambiente em que estão para regular sua temperatura interna, contando com uma temperatura ótima de 21-23 °C no seu habitat natural, suportando no máximo 25 °C. Acima desse limite, sua fisiologia entra em colapso: sua respiração acelera, a taxa de mortalidade aumenta e sua capacidade de se reproduzir diminui drasticamente.

Cavalo-marinho no Aquário de Cairns, Austrália. Fonte: David Clode/Unsplash.
CAVALO-MARINHO COMO BIOINDICADOR
Os cavalos-marinhos desempenham um papel ecológico fundamental nos ecossistemas marinhos costeiros. Alimentando-se de pequenos crustáceos e larvas, atuam no controle dessas populações e contribuem para o equilíbrio da cadeia alimentar. Além disso, são considerados bioindicadores da saúde ambiental, já que refletem a qualidade e o equilíbrio do ambiente em que vivem, enquanto seu desaparecimento pode sinalizar impactos severos no ecossistema. Por exemplo, caso o ambiente seja contaminado por petróleo, os cavalos-marinhos morrerão devido ao acúmulo de hidrocarbonetos em seus corpos.
ALTERAÇÕES PELO AQUECIMENTO GLOBAL
O aquecimento global impõe sérios riscos aos cavalos‑marinhos. Em um estudo realizado com o cavalo-marinho-raiado, Hippocampus erectus, o aumento agudo da temperatura ambiente para 30 °C aumentou a frequência respiratória e o estresse térmico desses animais. Se essa temperatura for persistente, sua taxa metabólica aumenta, danos celulares ocorrem, a reprodução é reduzida e há um aumento da mortalidade.

Grupo de cavalos-marinhos de diferentes cores no Aquário de Cairns, na Austrália. Fonte: David Clode/Unsplash.
Um estudo apontou que o aumento das ondas de calor causado pelo aquecimento global pode alterar o padrão migratório dos cavalos-marinhos. O cavalo-marinho-raiado, Hippocampus erectus, por exemplo, pode começar a se mover das águas quentes do Caribe e do Golfo do México para regiões mais ao sul, com temperaturas mais amenas. Essa mudança de habitat causa fragmentação populacional, redução genética, aumento da competição com outras espécies e habitat inadequado para seu desenvolvimento máximo.
O aquecimento global não é mais uma previsão distante, seus efeitos já estão em curso e o oceano, essencial à vida no planeta, é um dos mais afetados. O cavalo-marinho, com sua fisiologia sensível e papel ecológico relevante, exemplifica como uma única espécie pode servir de alerta para desequilíbrios maiores. Proteger essas criaturas é proteger todo um ecossistema que depende do equilíbrio térmico, químico e ecológico do ambiente marinho.
Bibliografia
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