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Aquecimento global: perigo para os cavalos-marinhos

  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Autores: Maria Victoria Fenerich Tormena, Filipe Guilherme Ramos Costa Neves e Raphaela A. Duarte Silveira


Fotografia de um cavalo marinho amarelo com vários pontos pretos espalhados pelo corpo nadando. O fundo está desfocado.

Cavalo-marinho em Las Palmas de Gran Canaria na Espanha. Fonte: Sergiu lacob/Pexels.



A Terra está em constante mudança, mas nas últimas décadas a aceleração dessas transformações tem levantado sérias preocupações, especialmente no que diz respeito ao aquecimento global. O aumento das emissões de gases de efeito estufa está alterando profundamente a dinâmica do oceano, impactando diretamente a vida marinha. Entre as espécies afetadas, os delicados cavalos-marinhos se destacam como verdadeiros termômetros ambientais, refletindo em seus corpos os efeitos de um oceano em desequilíbrio.



HISTÓRIA


Antes de falar do aquecimento global, temos que entender que a Terra está em constante transformação. Mas o problema é que essas transformações estão ocorrendo de forma drástica e extensa, impedindo e/ou dificultando a sobrevivência de espécies que vivem nela.


A Terra já passou por vários períodos glaciais, iniciando no Período Pré-Cambriano, há cerca de 570 milhões de anos. A última era do gelo, seguida por um aquecimento, ocorreu há aproximadamente 20 mil anos.


Nos séculos XX e XXI, à medida que a produção industrial aumentou, também ocorreu um crescimento significativo na emissão de dióxido de carbono (CO2), impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis. Esse gás é de extrema importância para a Terra, por exemplo, na fotossíntese. No entanto, o aumento de sua concentração na atmosfera está diretamente relacionado ao aumento de sua presença no oceano.


Fotografia de várias chaminés de uma indústria numa região costeira, emitindo fumaça na atmosfera. Um navio está passando em frente à indústria.

Indústrias costeiras liberando gases poluentes e fumaça, retratando o impacto humano no aquecimento global. Fonte: Chris LeBoutillier/Pixabay.



AQUECIMENTO GLOBAL


O oceano absorve a maior parte do calor gerado pelo aquecimento global. Quando esse calor é absorvido, mudanças físicas ocorrem no oceano. A principal mudança é no seu volume, que vem aumentando devido ao derretimento de placas de gelo e à expansão da água aquecida. Isso causa o aumento do nível do oceano, levando a inundações e favorecendo a penetração de água salgada em rios e lagos. Essa intrusão salina altera a composição da água doce, gerando impactos na fauna e flora do local.


Além das mudanças físicas, mudanças químicas também ocorrem, através da acidificação de suas águas. A acidificação do oceano ocorre devido às reações ocorridas pela absorção do CO2 no oceano, tornando-o mais ácido. Essas transformações químicas liberam íons de hidrogênio (H⁺), que se ligam aos carbonatos disponíveis na água, dificultando a formação de carbonato de cálcio (CaCO₃). Essas reações químicas afetam diversas espécies, como organismos que formam conchas, e o fitoplâncton, algas microscópicas que além de pertencerem à base da cadeia alimentar, também produzem grande parte do oxigênio do planeta. É importante ressaltar que devido ao aumento acelerado das temperaturas, esse processo que antes ocorria de forma natural e controlada, agora se tornou prejudicial ao habitat marinho, impactando o desenvolvimento dos animais mais jovens devido ao estresse oxidativo.


O aumento das temperaturas do oceano afeta em especial os animais ectotérmicos, que dependem de fontes de calor externas para regular sua temperatura corporal, como por exemplo os cavalos-marinhos. Com as crescentes concentrações dos gases do efeito estufa, acredita-se que o aumento das temperaturas até o final do século será de 1,1 a 6,4°C. Esse aumento da temperatura global vem sendo monitorado pela NOAA desde 1940, em que as temperaturas apareciam variando positivamente e negativamente até 1970. Porém, a partir dos anos 70, seu aumento foi exponencial, apresentando na década passada (2011-2020) um ritmo nunca visto antes.



CAVALOS-MARINHOS


Os cavalos-marinhos são do gênero Hippocampus e contam com mais de 50 espécies muito semelhantes entre si, exceto em seu tamanho, que pode ser entre 1,5 e 34 centímetros, e em sua coloração, que pode ser malhada ou listrada. São peixes ósseos encontrados em águas calmas e rasas nos mares de regiões tropicais, subtropicais e temperadas. São animais ectotérmicos; dependem do ambiente em que estão para regular sua temperatura interna, contando com uma temperatura ótima de 21-23 °C no seu habitat natural, suportando no máximo 25 °C. Acima desse limite, sua fisiologia entra em colapso: sua respiração acelera, a taxa de mortalidade aumenta e sua capacidade de se reproduzir diminui drasticamente.


Fotografia de um cavalo marinho rosa com um coral com a cor semelhante ao fundo.

Cavalo-marinho no Aquário de Cairns, Austrália. Fonte: David Clode/Unsplash.



CAVALO-MARINHO COMO BIOINDICADOR


Os cavalos-marinhos desempenham um papel ecológico fundamental nos ecossistemas marinhos costeiros. Alimentando-se de pequenos crustáceos e larvas, atuam no controle dessas populações e contribuem para o equilíbrio da cadeia alimentar. Além disso, são considerados bioindicadores da saúde ambiental, já que refletem a qualidade e o equilíbrio do ambiente em que vivem, enquanto seu desaparecimento pode sinalizar impactos severos no ecossistema. Por exemplo, caso o ambiente seja contaminado por petróleo, os cavalos-marinhos morrerão devido ao acúmulo de hidrocarbonetos em seus corpos.



ALTERAÇÕES PELO AQUECIMENTO GLOBAL


O aquecimento global impõe sérios riscos aos cavalos‑marinhos. Em um estudo realizado com o cavalo-marinho-raiado, Hippocampus erectus, o aumento agudo da temperatura ambiente para 30 °C aumentou a frequência respiratória e o estresse térmico desses animais. Se essa temperatura for persistente, sua taxa metabólica aumenta, danos celulares ocorrem, a reprodução é reduzida e há um aumento da mortalidade.


Dezenas de cavalos-marinhos de cores claras e escuras, nadando em um aquário. Há uma estrutura semelhante a uma planta marinha no aquário sobre um fundo azul-escuro.

Grupo de cavalos-marinhos de diferentes cores no Aquário de Cairns, na Austrália. Fonte: David Clode/Unsplash.



Um estudo apontou que o aumento das ondas de calor causado pelo aquecimento global pode alterar o padrão migratório dos cavalos-marinhos. O cavalo-marinho-raiado, Hippocampus erectus, por exemplo, pode começar a se mover das águas quentes do Caribe e do Golfo do México para regiões mais ao sul, com temperaturas mais amenas. Essa mudança de habitat causa fragmentação populacional, redução genética, aumento da competição com outras espécies e habitat inadequado para seu desenvolvimento máximo.


O aquecimento global não é mais uma previsão distante, seus efeitos já estão em curso e o oceano, essencial à vida no planeta, é um dos mais afetados. O cavalo-marinho, com sua fisiologia sensível e papel ecológico relevante, exemplifica como uma única espécie pode servir de alerta para desequilíbrios maiores. Proteger essas criaturas é proteger todo um ecossistema que depende do equilíbrio térmico, químico e ecológico do ambiente marinho.




Bibliografia


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