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Caranguejo “maria-farinha” como indicador de impacto ambiental

  • há 14 minutos
  • 5 min de leitura

Autoras: Beatriz Mendes e Raphaela A. Duarte Silveira


Foto de um caranguejo da espécie Ocypode quadrata saindo de uma toca sob a areia da praia.

Caranguejo Ocypode quadrata, popularmente conhecido como maria-farinha. Fonte: Pixabay.



Atualmente, as faixas de areia estão gradativamente mais reduzidas devido à ocupação urbana. A remoção das restingas intensificou esse processo, e hoje é comum observar praias superlotadas, com banhistas e turistas ao longo de toda a orla. E existem muitos organismos que residem sob a areia da praia ou a utilizam em alguma fase da sua vida, seja para descanso, reprodução ou alimentação. Esses seres são de extrema importância para o ecossistema marinho e vitais para a cadeia trófica.


Em virtude de seu tamanho e sua estratégia adaptativa (construção de tocas), Ocypode quadrata foi selecionada como uma ótima espécie para avaliar a qualidade ambiental. Por isso, diversos estudos utilizam essa espécie como bioindicadora de impactos antropogênicos nas praias brasileiras, analisando a contagem de tocas e comparando áreas urbanas com praias mais afastadas dos centros.



SOBRE A ESPÉCIE


É mundialmente conhecida como caranguejo-fantasma (ghost crab), porém no Brasil, é mais popularmente conhecida como maria-farinha. É o invertebrado mais comumente avistado ao longo de toda a costa atlântica ocidental. Como predador de topo da cadeia alimentar, alimenta-se de pequenos crustáceos e moluscos, como o “tatuí” e o “sarnambi”, além de insetos e restos de algas. Além disso, desempenha um papel importante na decomposição ao consumir carcaças de animais, contribuindo para o equilíbrio do ecossistema.


Embora seja frequentemente observado em terra ou em suas tocas, que podem ter até 1,3 m de profundidade, sua respiração ocorre por meio de brânquias, tornando a presença de água essencial para esse processo. Sua distribuição por toda a extensão da faixa de areia e da restinga baixa, incluindo a localização de suas tocas, está relacionada ao tamanho do indivíduo. Por exemplo, indivíduos maiores conseguem construir tocas mais profundas, possibilitando sua sobrevivência em áreas mais afastadas da água. Já os menores não conseguem construir com muita profundidade, então são mais suscetíveis à dessecação e têm predominância nas áreas mais próximas à água. Além disso, o tamanho também indica fatores como idade e sexo (machos, por exemplo, tendem a ser maiores).


A distinção entre machos e fêmeas pode ser observada no formato do abdômen, localizado na carapaça ventral. Nas fêmeas, essa estrutura é mais larga, permitindo a acomodação dos ovos durante o período reprodutivo, que ocorre durante todo o ano no Brasil.


Foto de dois indivíduos de maria-farinha, sendo segurados por duas mãos. A esquerda o macho, visto ventralmente, mostrando o seu abdômen mais estreito e triangular, e a direita, a fêmea, também vista ventralmente, possui um abdômen mais amplo e redondo.

Diferenciação de sexo na espécie Ocypode quadrata. À esquerda, um macho com o abdômen mais estreito e triangular e à direita, uma fêmea com o abdômen mais largo e redondo. Fonte: Alef Costa Alves/ iNaturalistEc (CC-BY-NC).



As atividades da espécie não são particularmente vinculadas aos períodos noturnos ou diurnos, e sim às temperaturas. Essa espécie possui um limite máximo de temperatura, que, caso seja excedido, ou seja, em períodos mais quentes dos dias de verão, os animais se afastam da superfície, ficando em suas tocas.


Fotografia do caranguejo Ocypode quadrata entrando em sua toca na areia da praia.

Toca de “maria-farinha”. Fonte: MarvinMep/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).



IMPACTOS ANTROPOGÊNICOS


Impactos antropogênicos, ou de origem antrópica, são impactos causados por atividades humanas, como por exemplo urbanização, poluição, desmatamentos, industrialização etc. Nas praias, a ocupação desordenada, o aumento do turismo e das atividades recreativas são potenciais fontes de impacto, resultando na descaracterização e degradação do sedimento.


Outra atividade antrópica que pode impactar diretamente os caranguejos e outras espécies é o tráfego de veículos fora da estrada, como buggy e jipes, que são mais usados em terrenos irregulares como trilhas, lama e areia. Além de modificar o solo do habitat, esses automóveis podem esmagá-los ou enterrá-los dentro de suas tocas. Estudos indicam que o atropelamento é uma das principais ameaças à maria-farinha. Quando um indivíduo é morto ainda na fase juvenil, seu ciclo reprodutivo é interrompido, comprometendo a continuidade da espécie.


A perda da vegetação também é preocupante, pois além de retirar uma proteção natural que atua como uma barreira física entre o mar e o asfalto, sendo prejudicial também para os humanos, isso impede que os indivíduos utilizem-na durante épocas de maré cheia e ressaca para se refugiar. Ademais, esses animais também podem acabar consumindo o plástico, microplástico e outros detritos antropogênicos deixados nas praias pelos banhistas.


É importante destacar que as variações significativas de temperatura registradas nos últimos anos podem impactar essa espécie, uma vez que ela é altamente sensível às mudanças climáticas. Alterações na temperatura, na direção e na intensidade dos ventos, bem como na altura e no alcance das ondas influenciam diretamente suas atividades. Em condições extremas, a presença dessa espécie na praia pode ser completamente ausente. O ser humano contribui para as alterações de temperatura atuais principalmente por meio das emissões de gases de efeito estufa (GEE), como dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄), resultantes da queima de combustíveis fósseis, desmatamento e atividades industriais. Esses gases aumentam a retenção de calor na atmosfera, intensificando o aquecimento global.


Fotografia de uma parte da praia em três planos. No primeiro plano, há veículos buggys estacionados na areia. Em segundo plano a faixa de areia está com um excesso de banhistas, desenvolvendo diversas atividades recreativas. E em terceiro plano, há o oceano com algumas ondas.

Praia lotada com veículos estacionados na faixa de areia. Fonte: Unsplash.



A MARIA-FARINHA COMO BIOINDICADORA


Essa espécie de caranguejo é um cavador hábil, que constrói tocas para fugir de predadores e se camuflar. A contagem das tocas facilita o trabalho e o monitoramento ambiental dos cientistas, já que podem estudar o animal de maneira indireta. O que é uma ótima ferramenta de comparação entre as praias mais populosas e as menos frequentadas.


Observou-se nos estudos realizados com a espécie que de fato a taxa de ocupação das tocas difere conforme o nível de impacto das áreas. As praias localizadas em zonas urbanas, onde ocorre o uso exacerbado da faixa de areia gerando maior impacto devido às atividades humanas, apresentam menor densidade populacional da espécie quando comparadas às praias com menor interferência antrópica.


Devido a essa sensibilidade, O. quadrata tem sido amplamente utilizada como bioindicador ambiental, já que perturbações como pisoteamento, deposição de lixo, supressão de habitat e de fluxo de veículos podem afetar diretamente sua abundância. Nas regiões fora do ambiente urbano, a quantidade de tocas é consideravelmente superior, reforçando a importância da maria-farinha como um bioindicador eficaz para avaliar os impactos provenientes das ações humanas em praias arenosas.




Bibliografia


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