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Mergulho nas profundezas: conhecendo os cachalotes

Atualizado: 8 de jun.

Autores: Maria Clara S. Bicharra, Filipe Guilherme R. C. Neves, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró


Imagem de uma mergulhadora nadando lado a lado com um baleia cachalote próximas a superfície.

Mergulhadora nadando junto com um cachalote. Fonte: Will Falcon/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).



Os cachalotes Physeter macrocephalus são um dos mamíferos marinhos mais fascinantes. Certamente, se você nunca ouviu falar delas por esse nome, com certeza já ouviu falar nos contos de Moby Dick, de Herman Melville! Nesse conto a ‘baleia’ descrita por Melville nada mais é do que um cachalote.


Conhecidos por mergulharem mais de 3.000 metros de profundidade e por se alimentarem de lulas colossais da espécie Mesonychoteuthis hamiltoni, os cachalotes são um dos animais mais fascinantes do planeta!



GIGANTES DO OCEANO


Os cachalotes são a maior espécie dentro da família dos odontocetos, nome dado ao grupo que reúne as espécies de cetáceos que possuem dentes. Esses animais são tão diferentes que são classificados na família Physeteridae, a qual possui somente cachalotes como membros.


As fêmeas alcançam 12,5 metros de comprimento, quase o tamanho de um ônibus! Os machos, por sua vez, atingem até 18 metros de comprimento. Essa diferença de tamanho entre macho e fêmea caracteriza a espécie como os animais que possuem o maior dimorfismo sexual entre os mamíferos marinhos. O seu peso varia de 35 até 45 toneladas.


Ilustração de duas baleias cachalotes, um macho em cima e uma fêmea embaixo, onde demonstra a comparação de tamanho entre ambos, e também a comparação entre as baleias e um mergulhador.

Comparação entre o tamanho de um macho (16m) e uma fêmea (11m) de cachalotes ao lado de um mergulhador humano (1,75m). Fonte: Kurzon/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



O cachalote possui uma ampla distribuição geográfica, sendo encontrado por quase todo o globo, desde a Linha do Equador até próximos aos polos, e em todas as bacias oceânicas: Pacífico, Atlântico, Índico, Ártico e Antártico…e até no mar Mediterrâneo! Eles são a segunda espécie com maior distribuição dentre os cetáceos, perdendo apenas para a orca Orcinus orca.


Essa espécie possui o interessante comportamento de dormir na posição vertical próximo à superfície, fazendo isso em grupos. Uma das suposições mais comuns é que eles dormem com metade do cérebro “desligado”, porém um estudo dos últimos anos observou um acontecimento em que os cachalotes que estavam dormindo próximos a superfície acordaram apenas quando um barco com os motores desligados, acidentalmente encostou em um deles, acordando-os. Isso sugere que os cachalotes também podem dormir e “desligar” o cérebro para descansarem.


Assim como a maioria dos cetáceos, eles têm o comportamento de viverem em ‘baleal, formando grandes grupos entre 15 e 20 indivíduos. Esses grupos normalmente são formados apenas por fêmeas e seus filhotes, que sempre irão buscar águas mais quentes, permanecendo somente nas regiões subtropicais e tropicais. Já os machos não permanecem fixos no mesmo ‘baleal’ pois costumam nadar sozinhos ou mesmo transitar entre grupos diferentes, migrando para locais de altas latitudes com águas mais frias e retornando para as regiões mais tropicais durante a época reprodutiva.


Imagem de um grupo com sete baleias cachalotes nadando próximas a superfície e interagindo entre si.

Baleal de cachalotes com sete indivíduos nadando no oceano. Fonte: Will Falcon/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).



USANDO A ECOLOCALIZAÇÃO


Os cachalotes possuem o maior cérebro conhecido no reino animal! Com uma cabeça proporcionalmente maior que seu corpo, eles possuem uma substância chamada espermacete, que fica localizada dentro do seu crânio. O espermacete é uma substância de natureza lipídica (gordurosa), semelhante a um óleo ou cera, sendo objeto de estudo de muitos cientistas. Os pesquisadores acreditam que o espermacete tem uma importante função para dois principais propósitos: realizar a ecolocalização e regular a flutuabilidade durante o mergulho.


Mas o que é ecolocalização e como funciona? Estudos mostram que os cachalotes usam o método de ecolocalização para duas principais atividades: comunicação intraespecífica e predação.


A ecolocalização nada mais é que a emissão de ondas sonoras, que são amplificadas ao passar pelo espermacete dentro do crânio da cachalote. Quando essas ondas atingem um objeto elas ecoam de volta até a parte inferior da mandibula da cachalote, que direciona esse som até seus ouvidos, e dessa forma os animais conseguem captar diferentes percepções, como: identificar a distância, o tamanho e até a densidade de determinado objeto.


Além disso, eles emitem essas ondas sonoras de maneiras distintas! Cada indivíduo tem um som único, o qual é chamado de ‘codas’, e isso confere a elas diferentes vocalizações, possibilitando a comunicação intraespecífica, ou seja, entre indivíduos da mesma espécie. Os cachalotes possuem uma comunicação tão complexa que esse é um dos principais mistérios que os cientistas tentam desvendar até hoje.


Ilustração representando a localização e características do órgão espermacete que se localiza dentro da cabeça da cachalote, mostrando o corte transversal e sagital do crânio da baleia. No corte transversal há de baixo para cima a mandíbula superior, o melão e o espermacete. No corte sagital há as mesmas regiões, mas vistas da lateral.

Corte transversal e sagital mostrando a localização do espermacete no crânio de um cachalote Physeter macrocephalus. Fonte: Kurzon/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



OS MAIORES PREDADORES DO PLANETA


Os cachalotes são animais tão incríveis que eles também são considerados os maiores predadores do planeta. Como falado anteriormente, sabemos que a ecolocalização e o espermacete têm um papel essencial para sua alimentação, mas também acredita-se que esses animais utilizam o espermacete para regular sua flutuabilidade. Há hipóteses de que eles conseguem provocar alterações na densidade dessa substância, permitindo mergulhos a grandes profundidades em busca de alimento e ao retornar à superfície com pouco gasto de energia. Dessa forma, os cachalotes tem uma grande importância no ecossistema marinho, pois possuem a capacidade de circular e reciclar os nutrientes que estão presentes nas profundezas, trazendo-os até a superfície na coluna d'água.


Esses animais são famosos por predarem as lulas colossais. Isso porque os cachalotes são capazes de mergulhar grandes profundidades, até 3.200 m e permanecer submersos por até 90 minutos, à procura de seu alimento. As lulas colossais são animais que vivem em profundidades médias de 1.500 m, ou até mais.


Os cachalotes conseguem comer até uma tonelada de lulas e peixes por dia. Quando eles retornam à superfície, podem ficar em repouso por até 10 minutos no que é chamado de “rafting”, uma recuperação do longo mergulho. Contudo, até hoje, não há nenhum registro em vídeo deles comendo lulas. Mas sabe-se que eles se alimentam das lulas colossais devido aos pedaços das lulas encontrados no trato digestório.


Por fim, os cachalotes são animais de extrema importância para o equilíbrio do oceano, sendo responsáveis pelo equilíbrio das cadeias tróficas, pela regulação e circulação de nutrientes nos mares e pela manutenção e equilíbrio populacional de diferentes espécies marinhas.


 Imagem representando a alimentação de uma baleia cachalote por uma lula gigante, demonstrando a luta entre esses dois animais. A lula está presa na boca da baleia, com seus tentáculos grudados em sua cabeça, boca e olhos, enquanto a baleia tenta se alimentar da lula.

Representação da predação de um cachalote por uma lula colossal. Fonte: Mike Goren/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



Bibliografia


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