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Proteção da Baleia Franca: qual a sua importância?

Atualizado: 19 de fev.

Autores: Maria Eduarda Barbosa Brandão, Filipe Guilherme Ramos Costa Neves, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró


A fotografia aérea é de duas baleias, uma mãe e o seu filhote, ambos estão nadando um ao lado do outro, a coloração do corpo é preta com manchas brancas na região frontal.

Mãe com filhote na APABF na temporada reprodutiva de 2023. É possível observar a ausência de nadadeira dorsal e a presença de calosidades na região da cabeça. Fonte: foto cedida por © 2023 Bárbara Piovani.



VOCÊ CONHECE A APA DA BALEIA FRANCA?


A Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca ou APABF foi criada em 2000 com o objetivo de proteger as baleias francas em processo de recuperação populacional. Localizada no sul de Santa Catarina, engloba 9 municípios e cobre uma área de 156 mil hectares e 130 km de costa marítima, sendo gerida pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio).


As francas são animais migratórios que, anualmente, percorrem longas distâncias da área de alimentação, na Antártica, onde se alimentam de krill (um pequeno crustáceo) e de peixes, até a área de reprodução, onde procriam e têm os seus filhotes. No Brasil, são avistadas no período entre julho e dezembro. Essa migração ocorre devido às águas quentes brasileiras, condição necessária ao desenvolvimento dos filhotes, que nascem com gordura corporal insuficiente para suportar a água gelada da região antártica.


a imagem é de um mapa com diversas zonas pintadas de cores diferentes representando o litoral de Santa Catarina.

Mapa da APABF com as zonas estabelecidas pelo plano de manejo. Fonte: Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBIO) (CC BY-ND 3.0).



CARACTERÍSTICAS DA BALEIA-FRANCA


A baleia-franca-austral Eubalaena australis é um cetáceo com ausência de nadadeira dorsal, característica que compartilha com as outras duas espécies do gênero, a Eubalaena glacialis e a Eubalaena japonica. Entre as baleias-francas do Hemisfério Sul, a baleia-franca-austral é a única com essa característica, sendo facilmente distinguida. Além disso, possui os orifícios respiratórios separados, provocando um borrifo em formato de “V”, consequência do processo de respiração, devido à condensação do ar quente dos pulmões que, em contato com o ar frio do ambiente externo, forma o que se assemelha com um spray de água. Nesse vídeo podemos observar o borrifo de uma baleia-franca.



E COMO AS FRANCAS SÃO IDENTIFICADAS?


A identificação dos indivíduos é realizada a partir do reconhecimento de calosidades na região da cabeça. Essas calosidades são espessamentos da epiderme colonizados pelos ciamídeos, que determinam uma coloração branca ou amarelada e variam conforme número, formato e tamanho. Essas calosidades são formadas nos primeiros meses de vida dos filhotes e se assemelham às nossas digitais, únicas em cada indivíduo, possibilitando mapeá-lo e monitorá-lo durante a temporada reprodutiva.



DIVERSIDADE DE ESPÉCIES


Embora popularmente chamada de baleia-franca, há outras espécies na APABF. Você já ouviu falar sobre o boto-da-tainha? Esse é um dos nomes populares do golfinho-nariz-de-garrafa, Tursiops truncatus gephyreus, população residente em Laguna-SC. O nome tem origem no hábito desenvolvido por esses animais, que pescam cooperativamente com os pescadores da região, majoritariamente durante os meses de junho e julho, época de migração do peixe tainha.


Ficou curioso para saber como ocorre essa interação? Vamos compreender!


A água, onde ocorre essa pesca em Laguna, apresenta uma alta turbidez, tornando difícil aos pescadores encontrar os cardumes. Nesse cenário, os botos cercam os cardumes em direção aos pescadores que, após perceberem a presença dos peixes e dos botos, lançam as redes de pesca para capturá-los. Os peixes não capturados são presas fáceis para os botos, tornando essa cooperação positiva para os pescadores e para os botos-da-tainha.


A imagem aérea mostra dois golfinhos e próximo a eles 11 pescadores e dois barcos.

A pesca cooperativa entre os botos e os pescadores é considerada patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina. Fonte: fotografia cedida por © 2023 Pedro Furtado.



Além do boto-da-tainha, outra espécie de golfinho avistada é a toninha Pontoporia blainvillei, a menor espécie de golfinho que ocorre em águas sul-americanas, classificada como “criticamente em perigo” pela Lista das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. Essa informação revela a grande importância da APA da Baleia Franca para a conservação de espécies ameaçadas.


A região também abriga espécies de pinípedes, como o lobo-marinho-sul-americano Arctocephalus australis e o elefante-marinho-sul-americano Mirounga leonina que, em sua maioria, estão saudáveis e buscam uma praia ou um costão rochoso para descansar.


As tartarugas-marinhas utilizam a APABF como área de alimentação, especialmente a tartaruga-verde Chelonia mydas e a tartaruga-cabeçuda Caretta caretta, duas das cinco espécies que ocorrem no litoral brasileiro, e as quais se alimentam preferencialmente de algas e de crustáceos.


Imagem 1: Tartaruga-marinha no fundo do mar.  Imagem 2: Duas tartarugas marinhas no fundo do mar. Uma próxima tem alguns peixes se alimentado de algas presentes no seu casco e uma mais distante. Imagem 3: Um lobo-marinho em cima de um costão rochoso descansando. Imagem 4:  um elefante-marinho sob uma rocha com a boca aberta e presença de pinguins ao fundo.

(1) Tartaruga-cabeçuda, Caretta caretta; (2) tartaruga-verde, Chelonia mydas; (3) lobo-marinho Arctocephalus australis e (4) elefante-marinho-do-sul Mirounga leonina. Fonte: (1) James St. John/ Wikimedia Commons (CC BY 2.0), (2) foto cedida por Rafael Mesquita, (3) Georges/Wikimedia Commons (CC BY 3.0) e (4) B.navez/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



ECOTURISMO


As baleias-francas são costeiras e lentas em sua natação. Tais características foram as principais responsáveis pela intensa pressão pesqueira sobre a espécie durante o período da caça, reduzindo a população em números próximos à extinção. O turismo de observação de cetáceos é um tipo de ecoturismo e surgiu como uma alternativa à caça comercial. Para tal, o ICMBio elaborou um manual de boas práticas para observação de baleias, a fim de minimizar potenciais riscos à espécie.


Na região da APABF há a Rota da Baleia Franca, formada pelos municípios de Garopaba, Imbituba e Laguna. A presença da baleia-franca atrai diversos turistas à região. Contudo, o turismo embarcado foi proibido em Santa Catarina em 2013, após denúncias de descumprimento das diretrizes do IBAMA e por molestamento dos animais, tais como aproximações frontais e perseguições, além do risco de colisões com embarcações e de distúrbios acústicos. Essas práticas evidenciam que apenas a existência da legislação não é suficiente, sendo necessário um intenso trabalho de educação para a população e de fiscalização na região.


A fotografia é de uma embarcação branca onde está escrito na cor azul "Jorge Schmid", "Punta Ballena", além de outras informações em tamanho menor. Há muitas pessoas no barco que estão observando um baleia.

O turismo embarcado vem se desenvolvendo mundialmente. A fotografia é de uma embarcação na Península Valdés, na Argentina. Fonte: Michael Catanzariti/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



AFINAL, QUAL É A IMPORTÂNCIA DA APABF?


A APABF é uma região procurada por diferentes espécies, muitas delas migratórias. Para as baleias-francas é um local seguro para dar à luz e amamentar os filhotes, antes de percorrerem uma longa jornada até a área de alimentação.


Já a tartaruga-verde encontra o seu alimento, e por ser um animal costeiro, está mais suscetível a desenvolver papilomas, doença agravada por poluição antrópica. Conservar a APABF, portanto, é proteger todas as espécies que dependem da região para sobreviver e, sobretudo, garantir a recuperação da população de baleia-franca-austral que, mesmo após um longo período de exploração pela caça, continua migrando anualmente para águas brasileiras.




Bibliografia



NATIONAL Geographic. Baleias não borrifam água de seus espiráculos- e outros mitos desmentidos. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2021/07/baleias-nao-borrifam-agua-de-seus-espiraculos-e-outros-mitos-desmentidos. Acesso em: 14 de jul. de 2023.


ICMBIO - Instituto Chico Mendes da Biodiversidade. Pinípedes na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca. Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/biodiversidade/unidade-de-conservacao/unidades-de-biomas/marinho/lista-de-ucs/apa-da-baleia-franca/arquivos/11_pinipedes_apa_da_baleia_franca.pdf. Acesso em: 14 de jul. de 2023.


PREFEITURA de Laguna. Botos Pescadores. Disponível em: https://laguna.sc.gov.br/pagina-35161/. Acesso em: 22 de jul. de 2023.

WIKIPARQUES. Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca. Disponível em: https://www.wikiparques.org/wiki/%C3%81rea_de_Prote%C3%A7%C3%A3o_Ambiental_da_Baleia_Franca. Acesso em: 14 de jul. de 2023.










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