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A capacidade de cicatrização e regeneração em tubarões e raias

Autores: Talita Sant’Ana Chervenka, Filipe Guilherme Ramos Costa Neves, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró


Imagem de uma Raia-manta no oceano com coloração clara em sua porção ventral e mais escura em sua porção dorsal.

Raia-manta, Mobula birostris, com coloração clara em sua porção ventral e mais escura em sua parte dorsal. Fonte: Moesmand/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).



Tubarões, raias e quimeras fazem parte do grupo de peixes da classe Chondrichthyes, que são peixes cartilaginosos. Em outras palavras, seus esqueletos não são feitos de ossos como os outros tipos de peixes, mas sim de cartilagem, sendo assim mais flexíveis e menos densos. Esses animais estão distribuídos globalmente vivendo no oceano e em ambientes de água doce. Há aproximadamente 400 espécies de tubarões e cerca de 500 espécies de raias, com um histórico evolutivo que se iniciou a aproximadamente 400 milhões de anos atrás.



COMO ELES SOBREVIVERAM POR TANTAS ERAS GEOLÓGICAS?


A subclasse Elasmobranchii, que são tubarões e raias, tiveram modificações de ordem fisiológica, morfológica e anatômica ao longo de sua evolução. Uma dessas modificações foi em relação ao seu tegumento. O tegumento é o revestimento externo, ou seja a pele, que é de extrema importância pois se trata da primeira camada de proteção, inclusive contra diversos tipos de microrganismos patogênicos, como bactérias, fungos, vírus e parasitas.


A coloração de seu tegumento, assim como em muitos outros peixes, aves e mamíferos, é branca na parte inferior (ventre) e mais escura (preto, cinza ou marrom) na parte superior (dorso). Esse padrão de coloração é uma estratégia de camuflagem contra presas e predadores, pois visto de cima, o animal se camufla com o tom escuro do mar e, se visto de baixo, se camufla com a luz do sol que chega da superfície.


Além disso, possuem escamas placóides, também chamadas de dentículos dérmicos. Com o passar do tempo, essas escamas foram se tornando mais eficientes, com sua forma, arranjo e tamanho reduzindo a turbulência do fluxo da água, assim sendo possível aumentar sua eficiência durante o nado.



MAS E QUANDO ELES SE FEREM, O QUE ACONTECE?


Como ocorre com muitos outros animais, entre indivíduos deste grupo, há também disputas por território que podem deixar feridas externas. Além dessa causa, também há os ferimentos causados por humanos, levando em conta o grande aumento das atividades marinhas costeiras, com as redes de pescas, anzóis descartados incorretamente e colisão com embarcações.


Em 2022 foi realizada uma pesquisa sobre as principais causas de ferimentos em raias-mantas, e foi observado que a principal causa foram as mordidas por predação natural, seguidas por ferimentos pela ação antrópica, ou seja, causada pelo ser humano por meio das embarcações e durante as pescarias.


Quatro (4) fotos agrupadas e sinalizadas com letras (A, B1, B2 e C), mostrando raias-mantas que foram feridas por colisão com embarcações e por mordidas de predação. Imagem A mostra lesões recentes superficiais, em dorso e barbatana esquerda, sendo de alguns dias depois da colisão. A imagem B1 mostra lesões mais profundas no dorso depois de alguns dias da colisão com embarcação. A imagem B2 mostra mordidas de predação e amputação de algumas partes da nadadeira peitoral direita. A imagem C mostra uma ferida na nadadeira direita já cicatrizada (com tecido branco) de algumas semanas depois da colisão com embarcação.

Exemplos de ferimentos em raias-manta. Colisão com embarcações (A, B1 e C). Feridas recentes sendo de poucos dias após a colisão (A e B1). Mordidas predatórias com amputação de algumas partes da nadadeira peitoral direita (B2). Ferida na nadadeira direita (tecido branco), cicatrizada depois de algumas semanas da colisão (C). Fonte: adaptado de STRIKE et al. 2022/Manta Trust (CC BY 4.0).



Segundo o estudo, esses animais possuem uma alta capacidade de cicatrização para não se tornarem presas fáceis enquanto se recuperam. Pode haver vários tipos de feridas, desde pequenas, como alguns cortes que apresentam cicatrização rápida, e feridas grandes, como cortes grandes e mordidas que deformam as partes afetadas. Essa cicatrização acontece pela alta resposta de imunidade dessas espécies, ou seja, a resposta de seu sistema imune frente a diversos tipos de lesões. Entretanto, a cicatrização consome muita energia. Desse modo, essa energia utilizada para se recuperar é realocada, diminuindo temporariamente o seu crescimento e paralisando o processo reprodutivo.



CICATRIZAÇÃO EM TUBARÃO-BALEIA E TUBARÃO-CABEÇA-CHATA


Em 2021 foi realizado um estudo sobre a capacidade de cicatrização de tubarões-baleias e o resultado foi impressionante. Foi escolhido o tubarão-baleia por ele ser um dos maiores peixes existentes e habitar diversas áreas, como oceano aberto e águas costeiras rasas. Por se tratar de áreas com diversos tipos de atividades que podem induzir algum tipo de lesão, trata-se de um bom modelo para avaliar os processos de cicatrização e a sua resiliência, ou seja, a adaptabilidade da espécie frente a um novo desafio.


Em um dos animais estudados, foram encontrados arranhões superficiais indicativos de colisão com o hélice de alguma embarcação. Em apenas alguns dias houve uma melhora significativa e, depois de alguns meses, estava completamente cicatrizado com algumas partes com a sua coloração normal, tornando a cicatriz quase imperceptível.


Cinco (5) fotos agrupadas e sinalizadas com letras, junto com as suas respectivas datas em que foram tiradas (A - 21 de Abril 2009) (B - 02 de Maio 2009) (C - 27 de Maio 2009) (D - 29 de Maio 2009) (E - 20 de Dezembro 2009). Nessas fotos, mostram a evolução da cicatrização de arranhões em um Tubarão-baleia.

Arranhões superficiais em tubarão-baleia, Rhincodon typus. Evolução da cicatrização dos arranhões em aproximadamente um mês (A, B, C e D). Coloração normal do animal perto da cicatriz depois de alguns meses (E). Fonte: adaptado e traduzido de WOMERSLEY et al., 2021/Oxford Academy (CC BY 4.0).



Há casos em que há amputação parcial ou completa, havendo pouca capacidade de regenerar esse tecido perdido. Entretanto, foi observado em um tubarão-baleia a ausência da ponta de uma de suas nadadeiras em 2006. Após 5 anos, em 2011, esse animal foi avistado novamente e a parte amputada, a ponta de uma de suas nadadeiras, estava quase inteira novamente, ou seja, houve a regeneração do tecido perdido, produzindo sua forma curva natural que antes estava ausente. Esse foi o primeiro caso relatado de um elasmobrânquio que teve uma regeneração nesse tipo de proporção.


Quatro (4) fotos agrupadas e sinalizadas com letras (A, B, C e D), mostrando a ponta de uma das nadadeiras de um Tubarão-baleia. As duas primeiras mostram a ausência da ponta da nadadeira, e nas duas últimas, mostram a regeneração quase total de sua mesma nadadeira que antes estava machucada.

Regeneração da ponta de uma das nadadeiras de um juvenil de tubarão-baleia em 2006 (A e B). Em 2011, foi observada a regeneração quase total da mesma nadadeira (C e D). Fonte: adaptado de WOMERSLEY et al., 2021/Oxford Academy (CC BY 4.0).



Em 2023, um fotógrafo registrou a cicatrização de uma lesão grande e profunda perto das brânquias de um tubarão-cabeça-chata no seu lado direito. Ainda é incerta a causa, mas se acredita que pode ter ocorrido por predação ou antagonismo social, pois é possível observar marcas de mordidas perto da lesão.


Quatro (4) fotos agrupadas e sinalizadas com letras e a data em que foram tiradas: (A1 e A2 - 27 de Março 2023) (B - 24 de Abril 2023) (C - 11 de Maio 2023).  Sendo possível observar uma lesão grande perto das brânquias do lado direito de um tubarão-cabeça~chata. As duas primeiras mostram a lesão, e nas duas últimas, mostram a sua cicatrização.

Lesão grave e profunda em tubarão-cabeça-chata, Carcharhinus leucas. Evolução da cicatrização da lesão em aproximadamente 29 dias (A e B). Em 46 dias a lesão foi completamente cicatrizada (C). Fonte: adaptado de © 2023 John Moore.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Diversos fatores contribuíram para a sobrevivência dos tubarões e raias ao longo das eras geológicas, dentre elas, com certeza a sua alta capacidade de cicatrização e regeneração, como foi observado nos casos aqui apresentados.




Bibliografia


GARNER, M. M. A retrospective study of disease in elasmobranchs. Veterinary Pathology, v. 50, n. 3, p. 377-389, 2013. Disponível em https://doi.org/10.1177/0300985813482147. Acesso em: 15 abr. 2023.


MARANHO, A.; BALDASSIN, P. Peixes Elasmobrânquios. In: CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C. R..; CATÃO-DIAS, J. L. Tratado de Animais Selvagens - Medicina Veterinária, 2.ed., São Paulo: Roca, p. 147-161, 2014.


POUGH, F. H.; JANIS, C. M.; HEISER, J. B. A Vida dos Vertebrados, 4.ed., São Paulo: Atheneu Editora, p. 27 e 108, 2008.


STRIKE, E. M.; HARRIS, J. L.; BALLARD, K. L.; HAWKINS, J. P.; CROCKETT, J.; STEVENS, G. M. W. Sublethal injuries and physical abnormalities in Maldives manta rays, Mobula alfredi and M. birostris. Frontiers in Marine Science, vol. 09, p. 270, 2022. Disponível em https://doi.org/10.3389/fmars.2022.773897. Acesso em: 15 abr. 2023.


WOMERSLEY, F.; HANCOCK, J.; PERRY, C. T.; ROWAT, D. Wound-healing capabilities of whale sharks (Rhincodon typus) and implications for conservation management. Conservation Physiology, v. 9, n. 1, p. 120, 2021. Disponível em https://doi.org/10.1093/conphys/coaa120. Acesso em: 15 abr. 2023.














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