Recifes biológicos: de algas calcárias, de coral de mar profundo e de areia

Autores: Lucas Rodrigues da Silva, Fernanda Cabral Jeronimo, Thais R. Semprebom, Aline Pereira Costa, Douglas F. Peiró



A foto é um banco de águas calcarias. As cores da alga varia do rosa para o rosa claro. É possível observar diversos organismos como esponjas e cnidários associados à essas algas.

Banco de algas calcárias. Fonte: Marina N. Sissini em A. Turra & M. R. Denada, 2015 (p. 48).



A construção está relacionada com o ato de edificar, construir ou desenvolver algo. Esse conceito torna-se simples se analisarmos as construções humanas. Porém, a natureza também possui seus construtores na terra e no mar. No ambiente terrestre, por exemplo, podemos identificar diversas construções naturais, como os cupinzeiros, colmeias de abelhas, ninhos de diversas aves, entre outros. Enquanto que no ambiente marinho, temos os recifes biológicos.


A imagem está dividida em três fotos diferentes: foto A, foto B e foto C. Na foto A, em primeiro plano, temos um casal de João-de-barro próximo de seu ninho. O ninho está sob uma estaca de madeira e possui um arame esticado transversalmente. Ao fundo, de maneira desfocada, um campo de cor verde e um céu azul claro. Na foto B, um cupinzeiro de formato oval de cor cinza, a entrada possui uma  coloração marrom . O cupinzeiro sob um gramado verde claro. Na foto C, em primeiro plano, uma colmeia suspensa em uma folha de palmeira. O sol ilumina a fotografia e a folha é verde.

Alguns exemplos de animais construtores em ambiente terrestre. (A) um casal de joão-de-barro (Furnarius sp.), (B) um cupinzeiro e (C) uma colmeia. Fontes: (A) Guilhermetato/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0), (B) Marcos Cesar Campis/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0) e (C) Ronald Plett/Pixabay.



BIOCONSTRUÇÃO E RECIFES BIOLÓGICOS


A bioconstrução, ou biolititos, influencia diretamente o relevo marinho, seja no acúmulo de estruturas formadas pelos corais e os tubos de poliquetas ou até mesmo nas estruturas das algas calcárias. Ela está relacionada diretamente com os organismos que conseguem reter calcário ou sílica em suas estruturas. As construções desses ambientes são bem demarcadas por etapas de construção primária e secundária.


A construção primária está relacionada com a ocupação do espaço e pela formação da estrutura básica por esses organismos. Já a construção secundária está relacionada com a ocupação dos espaços entre a estrutura básica e com a consolidação da mesma. Após essas duas etapas, normalmente, é o momento inicial para a colonização dos organismos geradores de sedimento biológico (por exemplo, a macroalga do gênero Halimeda). Esses organismos são de grande importância para o recife, pois atuam no fornecimento de carbonatos.


Os recifes podem ter duas origens: biológica, como os recifes de corais, e não biológica, como as rochas. Os recifes biológicos são originados de organismos vivos e representam cerca de 15% do fundo marinho, se analisarmos a profundidade de 0 a 30 metros. Essa representatividade variou ao longo dos tempo (cerca de até dez vezes mais do que temos hoje), no decorrer das eras geológicas. Em geral, essas construções são encontradas em regiões tropicais com baixas profundidades. Porém, essas estruturas também podem ser avistadas em ambientes de mar profundo.



PRINCIPAIS BIOCONSTRUTORES: CORAIS


A maior parte das bioconstruções marinhas são formadas pelos corais de diferentes classificações, como: corais-pétreos ou escleractionários (subclasse Hexacorallia), corais de fogo (classe Hydrozoa) e octocorais (subclasse Octocorallia). Esses são animais do filo Cnidaria e possuem características variadas. Os corais-pétreos e os hidrozoários são considerados os principais construtores de recifes atuais e, principalmente os escleractionários, podem ser encontrados por todo o planeta.


Imagem composta por fotos A e B. A foto "A" nos mostra em primeiro plano, um de recife de areia construído por vermes marinhos do gênero Phragmatopoma. O recife possui diversas entradas circulares e sua cor é marrom. Na foto "B", em primeiro plano, temos um recife de coral com alguns peixes. A fotografia nos mostra diversas espécies, com diferentes cores. Em segundo plano, o mar, de cor azulada e com alguns peixes.

Exemplos de organismos construtores no ambiente marinho. (A) Recife de areia, construído por vermes marinhos do gênero Phragmatopoma. (B) Recife de coral, produzido principalmente por corais hermatípicos. Fontes: (A) Fred Hayes/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0) e (B) M. MURAT ATAMAN/Pxhere (CC0).



RECIFES DE ALGAS CALCÁRIAS


Os recifes de algas calcárias são formados por espécies do Filo Rhodophyta (algas vermelhas) e podem ser encontrados em diversas áreas do globo, em até 200 metros de profundidade. Essas algas podem ser reconhecidas facilmente por sua cor avermelhada (algumas espécies podem variar e apresentar coloração verde-amarelada) e, principalmente, pelo talo rígido. Funcionam como “base” para outros organismos que vivem no ambiente recifal e a alta capacidade de suportar organismos epibiontes (organismos que utilizam como substrato outros organismos) deriva da sua capacidade de formar estruturas rígidas com o carbonato de cálcio incorporado em sua parede celular.


A fotografia nos mostra um conjunto de algas calcarias. As algas são vermelhas e possuem formatos variados.

Um exemplo de alga calcária. Fonte: Peter Southwood/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



RECIFES DE CORAL DE MAR PROFUNDO


Por anos, os únicos recifes de corais conhecidos eram os de baixa profundidade. Com o avanço da tecnologia (aprimoramento de equipamentos, principalmente), uma pequena parte do mar profundo foi descoberta. Os recifes de coral de mar profundo são encontrados em todas as latitudes e divergem em diversos aspectos dos recifes de águas quentes. Por exemplo, diferente dos recifes de corais rasos, os de mar profundo não possuem zooxantelas associadas às suas estruturas, e por isso, a sua coloração e forma de se alimentar variam. No caso dos recifes de mar profundo, a alimentação desses animais acontece principalmente por partículas em suspensão e sua coloração é esbranquiçada. Sua importância ecológica (assim como os recifes de águas quentes) está relacionada diretamente com a reprodução de outros organismos, podendo ser considerada um “berçário” de inúmeras espécies do mar profundo.



RECIFE DE AREIA - Phragmatopoma


Os recifes de areia ou beach rocks podem ser encontrados no Nordeste do Brasil e são formados por diversos processos de calcificação da areia. Os recifes de areia também podem ser construídos por alguns animais e um dos grupos construtores pertence ao filo Annelida. A família Sabellariidae é conhecida por possuir diversas espécies construtoras de recifes. Um dos vermes marinhos mais conhecidos na construção de recifes arenosos pertence ao gênero Phragmatopoma. As construções realizadas por esses animais proporcionam maior variedade de habitats para outros organismos, e por isso, são consideradas importantes construções para a estrutura de uma comunidade no ambiente marinho.


A fotografia nos mostra um exemplo de recife arenoso. Nela, podemos identificar um substrato rochoso com algumas cracas e, sob ele, um recife arenoso construído por vermes marinhos do gênero Phragmatopoma. Seu formato é relativamente irregular.

Exemplo de recife arenoso construído pela espécie do gênero Phragmatopoma. Fonte: Álvaro E. Migotto/Cifonauta (CC BY-NC-SA 3.0).



Desta forma, podemos considerar os recifes de coral como um ambiente propício ao crescimento de uma comunidade diversa. Com a proteção desses ambientes, podemos preservar não só as espécies que os constroem, mas também espécies que dependem desses ambientes para sobreviver. Assim como os organismos de interesse comercial e, principalmente as espécies de interesse biotecnológico, como as esponjas marinhas, os equinodermos, diversas espécies de bactérias, fungos e moluscos.



Bibliografia


BERCHEZ, F. Rodófitas (Algas Vermelhas). In GHILARDI-LOPES, N.P. et al. (Org.). Guia de Educação Ambiental em Costões Rochosos. Porto Alegre: Artmed, 2012.


BRUSCA, R. C; MOORE, W.; SHUSTER, S. M. Invertebrados. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2018.