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Orcas: como elas se comunicam?

Autores: Maria Eduarda Barbosa Brandão, Raphaela Alt Müller, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró


Diferente das grandes baleias, as orcas são cetáceos que vivem em grupos e precisam de boas ferramentas de comunicação para manterem o grupo unido. Fonte: Robert Pittman/WikimediaCommons (CC0).



As orcas, Orcinus orca, conhecidas popularmente como ‘baleias-assassinas’, são mamíferos marinhos pertencentes à superfamília Odontoceti, grupo representado, também, pelos golfinhos, botos e cachalotes. Com a superfamília Mysticeti, representada pelas grandes baleias, formam a infra-ordem Cetacea. Esses animais são conhecidos pela sua comunicação vocal complexa. Você consegue imaginar por que isso ocorre? Vamos descobrir!



TIPOS DE COMUNICAÇÃO BIOACÚSTICA


Enquanto no ar o som se propaga a uma velocidade de 343 m/s, na água essa velocidade aumenta para 1480 m/s. Em um ambiente de baixa visibilidade, como é embaixo da água, essa característica é determinante no uso do som como o principal meio de comunicação entre os cetáceos.


As orcas são animais que vivem em agrupamentos estáveis, formados por uma linhagem matriarcal, ou seja, são liderados por uma fêmea. A comunicação possui diferentes finalidades, em que sons específicos são emitidos para identificar um indivíduo, encontrar uma presa ou manter o grupo unido. Essas vocalizações ocorrem por meio da emissão de cliques, assovios e chamados. Os cliques são emissões sonoras de alta frequência, rápidas e curtas, usadas principalmente para a ecolocalização durante a navegação, na identificação de objetos e de presas.


Na cabeça das orcas há uma estrutura chamada melão, responsável por amplificar as ondas sonoras emitidas, que batem no objeto ou na presa alvo e retornam em forma de eco. Essas ondas são captadas pela gordura na região da mandíbula do animal e levadas para o ouvido, onde são codificadas e enviadas para o cérebro, gerando informações como a distância, textura e tamanho do objeto.


A ilustração representa os órgãos internos de um odontoceto envolvidos na emissão e recepção de ondas sonoras. Há uma seta laranja que sai do melão em direção ao ambiente externo e uma seta verde que vai do ambiente externo em direção ao ouvido médio.

Demonstração do processo de emissão e interpretação das ondas sonoras emitidas pelos odontocetos. A flecha laranja representa o click emitido e amplificado pelo melão, o qual atinge o alvo e reflete, retornando ao ouvido médio para ser interpretado no cérebro. Fonte: modificado de Martin-rnr/Wikimedia Commons (CCO 1.0).



Já os assovios são vocalizações de baixa frequência, de sinais contínuos e de estrutura simples. Eles são utilizados com maior frequência em um contexto de comunicação social em longas distâncias.


Escute aqui uma gravação contendo assovios de orcas.


Por fim, os chamados têm uma alta variação na sua estrutura e tonalidade, e apresentam duração de 0,5 a 1,5 segundos, em média. Eles são subdivididos em: chamadas discretas, variáveis e aberrantes, sendo importantes na distinção dos indivíduos de um grupo.


As chamadas discretas formam a base dos dialetos das orcas e são as mais observadas em gravações, principalmente em situações em que o grupo apresenta comportamento de migração e caça. As variáveis não possuem uma organização estrutural definida, e as aberrantes são baseadas nas discretas, mas apresentam modificações na sua composição.



DIALETOS: QUAL A SUA IMPORTÂNCIA?


Ouça aqui um exemplo de dialeto.


Provavelmente você já ouviu falar que os cetáceos são animais inteligentes. Mas você sabia que as orcas possuem “línguas diferentes”?


Uma curiosidade sobre as orcas é que cada linhagem matriarcal (relação genética) tem um dialeto com repertório único, formando um grupo chamado de “pod”. Um conjunto de pods formam um clã, ou seja, grupos de um mesmo ecótipo que compartilham alguns chamados entre si.


Vamos explicar melhor:


O Brasil é como se fosse um clã, e cada Estado do Brasil um pod (grupo) diferente. Todos os brasileiros compartilham um idioma (dialeto), o português. No entanto, cada estado possui expressões próprias (chamados específicos), como o “uai” de Minas Gerais ou o “tchê” do Rio Grande do Sul. O Brasil também compartilha expressões (chamados) semelhantes ao espanhol da Argentina (outro clã), embora sejam linguagens (dialetos) distintas. Ficou mais claro agora? Além disso, o aprendizado desses dialetos pode ser vertical, quando são ensinados pelas mães na infância, ou horizontal, quando são ensinados por membros da mesma geração.


Um estudo realizado por John K. Ford, um especialista em comportamento acústico das orcas, comparou as vocalizações emitidas por orcas residentes da Columbia Britânica e percebeu que grupos de um clã compartilham chamadas com variações estruturais específicas de cada grupo ou conjunto de grupos no clã, e que os clãs não compartilham chamados entre si (lembra do Brasil e Argentina?). Com isso, o pesquisador concluiu que repertórios específicos provavelmente servem para aprimorar a comunicação entre um mesmo grupo e que tradições vocais de diferentes clãs sugerem que cada um é uma matrilinhagem independente.


Com isso, fica evidente que estudar a comunicação acústica destes animais fornece informações não apenas sobre o comportamento do animal, mas também sobre as tradições vocais ensinadas e compartilhadas entre grupos semelhantes, além de indicar relações de parentesco entre os indivíduos. Com estudos de bioacústica, é possível analisar a importância e os diferentes usos dos elementos de comunicação.



IMPACTOS HUMANOS: UMA AMEAÇA INVISÍVEL


Se antigamente a caça era a principal ameaça para os cetáceos, nos dias atuais há outras preocupações. E qual é a nossa relação com isso?


A fotografia mostra um navio vermelho equipado com máquinas usadas para a mineração em alto mar.

Navio de mineração. Fonte: Frimufilms/Freepik (CCO 1.0).



Como já abordado em outro artigo publicado em nossa revista, a poluição sonora provocada por atividades humanas é uma das principais ameaças aos cetáceos, principalmente pelo aumento do número de barcos e uso de sonares em pesquisas sísmicas para exploração de gás natural e petróleo.


A indústria da mineração, por exemplo, emite fortes ondas de pressão sonora através da água pelos navios, e seu eco fornece informações sobre a estrutura tectônica do fundo do mar. Se há matéria-prima, ela é extraída do solo, coletada, triturada e transportada por enormes máquinas barulhentas. Todos esses ruídos interferem em comportamentos de alimentação, migração e reprodução, atividades essenciais para a sobrevivência não só das orcas, mas de todos os cetáceos. Em vista disso, devemos nos perguntar: até quando vamos interferir de forma desordenada no habitat desses animais?




Bibliografia


CAMARGO, F. S. Estudo das vocalizações de golfinhos-rotadores, Stenella longirostris (Cetacea, Delphinidae), no arquipélago de Fernando de Noronha. 2008. Tese (Doutorado em Zoologia) - Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. DOI: 10.11606/T.41.2008.tde-17062008-093152. Acesso em: 13 abr. 2023.

DEECKE, V. B.; FORD J. K.; SPONG, P. Dialect change in resident killer whales: implications for vocal learning and cultural transmission. Animal Behaviour, v. 60, p. 629-638. ISSN 0003-3472 versão online. 2000. DOI: 10.1006/anbe.2000.1454. Acesso em: 13 abr. 2023


FORD, J. K. B. Vocal traditions among resident killer whales (Orcinus orca) in coastal waters of British Columbia. Canadian Journal of Zoology, v. 69, n. 6, p. 1454-1483. 1991. DOI: https://doi.org/10.1139/z91-206. Acesso em: 13 abr. 2023


HONDA, L. K. Impactos de atividades de exploração de petróleo e gás natural sobre a comunicação acústica de Mysticeti (ordem Cetacea): uma revisão. 2010. vii, 57 f. Trabalho de conclusão de curso (bacharelado e licenciatura - Ciências Biológicas) - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro, 2010. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/119427. Acesso em: 15 abr. 2023.


JACOBINA, A. M. S. Os cetáceos. Monografia Centro Universitário de Brasília Faculdade de Ciências da Saúde Centro Universitário de Brasília - Licenciatura em Ciências Biológicas.2000. Disponível em: https://repositorio.uniceub.br/jspui/handle/123456789/2396. Acesso em: 14 abr. 2023


SOUHAUT, M.; SHIELDS, M. V. Stereotyped whistles in southern resident killer whales. PeerJ, v. 9, n. e12085, 2021. DOI: 10.7717/peerj.12085. Acesso em: 14 abr. 2023.














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Responsável: prof. Dr. Douglas F. Peiró

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