Atavismo: um caminho alternativo da evolução

Autores: Raphaela Alt Müller, Fernanda Cabral Jeronimo, Thais R. Semprebom, Aline Pereira Costa e Douglas F. Peiró


Ilustração de um ancestral dos cetáceos. O animal é quadrúpede, com uma cauda longa e focinho alongado.

Pakicetus é um gênero de cetáceo que viveu há 55 a 40 milhões de anos. Esse animal possuía orelha interna semelhantes a de cetáceos. Fonte: Nobu Tamura/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).



Atavismo é o reaparecimento de estrutura ou comportamento que esteve presente em ancestrais de uma linhagem, que deixou de existir, mas reaparecem na linhagem atual. Ou seja, são traços que foram perdidos durante a evolução de uma espécie e que, ocasionalmente voltam a aparecer, aparentemente sem explicações.


A palavra atavismo vem do latim atavus, que significa um ancestral antepassado. Eles são conhecidos como “atrasos evolutivos”, reaparecimento de características que podem parecer novas, mas na verdade são manifestações de características ancestrais. Em humanos, os atavismos mais conhecidos são mamilos extras e caudas; no ambiente marinho, membros posteriores em baleias e golfinhos, e até dentes em baleias Mysticetus já foram documentados.



POR QUE ACONTECEM OS ATAVISMOS?


Todos os seres vivos são compostos por genes que carregam informações de todas as nossas características. Essas características são hereditárias, ou seja, são passadas entre as gerações durante anos e, ao longo do tempo, com a mescla e variação desses genes devido à reprodução (entre outros fatores genéticos), temos características únicas e particulares e, ao mesmo tempo, carregadas de informações passadas.


Nós carregamos genes de milhares de anos. Por exemplo, nosso primeiro ancestral, o que deu origem à Classe Mammalia (200 milhões de anos atrás), tinha pelos e glândulas mamárias primitivas; o ser humano (Homo sapiens sapiens), considerada a espécie de primata mais recente, continua com esses mesmos traços do primeiro mamífero.

Ilustração do ancestral dos mamíferos. O quadrúpede é semelhante a um lagarto, as patas possuem membranas interdigitais.

O carnívoro Thrinaxodon sp. viveu mais ou menos há 246 milhões de anos. Era um réptil muito semelhante a um mamífero. O fóssil encontrado desta espécie dá indícios de que esse animal possuía pelos, era endotérmico e colocava ovos, ou seja, uma possível transição de réptil para mamíferos. Fonte: Nobu Tamura/Wikimedia Commons (CC BY 2.5).



Durante a evolução, fomos “perdendo” e modificando certos caracteres, essas modificações permitiram chegar onde chegamos, com nossas feições e habilidade. Porém, podem acontecer mutações ou recombinações de genes que acabam fazendo com que algumas características perdidas continuem a se desenvolver além do estágio inicial do desenvolvimento do feto, resultando em estruturas ancestrais, chamadas de atavismos, como por exemplo, um humano com cauda.



COMO SABER SE TAL CARACTERÍSTICA É OU NÃO UM ATAVISMO?


O professor pesquisador Brian K. Hall estabeleceu, em um estudo de 1984, quatro critérios básicos para se reconhecer um atavismo:

  • a estrutura deve persistir na vida adulta;

  • a estrutura deve estar ausente nos pais ou em ancestrais recentes;

  • somente um ou poucos indivíduos dentro de uma população possuem essa estrutura;

  • deve ter semelhança ou identidade com a mesma característica dos membros da linhagem ancestral.


Outro fator importante a ser comentado é que os atavismos são divididos em três categorias, segundo um estudo de Stiassny:

  • Atavismos espontâneos: ocorrem raramente em indivíduos de uma população (o que está sendo tratado neste artigo).

  • Atavismos experimentais: a quantidade de genes ancestrais é ativada o máximo possível por cientistas para ressurgir traços genéticos dos ancestrais nos animais mais modernos. Veja essa reportagem da Revista Galileu sobre o paleontólogo Jack Horner. Ele quer transformar galinhas novamente em dinossauros!

  • Atavismos táxicos: quando ocorre uma reversão evolutiva de uma característica que atinge todos os indivíduos dentro de um táxon e permanece desde então. Um exemplo é o reaparecimento de asas no inseto bicho-pau.



OK, MAS E AS BALEIAS E GOLFINHOS?


Ilustração do ancestral das baleias. O animal possui o corpo alongado, semelhante ao das baleias, e com vestígios de membros posteriores. As narinas ainda se localizam na região anterior.

O Protocetus é um gênero de baleias ancestrais que viveu há cerca de 56 milhões de anos. Fonte: Nobu Tamura/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).



De acordo com a linha evolutiva dos cetáceos, eles são descendentes de mamíferos terrestres, ou seja, animais que possuíam membros posteriores para se locomover. Durante a evolução desse ancestral da terra para o mar, essa ordem foi perdendo os membros posteriores, seu corpo se alongou, dando origem a nadadeiras (esse vídeo nos mostra de forma bem resumida estas modificações). Acontece, em não tão raras vezes, das baleias desenvolverem membros posteriores (atavismo), como fêmur, tíbias e fíbulas, porém, já foi registrado baleias com membros posteriores completos.


Ilustração de um cetáceo ancestral. O animal é semelhante a um hipopótamo, as patas possuem membranas interdigitais.

O Rodhocetus foi um gênero da ordem Cetacea que viveu nos mares há cerca de mais ou menos 56 milhões de anos (Período Eoceno). Ele é um parente distante dos golfinhos atuais. Fonte: Nobu Tamura/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



POR QUE ESTUDAR OS ATAVISMOS?


Além do fato de ser muito interessante saber se uma galinha pode se transformar em dinossauro novamente, os atavismos nos dizem que as informações genéticas ancestrais podem ser guardadas mas não expressas em características por muito tempo, porém, muitas variações de genes ancestrais podem ser ativadas novamente.


Embora ainda não esteja bem definido o que desencadeia e controla essas ativações, os atavismos são de grande interesse para geneticistas e biólogos evolucionistas, pois indica um caminho evolutivo alternativo, que pode ser ou não seguido.




Bibliografia


DREHMER, C. J. Uma revisão dos atavismos em vertebrados. Neotropical Biology and Conservation. São Leopoldo. v. 1. p. 72-83, 2006. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/cdrehmer/files/2017/07/Atavismos.pdf?fbclid=IwAR2zU-icOUjAMaXOICoD75VrwQAS0ksmKl9iHr25SKZFqRAXFWGuMod1BrM. Acesso em: 05 out. 2020.

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