Copépodes: a fauna dominante do plâncton marinho tropical

Autores: Filipe Guilherme Ramos Costa Neves, Fernanda Cabral Jeronimo, Thais R. Semprebom, Mariana P. Haueisen e Douglas F. Peiró


Ilustração colorida de oito exemplares de copépodes que têm o corpo em forma de bastão, apresentando várias cerdas nos seus apêndices, que serve para sua flutuabilidade.

Ilustração de vários copépodes apresentando sua morfologia corporal. As cores foram usadas arbitrariamente. Fonte: Ernst Heinrich Haeckel/Wikimedia Commons (CC0).



O plâncton é o nome dado ao conjunto formado por organismos aquáticos cujas habilidades natatórias são limitadas diante das correntes e outras movimentações de massas de água. Ele é constituído por organismos como bactérias, algas, invertebrados e até mesmo vertebrados, apresentando organismos com tamanhos desde micrômetros até alguns metros (como águas vivas gigantes). Em termos gerais, o plâncton pode ser formado por organismos fotossintetizantes ou fitoplâncton, ou seja, que produzem o próprio alimento, como também organismos heterotróficos, que são aqueles que não produzem o próprio alimento como o zooplâncton, necessitando de fontes externas para obterem energia.



Fotomicrografia de 15 indivíduos do plâncton coloridos artificialmente dispostos em um fundo preto.

Alguns organismos encontrados no plâncton, com representantes do fitoplâncton (seres fotossintetizantes) e do zooplâncton (seres heterotróficos). Fonte: Christian Sardet/CNRS/Tara expeditions/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



Com relação a questão trófica, existem basicamente dois grupos no plâncton: o fitoplâncton e o zooplâncton. O fitoplâncton faz fotossíntese e, sendo assim os produtores dos ecossistemas aquáticos, portanto são a base das teias tróficas marinhas. Este grupo é responsável pela produção primária da matéria orgânica de um sistema, que servirá de alimento aos níveis tróficos seguintes, os consumidores primários. O zooplâncton, os consumidores primários, por sua vez são o elo entre o fitoplâncton e os organismos maiores, pois se alimentam dessas plantas/algas marinhas e servem de alimento para peixes e baleias.


Maiores detalhes sobre a classificação do plâncton podem ser conferidos no nosso artigo O plâncton e sua grande diversidade: como podemos dividi-la e classificá-la?


Ainda no zooplâncton, uma fauna extremamente importante para os sistemas ecológicos marinhos são os copépodes, que são crustáceos encontrados em grandes quantidades na água do mar, em todos os oceanos, desde ambientes costeiros a ambientes oceânicos, da superfície a ambientes abissais.



OS COPÉPODES: MORFOLOGIA E BIOLOGIA


Fotomicrografia de um copépode calanoide demonstrando seu corpo em forma de bastão com duas antenas na região anterior do corpo e uma furca na região posterior.

Um copépode calanoide, em que podem ser vistas as duas antenas e seu cefalotórax, que é grande em comparação com o abdômen. No final do abdômen pode ser vista a furca, com os ramos caudais. Fonte: Uwe Kils/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



O nome copépode tem sua origem em duas palavras gregas: kope, que significa remo, e podos, que significa pés, em referência aos apêndices que esses animais possuem. No século passado, pesquisadores estimavam que havia 11.500 espécies de copépodes. Mais recentemente, já existem cerca de 12.500 espécies de copépodes descritas. Embora existam ao todo 10 ordens descritas, os grupos de copépodes mais comuns são Calanoida, Cyclopoida e Harpacticoida.


Os calanoides são copépodes que apresentam antenas muito longas e são consumidores primários, ingerindo boa parte da matéria orgânica produzida pelo fitoplâncton. Os ciclopoides apresentam antenas moderadamente longas. A principal característica que diferencia esses dois grupos é o tamanho relativo do abdômen diante do cefalotórax. Os calanóides apresentam um abdômen mais curto, enquanto os ciclopóides apresentam um abdômen praticamente do mesmo tamanho que o cefalotórax. Os harpacticoides, por outro lado, apresentam um corpo vermiforme, com antenas e antênulas muito curtas.


Fotomicrografia de um copépode ciclopoide demonstrando seus dois sacos ovígeros dispostos lateralmente na parte inferior do seu corpo em forma de bastão, além de duas antenas na parte superior.

Copépode ciclopoide fêmea com suas duas antenas moderadamente grandes, cefalotórax praticamente do mesmo tamanho que o abdômen e dois sacos ovígeros. Fonte: Andrei Savitsky/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



Essa fauna planctônica se locomove utilizando os apêndices torácicos que, em alguns indivíduos adaptados à vida planctônica, apresentam muitas cerdas, o que lhes permite flutuar. Eles apresentam uma variedade de hábitos alimentares, podendo ser herbívoros, carnívoros, detritívoros e até onívoros. Para capturar o alimento, alguns formam um pequeno fluxo de água ao redor do corpo, direcionando seu item alimentar para a boca. Apêndices como mandíbulas, maxilas e maxílulas auxiliam nesse processo. Alguns copépodes, inclusive, podem degradar o óleo, tornando-se importantes em desastres com derramamento de óleo.



Fotomicrografia de um náuplio de copépode demonstrando seus três pares de apêndices e suas segmentações. Na sua região dorsal há bolhas amarronzadas que são bolhas de lipídios.

Um náuplio de copépode, estágio larval de seu desenvolvimento, mostrando seus três pares de apêndices. As bolhinhas no dorso do náuplio são bolhas de lipídios. Fonte: NOAA Great Lakes Environmental Research Laboratory/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).



Os copépodes reproduzem-se sexuadamente, onde o macho deposita o espermatóforo no poro copulatório da fêmea. A fecundação é, portanto, interna. O macho e a fêmea se dispõem ventralmente e ele a agarra com sua antena geniculada, como também com sua pata IV ou V, dependendo do grupo de copépode, a fim de depositar o espermatóforo na fêmea. Então, a fêmea produz sacos ovígeros, onde estão os náuplios.


Os copépodes apresentam dois tipos de estágios de desenvolvimento, que são os 6 estágios naupliares e os 6 estágios de copepoditos.



IMPORTÂNCIA ECOLÓGICA DOS COPÉPODES


Fotografia de um tubarão-baleia que apresenta vários pontos brancos em seu corpo escuro na região dorsal e mais claro na região ventral. O tubarão se encontra nadando em meio a outros peixes menores em um ambiente azul e claro.

O tubarão-baleia, o maior tubarão existente, é uma espécie planctívora, ou seja, se alimenta de plâncton. Fonte: ZacWolf/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.5).



Os copépodes são extremamente importantes para os sistemas marinhos. Eles servem de elo entre os produtores e os organismos menores e maiores, como peixes planctívoros e baleias. Um exemplo de organismo essencialmente planctívoro é o tubarão-baleia, o maior tubarão existente no planeta. Os copépodes servem também de alimento para uma gama de invertebrados, sejam eles pelágicos ou bentônicos.


Existem corais que se alimentam de copépodes como itens alternativos às zooxantelas, presentes em seus tecidos. Assim, o plâncton pode ser um fator essencial para os ambientes recifais, que apresentam uma rica biodiversidade e também uma grande abundância de formas vivas.


Esses crustáceos dominam nas amostras de plâncton marinho, podendo alcançar 95% de abundância. Cientistas afirmam que a variedade de hábitos alimentares desses organismos permite que eles alcancem grandes abundâncias nos ambientes marinhos.


Além do fitoplâncton, outros itens alimentares podem ser consumidos pelos copépodes, como os ciliados do plâncton e a neve marinha. Tais ciliados fazem parte do que chamamos alça microbiana, em que os microrganismos reutilizam a matéria orgânica disponível na coluna de água, que seria perdida para outros ambientes, como os bentônicos, servindo de alimento para os próprios copépodes planctônicos ao consumirem os ciliados. Isso é uma alternativa à teia trófica clássica (fitoplâncton-copépode-peixe).


Boa parte da biomassa do zooplâncton pode ser, quase na totalidade, representada por esses crustáceos. A biomassa é a quantidade de matéria orgânica presente no organismo vivo. Ela serve como uma das estimativas da qua