Aquários de visitação pública como ferramenta de conservação de espécies

Atualizado: 4 de mar.

Autores: Lucas Rodrigues da Silva, Mariana P. Haueisen, Thais R. Semprebom, Marcus Farah e Douglas F. Peiró



A fotografia nos mostra um aquário. Em primeiro plano há uma estrela-do-mar aderida ao vidro, com sua boca voltada para a câmera. Ao fundo, existem rochas, onde um ouriço-do-mar e uma outra estrela-do-mar estão aderidos. A água é cristalina, evidenciando os detalhes dos animais.

Estrela-do-mar em um tanque de observação no Aquário Marinho do Rio de Janeiro. Fonte: Lucas Rodrigues, 2018 ©.



BREVE HISTÓRIA DOS ZOOLÓGICOS E AQUÁRIOS


A domesticação de animais é uma prática antiga, tendo registros de 5 mil anos atrás, no Egito antigo. No início, essa prática tinha como função primordial a criação animal para alimentação. Ainda nessa época começaram-se as primeiras coleções de animais selvagens. Essas coleções eram mantidas por imperadores, reis e chefes de estado como uma forma de demonstração de poder. Elas geralmente eram instaladas em praças de palácios e não eram abertas à visitação. Apenas convidados podiam vê-las. Um dos casos conhecidos é o do Faraó Tuthomosis III (1.501-1.477 A,C), que enviou caravanas à Somália para capturar aves, leopardos e macacos, o que reforça a ideia de que a prática de manter animais selvagens em cativeiro para entretenimento pode ser datada A.C. Nessa época os animais eram retirados do seu habitat natural, e não havia nenhuma preocupação com o seu bem-estar. Essa prática durou por muito tempo, e apenas em 1752 foi criado o primeiro zoológico aberto à visitação pública, em Viena, na Áustria. Em 1826 os zoológicos foram reconhecidos como centros de pesquisa, e continuam passando por diversas mudanças e aperfeiçoamentos até os dias de hoje.


Hoje, segundo a legislação brasileira (Lei Nº7.173, 14 de Dezembro de 1983), os zoológicos podem ser definidos como: “qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos em cativeiro ou em semiliberdade e expostos à visitação pública”. Tal definição engloba zoológicos e aquário atuais.


A criação de peixes é conhecida antes mesmo do século I, onde romanos, a fim de obter status social, tinham o costume de armazenar esses animais em tanques artificiais de mármore. Porém, a reposição dos peixes tinha que ser constante, pois o conhecimento sobre a manutenção da qualidade da água era praticamente nulo.


A palavra “aquário" surge no século XIX, com o significado de “reservatório de água com animais marinhos”. Inicialmente, entre 1840 e 1850, os aquários foram utilizados como ferramenta científica, principalmente para observação dos organismos marinhos vivos. As informações sobre manutenção e construção dos aquários eram restritas aos jornais científicos, o que acabou tornando esse conhecimento exclusivo aos naturalistas e estudiosos da época. Em 1853, ficou claro que os aquários poderiam ser utilizados como uma fonte de entretenimento, e com isso, a inauguração do Aquário de Londres se concretizou, seguido de vários outros aquários em diferentes países nos anos seguintes.



Ilustração em preto e branco. Ela retrata uma exposição no Aquário de Londres, onde diversas pessoas observam diferentes animais marinhos em aquários. Existem diversos aquários espalhados pelo local.

Ilustração representando o evento ‘Exposição Internacional de Pesca’ em Londres, no ano de 1883. Fonte: Whymper, F./Freshwater and Marine Image Bank. (Domínio Público).



AQUÁRIOS ATUAIS


Apesar de existirem opiniões contrárias à manutenção de alguns animais sob cuidados humanos, as instituições zoológicas modernas possuem um sério compromisso com o bem-estar animal, e atuam em função de quatro principais pilares - conservação, educação, pesquisa e lazer. Além disso, existem as associações de zoológicos e aquários, que propõem melhores práticas para as instituições, buscando garantir que esses pilares realmente sejam colocados em prática. As associações também possuem processos de certificação que mostram o compromisso das instituições certificadas com os pilares. No Brasil, a Associação dos Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB), possui o processo de certificação em bem-estar animal.



BEM-ESTAR ANIMAL


O bem-estar animal é prioridade nos aquários e zoológicos modernos, e para atingi-lo, existe o modelo dos ‘Cinco Domínios do Bem-estar animal’: nutrição, ambiente, saúde física, comportamento e estado mental. Seguindo esse modelo, é possível garantir que o animal esteja nutrido, que ele tenha um ambiente que ofereça desafios e a possibilidade de escolha, que ele tenha cuidados veterinários de forma a garantir sua saúde física, que ele possa expressar seus comportamentos naturais e que ele tenha uma saúde mental adequada. Com esses domínios sendo praticados, será possível atingir o estado de bem-estar do animal. Atividades como o enriquecimento ambiental e o condicionamento operante são ferramentas que tem o objetivo de propor desafios e estimular os instintos naturais dos animais, e podem auxiliar nesse trabalho.



A foto nos mostra um urso-polar  em um recinto do Aquário de São Paulo, interagindo com um monte de neve. O recinto é bem iluminado e o urso, aparentemente, escala o monte de neve.

Um urso-polar interagindo com o gelo, um exemplo de enriquecimento ambiental. Fonte: acervo Aquário de São Paulo/Marcus Farah ©.



CONSERVAÇÃO


Os aquários e zoológicos têm um papel muito importante na conservação das espécies, podendo atuar em diversas frentes: apoiando técnica, científica, e financeiramente projetos e instituições que trabalham com a conservação das espécies em seu habitat natural; fazendo resgate e reabilitação de animais silvestres; bem como reproduzindo espécies ameaçadas de extinção, garantindo uma população reserva e uma variabilidade genética para essas espécies.


Em 2018 foi assinado um acordo de cooperação técnica entre a AZAB e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) para a conservação de 25 espécies foco do programa de manejo ex situ de espécies ameaçadas, com o objetivo de estabelecer protocolos de manejo fora do habitat natural para essas espécies. Além de mamíferos e aves, também estão incluídas no programa espécies de répteis, anfíbios, peixes de água doce e duas espécies de tubarões.


Em relação a origem dos animais, muitos já são nascidos sob cuidados humanos, ou são animais resgatados que não tem mais condições de retornar a natureza, e são encaminhados para essas instituições, onde se tornam embaixadores da sua espécie, ajudando a conscientizar os visitantes sobre os problemas que eles vêm enfrentando na natureza, como o aquecimento global, o desmatamento, queimadas, atropelamentos e o tráfico de animais.



A foto nos mostra um tanque de contato no Aquário de Ubatuba. O tanque é longo, em formato de "S" e é baixo, facilitando o manuseio dos animais. De um lado, mediadores do Aquário, de outro, os visitantes. Os visitantes possuem a liberdade de manusear os animais. O ambiente se encontra em um ambiente fechado, bem iluminado e diversas pessoas estão próximas à superfície do tanque.

Tanque de contato no Aquário de Ubatuba-SP. Fonte: acervo do Instituto de Biologia Marinha Bióicos ®.



EDUCAÇÃO AMBIENTAL


Estes locais são considerados um espaço de aprendizagem não formal para diversas faixas etárias. Ou seja, um ambiente onde o ensino e a aprendizagem ultrapassam uma sala de aula. Esse espaço promove, na prática, uma aproximação entre o sujeito e o ambiente aquático. Com uma equipe especializada (tratadores, cientistas, comunicadores, conservacionistas, educadores ambientais e outros) os aquários podem abranger, além do cunho científico e conservacionista, o de entretenimento e a educação ambiental. Esses aspectos (e não só eles) podem servir como pilares de atividades em um aquário.


A educação ambiental pode ser trabalhada de diversas formas, desde exposições com stands interativos, painéis explicativos com curiosidades próximas aos tanques, atividades de monitorias com educadores ambientais ou até mesmo com palestras visando à conservação de espécies e ecossistemas.


Em aquários, especificamente, podem ser trabalhados temas como o aquecimento global, a sobrepesca, o consumo sustentável e a poluição dos oceanos.



Na foto podemos observar uma foto do recinto das focas no Aquário de São Paulo. Nele, podemos observar uma foto de uma placa de advertência pra o descarte incorreto de lixo e de como as focas podem ser afetadas por ele. Na água podemos observar uma foca submergida e ao fundo, rochas simulando o habitat do animal.

Painel Focas - Lixo nos Oceanos. Fonte: acervo Aquário de São Paulo/Marcus Farah ®.



PESQUISA


Aquários e zoológicos funcionam como laboratórios vivos, oferecendo uma grande oportunidade para estudar espécies selvagens, de uma forma que seria muito mais desafiador, ou mesmo impossível, se não existissem essas instituições. Através das pesquisas desenvolvidas em ambiente controlado é possível descobrir novas informações sobre a biologia e o comportamento de diversos animais. Informações essas que podem auxiliar no aprimoramento de protocolos de manejo para garantir o bem-estar dos animais, bem como trazer novos conhecimentos que poderão ajudar no desenvolvimentos de programas de conservação das espécies na natureza.