Se os oceanos morrem, nós morremos: qual o ritmo de mudanças no oceano devido o acúmulo de impactos?

Atualizado: 1 de mai. de 2020

Autores: Mariana P. Haueisen, Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró


Foto aérea de uma região costeira. A esquerda uma península de terra com vegetação arbórea densa e pequena faixa de areia. Oceano azul claro, com visibilidade boa da água. Vários recifes de corais a direita. No alto da foto, céu azul escuro com nuvens brancas. Perto da costa, um navio e algumas pessoas nesse ambiente natural.

Os oceanos vêm sofrendo muita interferência antrópica. Fonte: PixaBay.



Em fevereiro deste ano foi publicado um artigo na Scientific Reports, da Nature, sobre a mudança recente no ritmo dos impactos antrópicos no oceano. Esse estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia e da Universidade de Stanford.


O estudo revelou que impactos resultantes de atividades antrópicas têm causado grandes mudanças no oceano, como a degradação ou até mesmo colapso de ecossistemas. Está havendo o declínio de populações de diversas espécies marinhas devido a estresses causados por atividades humanas. A partir disso, os pesquisadores afirmam ser emergencial o entendimento desses impactos, quais são, como acontecem, quão rápidas são suas consequências e quais as mudanças que ocorrem devido à acumulação desses impactos. Se os oceanos morrem, todo o planeta entra em desequilíbrio de ecossistemas, o que é prejudicial para toda as espécies vivas, incluindo a humana.


Os impactos humanos cumulativos são impactos resultantes de uma ação antrópica que se soma a ações do passado, presente e futuro. Assim, se acumulam no tempo e no espaço. Essa combinação de efeitos resulta em um ou diversos impactos, podendo causar uma grande degradação ambiental com o passar do tempo.


Para obter o ritmo de mudanças causadas pelos impactos humanos cumulativos, os pesquisadores calcularam e mapearam o impacto cumulativo de 14 estressores ambientais advindos de atividades humanas (incluindo mudanças climáticas, pesca, pressões vindas do uso da terra e outras atividades comerciais) em 21 ecossistemas marinhos diferentes ao redor do planeta, de 2003 a 2013.



ONDE FORAM OS AUMENTOS?


Os resultados da pesquisa mostram que os impactos cumulativos no oceano aumentaram significativamente - mais da metade (59%) - nesses 11 anos, sendo que só decresceram em 5% do oceano como um todo. Nesse ritmo, regiões que apresentam altas taxas de impactos humanos cumulativos, provavelmente, terão os impactos dobrados em 10 anos.



Mapa mundi da mudança dos impactos humanos cumulativos no oceano de 2003 a 2013. Há uma escala numérica representada por cores no mapa, que varia de cores frias a cores quentes. Quanto mais quente as cores representadas nas localidades, maior a mudança dos impactos humanos cumulativos. Essas cores são maiores nos oceanos Atlântico Equatorial, Índico e Pacífico Subequatorial.

Mudança dos impactos humanos cumulativos no oceano de 2003 a 2013. Fonte: HALPERN et al., 2019 (CC-BY-4.0).



Os maiores aumentos dos impactos humanos cumulativos ocorreram em 3,6% do oceano: Mar Negro, Oceano Atlântico tropical, noroeste temperado do Oceano Pacífico e regiões subtropicais dos Oceanos Índico, Atlântico e Pacífico.


Mapa mundi dos impactos humanos cumulativos no oceano. Há uma escala numérica representada por cores no mapa, que varia de cores frias a cores quentes. Quanto mais quente as cores representadas nas localidades, maior a mudança dos impactos humanos cumulativos. Essas cores são maiores no Oceano Atlântico, regiões tropicais do Oceano Pacífico e cores mais frias são maiores no Oceano Pacífico Tropical.

Impactos humanos cumulativos no oceano. Fonte: HALPERN et al., 2019 (CC-BY-4.0).



Locais onde ocorre um crescimento mais rápido dos impactos humanos cumulativos são os mesmos que apresentam maiores valores absolutos desses impactos (Mar Negro, noroeste do Mar Mediterrâneo, litoral nordeste do Canadá, sul do Oceano Atlântico e sudoeste da Austrália). São as regiões de maior probabilidade de colapso nos ecossistemas marinhos, como já acontece no Mar Negro.



Foto por satélite do Mar Negro

O Mar Negro apresentou altos valores absolutos de impactos humanos cumulativos, além de crescimento dos mesmos. É uma região de colapso dos ecossistemas marinhos. Fonte: NASA/Wikimedia Commons (Domínio público).



Regiões com alto impacto humano cumulativo, mas que têm a taxa de mudança decrescendo, estão localizadas em latitudes mais ao norte do Oceano Atlântico. Áreas com baixo impacto humano cumulativo que também têm a taxa de mudança decrescendo (Oceano Pacífico central, Oceano Antártico e partes do Oceano Ártico Russo), podem ser regiões de extrema relevância por poderem desenvolver papel de refúgio para espécies marinhas no futuro.



Mapa mundi da taxa de crescimento dos impactos humanos cumulativos no oceano. Há uma escala numérica representada por cores no mapa. Regiões com alto impacto humano cumulativo, mas que têm a taxa de mudança decrescendo, estão localizadas em latitudes mais ao norte do Oceano Atlântico.

Taxa de crescimento dos impactos humanos cumulativos no oceano. Fonte: HALPERN et al., 2019 (CC-BY-4.0).



Em padrões globais, 85% da costa de 220 países e territórios têm uma média de aumento das taxas de impactos humanos cumulativos, sendo que 10% apresentam uma grande rapidez no ritmo dessas mudanças. Os maiores aumentos ocorreram em ilhas do Caribe e latitudes médias do Oceano Índico, sendo que a Ilha da Reunião (Réunion) - departamento francês localizado no Oceano Índico - tem o aumento mais rápido do ritmo de impactos humanos cumulativos.



ESCALAS GLOBAL E LOCAIS


Estressores de mudanças climáticas, no geral, aumentaram rapidamente, sendo os principais precursores das mudanças dos impactos humanos cumulativos no oceano em escala global e local.


Em escala global, a maior ocorrência de eventos relacionados com a frequência da temperatura superfície do mar anormalmente alta representam cerca de 75% do aumento dos impactos humanos cumulativos observados. A acidificação dos oceanos é o segundo fator de impacto de mais rápido crescimento, o que explica o avanço de 16% do aumento dos impactos humanos cumulativos.


Em escalas locais, próximo à costa, a maior frequência