Monitoramento subaquático de tartarugas marinhas por meio de fotoidentificação em Bombinhas/SC

Atualizado: 7 de set. de 2020

Autores: Luciana Fortuna Nunes; Ágatha Naiara Ninow; Juan Pablo Carnevale Sosa; Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró

Foto de tartaruga marinha próxima ao fundo do mar e perto de algas.

Tartaruga marinha identificada por meio da fotoidentificação com o código CM009, carinhosamente chamada de Hy. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.



Você sabia que é possível monitorar as tartarugas marinhas usando fotografia? Bombinhas, no Estado de Santa Catarina é uma área de alimentação e descanso das tartarugas marinhas verde - Chelonia mydas juvenis e seu comportamento na região é monitorado pelo Projeto Tartabinhas. As tartarugas marinhas possuem marcas naturais que as identificam como indivíduos únicos (como as marcas digitais dos seres humanos). Esta digital pode ser fotografada debaixo da água, sem a necessidade de capturar o animal. Marcas causadas por seres humanos nos animais também podem ser utilizadas como complemento de sua identificação.



METODOLOGIAS ATUAIS DE MONITORAMENTO DAS TARTARUGAS MARINHAS


Existem diferentes maneiras de se monitorar uma tartaruga marinha. O acompanhamento via satélite, a telemetria, é uma delas. Pela telemetria, a rota migratória das tartarugas marinhas é acompanhada e pode ser monitorada por meses ou até anos. Este tempo vai ser determinado pela vida útil do aparelho ou da própria vida da tartaruga. É um método caro e que depende de tecnologia mais avançada, mas pode ser aplicado em qualquer fase de vida do indivíduo.

Outra maneira é pela captura e recaptura, que pode ser do animal em si (com marcação usando anilha) ou de sua imagem fotográfica. O método captura-marcação-recaptura é aplicado pelo Projeto TAMAR e tem como objetivo monitorar a sazonalidade e a taxa de crescimento, dentre outros dados. O método captura e recaptura de imagem é realizado pela primeira vez no Brasil pelo Projeto TARTABINHAS, em Bombinhas, Santa Catarina, Brasil. Na região, indivíduos de tartaruga-verde (Chelonia mydas), são observados pela equipe Tartabinhas. O Projeto visa a monitorar a sazonalidade dos indivíduos, seu tempo de permanência na região e o seu comportamento durante a sua “estadia” usando um método menos invasivo, a observação in situ.

A preparação para a atividade começa um dia antes da entrada da equipe na água, com o preparo dos equipamentos necessários para o mergulho e a fotografia subaquática. Na água, a expectativa de fotografar o maior número de indivíduos é grande. Este monitoramento é complementar aos do TAMAR e outros projetos de proteção e conservação das tartarugas marinhas, como os Projetos (A)MAR, Karumbé, Caminho Marinho, entre outros.



FOTOIDENTIFICAÇÃO


Cada indivíduo de tartaruga marinha possui uma marca única em sua cabeça. O número de placas (queratinosas)e suas formas e posição não se repetem, tornando possível um monitoramento fotográfico dos indivíduos desde seu nascimento. Esta metodologia menos estressante ao animal foi desenvolvida por Gail Schofield, na Grécia, em tartarugas marinhas verdes e por Clair Jean, do Instituto Kelonia, nas Ilhas Reunião (França) nas tartarugas de pente e vem sendo aplicada ao redor do mundo por diversas entidades, que buscam uma maneira de padronizar e universalizar esses dados. Conforme metodologia de Clair Jean, a identificação dos escudos é uma série de três dígitos: o primeiro dígito representa o número do escudo localizado imediatamente atrás do olho, número da linha vertical pós-ocular. O segundo dígito corresponde a posição da placa nessa linha e o terceiro, o número de lados que o escudo apresenta.



Fotografia do lado esquerdo de uma tartaruga marinha nadando. Fonte: Projeto Tartabinhas.

Lateral esquerda de tartaruga marinha fotoidentificada pelo Projeto Tartabinhas pelo código CM006. Fonte: Projeto Tartabinhas©.



Fotografia do lado esquerdo da cabeça de uma tartaruga marinha com linhas coloridas delimitando as placas da cabeça, desenhadas.

Lateral esquerda de tartaruga marinha fotoidentificada pelo Projeto Tartabinhas pelo código CM006 e pela metodologia aplicada pelo Instituto Kelonia. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.



Ilustração de uma tabela com 3 linhas e 4 colunas e uma quarta linha com 3 colunas. cada linha tem uma cor. dentro de cada célula tem uma numeração. linha 1: 114, 125, 134, 145. linha 2: 214, 225, 236, 245. linha 3: 315, 325, 337, 343. linha 4: 415, 424, 434.

Código de identificação da tartaruga marinha CM006, Six, gerado pela metodologia do Instituto Kelonia. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.



FIBRO: A PRIMEIRA TARTARUGA MARINHA FOTO-MONITORADA DO BRASIL


Com observações realizadas na praia do Embrulho, centro de Bombinhas, desde 2017, a tartaruga marinha com o código CM003, chamada pela equipe Tartabinhas carinhosamente de Fibro, foi uma das primeiras avistadas e monitoradas. Observada pela primeira vez em 2017, seguiu sendo reavistada quatro vezes em 2018 e mais quatro vezes em 2019, tanto nos monitoramentos diurnos quanto noturnos. Em dezembro de 2018 foi vista pela primeira vez com fibropapiloma. Em 12 de junho de 2019, seus tumores estavam relativamente maiores.


Fotografias do lado esquerdo e direito de tartaruga marinha embaixo d'ágiua. Não é possível ver fibropapiloma.


Fotografias do lado esquerdo e direito de tartaruga marinha embaixo d'ágiua. Não é possível ver fibropapiloma.

Imagens de ambos os lados da Fibro, em 2017, ainda sem fibropapiloma. Fonte: Projeto Tartabinhas. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.



Foto de tartaruga marinha nadando, submersa. Sua cabeça está voltada para o lado esquerdo da foto. No lado esquerdo da cabeça é possível ver uma massa tumoral.

Fotografia da Fibro em 2019, com fibropapiloma no lado esquerdo da cabeça, próximo à boca. A diferença de coloração da água nas imagens é natural. As águas da região mudam de cor conforme época do ano, correntes, chuvas e ventos. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.