Protetores solares no ambiente marinho: seriam eles sempre positivos?

Atualizado: 11 de jan. de 2021

Autores: Mariana P. Haueisen, Raphaela A. Duarte Silveira, Marcus Farah, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró

Protetor solar jogado na areia. Ao fundo temos uma imagem desfocada do mar e algumas rochas.

Protetores solares podem causar impactos no ecossistema marinho. Fonte: dimitrisvetsikas1969/Pixabay (Domínio Público).



Muitas vezes ouvimos falar que os protetores solares são importantes para a nossa saúde. No entanto, poucos sabem sobre os impactos que eles podem causar no ecossistema marinho. Sendo assim, o que fazer?



TIPOS DE PROTETORES


Para iniciar o entendimento sobre este tema, deve-se entender sobre as categorias do material em estudo. Existem dois tipos de protetores solares: os físicos e os químicos. Filtros físicos, por formarem uma camada opaca sobre a pele, refletem a luz por mecanismo óptico. Filtros químicos absorvem a radiação ultravioleta, que é altamente energética, transformando-a em radiações com energias menores e de menor impacto ao organismo humano.



A INCIDÊNCIA DA RADIAÇÃO SOLAR AUMENTOU!


O uso de protetores solares ou filtros solares é necessário, visto que a radiação ultravioleta contribui para o desenvolvimento de câncer de pele, queimaduras, insolação, manchas e envelhecimento precoce da pele. Além disso, seu uso deve ser frequente, pois houve um aumento da incidência da radiação solar ultravioleta nos últimos anos, inclusive no Brasil, devido a sua posição geográfica tropical e equatorial. Contudo, é importante proteger a pele mesmo em dias nublados e ambientes fechados, pois ainda há incidência constante de radiação nessas condições, contribuindo com o desenvolvimento de problemas de saúde.



PROTETORES SOLARES COMO CONTAMINANTES


Apesar de importante para a nossa saúde, há evidências de filtros solares como contaminantes encontrados em grande quantidade no ecossistema aquático. Por exemplo, pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná em 2013 demonstraram que o protetor solar pode ser genotóxico a uma espécie de peixe lambari, causando danos no DNA. Um outro estudo realizado por diversos pesquisadores espanhóis e brasileiros, também em 2013, identificou a ocorrência de componentes de filtros solares no tecido hepático de mamíferos aquáticos.

Além disso, filtros solares têm um papel importante no branqueamento dos corais. Eles podem induzir um ciclo de infecção viral nas zooxantelas, mesmo em concentrações bem baixas, o que pode ser bastante prejudicial para a biodiversidade e para os serviços ecossistêmicos realizados pelos recifes de corais.


Como alternativa, já existem fotoprotetores que causam menor impacto no ecossistema aquático devido à ausência de determinadas substâncias químicas que contribuem para o impacto no ambiente marinho. Entretanto, devem ser usados como complemento ao filtro solar químico, por não serem totalmente eficazes contra o câncer de pele.


Imagem do oceano, sendo a parte inferior mostra o branqueamento dos corais e ao fundo uma ilha com vegetação.

Substâncias dos protetores solares químicos podem contribuir para o avanço do branqueamento dos corais. Fonte: Ishan@seefromthesky/Unsplash (Domínio Público).



POLUIÇÃO


O uso desses filtros também vem contribuindo com a poluição. Um estudo realizado na Universidade Federal da Bahia indica que o plástico foi o principal tipo de resíduo sólido encontrado nas praias do litoral sul da Bahia, sendo seus principais componentes garrafas PET, vasos de água mineral, vasilhames de detergente, de álcool, e de cosméticos (incluindo protetor solar e bronzeador), embalagens de óleo para motor, copos descartáveis, sacolas, embalagens de alimentos, entre outros. Pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba também encontraram bastante lixo marinho em áreas de reprodução de tartarugas marinhas na Paraíba e, dentre eles, nota-se a poluição por embalagens de protetor solar.



COMO SOLUCIONAR?


Ao dar preferência para o uso do filtro solar físico, contribui-se para a diminuição do impacto que algumas moléculas químicas dos protetores solares químicos causam no ambiente aquático.

Outra alternativa é utilizar vestimentas e acessórios que cubram as partes do corpo que normalmente ficam expostas. O uso de chapéus, bonés, óculos de sol e roupas com tecidos capazes de agir como barreira para os raios ultravioleta podem contribuir para a redução do uso dos filtros solares que tanto impactam no meio ambiente.


Imagem de uma mulher biquini e chapéu tomando sol na praia deitada sobre uma canga.

Vestimentas e acessórios como chapéus podem evitar o uso dos protetores solares. Fonte: AdamKontor/Pexels (Domínio Público).



A RESPEITO DO ASSUNTO


A educação ambiental é construída por meio de três processos, necessariamente nesta ordem: sensibilização, conscientização, mobilização. A sensibilização é quando se internaliza o problema ambiental devido às emoções. A conscientização é o conhecimento sobre o assunto pelo indivíduo, as informações que ele recebe, ou seja, ele está ciente do problema mas não necessariamente irá agir para transformar se não estiver íntimo com a causa, se não estiver sensibilizado. Portanto, a mobilização apenas ocorrerá se o indivíduo tiver passado pelos dois processos anteriores, sendo ela o agir do indivíduo a fim de provocar mudanças a favor da causa ambiental


A partir do conteúdo exposto, pode-se concluir que os protetores solares são importantes para a prevenção de danos e doenças de pele, garantindo, assim, a qualidade de vida do indivíduo que utiliza deste produto. Entretanto, é interessante optar por maneiras alternativas de impedir que a radiação ultravioleta entre em contato com a pele, que diminuam o uso do protetor solar, o qual pode causar impactos substanciais no meio ambiente.



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Bibliografia


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