Espécies exóticas invasoras: uma ameaça aos ecossistemas marinhos

Atualizado: 1 de jul. de 2021

Autores: Heloá Borges, Raphaela Duarte, Thais R. Semprebom, Rodrigo Ilho e Douglas F. Peiró


Imagem de um recife de coral contendo diversos organismos cnidários e várias espécies de peixes.

A invasão de espécies exóticas empobrece os ecossistemas, causando perda significativa da biodiversidade. Fonte: Fascinating Universe/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



Com o aumento de transporte intercontinental, diversas espécies de plantas e animais são deslocadas dos seus habitats naturais para novos ambientes. Uma espécie exótica, ou não nativa, é aquela que ocorre fora da sua área de distribuição geográfica e não necessariamente representa riscos à biodiversidade do novo local, pois pode não afetar as outras espécies ali existentes.


Já as espécies exóticas invasoras (ou somente espécies invasoras) são aquelas que ocorrem fora da sua área de distribuição e que interferem no ecossistema no qual foram inseridas, podendo causar prejuízos à saúde humana e à economia ou provocando impactos ambientais negativos. Atualmente, as espécies invasoras são um dos maiores desafios ambientais: elas competem por alimento e território com espécies nativas, geralmente não possuem predadores naturais e se reproduzem com uma velocidade considerável.


No ambiente marinho, o controle dessas espécies é muito mais difícil. As barreiras físicas e ecológicas que delimitam as regiões de expansão natural de uma espécie marinha são menos perceptíveis do que no ambiente terrestre.



COMO ESSES ORGANISMOS SÃO INTRODUZIDOS?


Espécies exóticas são introduzidas intencionalmente ou acidentalmente no meio ambiente e isso vem provocando uma perda significativa da biodiversidade por todo o planeta. Os meios de introdução nos ecossistemas marinhos são diversos, dentre os mais comuns estão:


  • aquarismo comercial irresponsável;

  • irregular introdução de espécies atrativas para a pesca esportiva;

  • fuga de animais criados em tanques de aquicultura;

  • o uso de alguma espécie para controle biológico de forma equivocada;

  • a descarga da água de lastro de embarcações contendo formas larvais ou adultas de organismos.



Ilustração de como ocorre o processo de água de lastro. Há 3 navios desenhados e embaixo de cada um deles há um textinho explicando. No primeiro navio está 1. Quando um navio está com o compartimento de carga vazio, seu tanque de lastro é preenchido com água do mar para que ele tenha estabilidade durante a navegação. No segundo navio, 2. Isso se torna um problema porque os navios captam a água no porto doador e despejam no porto receptor, que na maioria das vezes são ambientes totalmente diferentes. No terceiro navio, 3. Essa água costuma ser transportada de um país a outro e, quando eliminados no meio ambiente, podem disseminar espécies potencialmente perigosas e invasoras.

A água de lastro tem como objetivo aumentar ou diminuir a flutuabilidade, permitindo que o barco realize as manobras de modo mais eficiente durante todas as etapas do percurso. Fonte: adaptado de Ministério do Meio Ambiente. Ilustrado por Arthur Germano.



ESPÉCIES INVASORAS INTRODUZIDAS POR AÇÕES ANTRÓPICAS


Espécies invasoras se adaptam facilmente a ambientes degradados e antropizados (modificados pelo ser humano). Conforme o homem conquista novos territórios, diferentes organismos são transportados e disseminados, acelerando o processo de invasões e desequilíbrio ecológico. Três dessas espécies são mundialmente conhecidas devido às suas características de resistência e adaptação a novos ambientes. São elas: o peixe-leão, o coral-sol e o mexilhão-dourado, das quais falaremos a seguir.



PEIXE-LEÃO (Pterois volitan)


Imagem de um peixe-leão de coloração marrom e bege, mostrando as suas nadadeiras ornamentadas. Ao fundo da imagem podemos ver alguns organismos autotróficos.

Graças às longas e ornamentadas nadadeiras, o peixe-leão é considerado um dos peixes mais bonitos que existem. É utilizado em aquarismo mundialmente. Fonte: Skitterphoto/Pexels (Domínio Público).



Uma das espécies invasoras mais conhecidas mundialmente é o Peixe-leão (ou lionfish). Diversas cores vivas, listras e nadadeiras exuberantes fizeram dessa espécie um belo exemplar nos aquários do mundo, até que ela se tornou ‘o terror’ do Atlântico, após ser descartado indevidamente pelos próprios aquaristas em ambientes em que não ocorriam.


Natural dos oceanos Índico e Pacífico, o peixe-leão é visto fora do seu habitat natural desde 1992 e vem se alastrando de forma devastadora com o passar dos anos. Estudos realizados recentemente nas Bahamas apontam que lá são encontrados quase 400 exemplares de peixes-leão a cada 10000 metros quadrados, o que é cinco vezes maior do que nos recifes do Mar Vermelho, onde ele ocorre naturalmente!


Alguns fatores contribuem diretamente para essa dispersão, como a voracidade do peixe-leão como predador, já que os peixes nativos do Oceano Atlântico não o reconhecem como inimigo natural e acabam se tornando presa fácil. Outro aspecto a ser levado em consideração é o fato de que a população de espécies que atuam como competidoras do peixe-leão, como garoupas, badejos e alguns tubarões, diminuíram com a sobrepesca.


A espécie invadiu o litoral leste dos Estados Unidos e chegou à América do Sul. Relatos apontam que aquaristas soltaram espécimes no mar e, graças às suas características adaptativas, elas conquistam cada vez mais territórios marinhos. Em 2015 já haviam sido relatados 5 exemplares no Brasil, sendo 2 deles no Rio de Janeiro.



CORAL-SOL (Tubastraea coccinea e T. tagusensis)



Imagem mostrando vários organismos de coral-sol, de coloração amarelo alaranjado.

O coral-sol domina o espaço que antes era ocupado por espécies nativas, como outros corais, algas e esponjas. (Tubastraea tagusensis). Fonte: Maraguary/Wikimedia Commons (Domínio Público).



O coral-sol é uma espécie invasora que ameaça a biodiversidade marinha desde a década de 80, quando foi introduzido no litoral do Rio de Janeiro por meio de plataformas de petróleo e gás, atingindo nossos costões rochosos e se espalhando rapidamente ao longo da costa. O invasor é uma espécie asiática e, assim como o peixe-leão, também veio das águas do Índico e do Pacífico.


Dentro do gênero Tubastraea existem duas espécies que estão preocupando biólogos e ambientalistas: T. coccinea e T. tagusensis. Essas espécies contam com alguns aspectos positivos para sua disseminação nos ecossistemas: