Praias arenosas: estrutura, dinâmica e biodiversidade

Atualizado: 22 de jun. de 2020

Autores: Douglas F. Peiró, Thais R. Semprebom, Raphaela A. Duarte Silveira e Mariana P. Haueisen


Foto de um grupo de pessoas na praia. Algumas estão sentadas, outras em pé, todas olhando para o professor em pé à frente deles. Estão sob a sombra de de duas árvores e, ao fundo, o mar e alguns morros.

Praia do Lázaro, prof. Douglas Peiró em aula de campo sobre praias arenosas. Arquivo Bióicos 2016 ©.

As praias arenosas são caracterizadas por apresentarem uma intensa alteração dos fatores ambientais e biológicos, sendo que os organismos encontrados neste ambiente possuem adaptações que os permitem suportar o estresse ambiental.

Grande parte da costa da América do Sul é composta por praias arenosas e considera-se que possuam grande importância socioeconômica, como o desenvolvimento de cidades, existência de balneários e presença de atividades turísticas, comerciais e industriais. No Brasil, cobrem uma faixa de mais de 9 mil km, dominando quase toda a costa.

CONSTITUIÇÃO DAS PRAIAS ARENOSAS

Independente de onde se localizam, as praias arenosas são feitas de todo material sólido e solto que esteja disponível: areia, cascalho, seixos, conchas, grãos de rocha vulcânica, entre outros. A maioria do material sedimentar depositado nas praias é proveniente de rios que correm pelo continente e se depositam na foz desses rios.

Composição de duas fotos. A de cima mostra pontas de quatro dedos empurrando grãos de areias finos. A de baixo mostra um punhado de grãos grossos de areia na palma de uma mão.

Perceba a diferença entre os grãos de areia entre as duas praias. (A) Praia dissipativa, em que os grãos são mais finos, e (B) praia refletiva, em que os grãos são mais grossos. Fonte: Douglas Peiró, 2020 ©

As ondas atingem as praias e provocam um deslocamento gradual ao longo da costa, com o transporte de sedimentos. Essa corrente costeira é responsável pela distribuição das praias na faixa litorânea. Não fosse assim, só haveria praia arenosa junto à foz dos rios.

A movimentação das ondas e o tamanho dos grãos de areia são os fatores ecológicos dominantes no ecossistema de praias arenosas. A sobrevivência dos organismos intersticiais - meiofauna (aqueles que vivem nos espaços entre os grãos de areia) depende desta presença de água. Por sua vez, a capacidade de retenção de água na praia depende do tamanho dos grãos, sendo mais facilmente retida em praias com grãos menores.

As praias arenosas, que nos parecem tão agradáveis e graciosas, constituem um ambiente desafiador para a vida marinha, pois combinam os rigores do costão rochoso porém sem um substrato sólido para fixação dos organismos que ali vivem. Neste ambiente também encontramos fatores como o impacto mecânico das ondas, grande variação na temperatura, exposição periódica às marés. Apenas na zona infralitoral das praias a temperatura e a salinidade são mais constantes.

ESTRUTURA MORFODINÂMICA DAS PRAIAS

A morfodinâmica das praias apresenta um sistema de transição bastante variável e sensível, ajustado à flutuação dos níveis de energia do local e sob a ação de processos hidráulicos (da água), eólicos (do vento) ou biológicos (dos organismos). Percebe-se que não é estática e, às vezes, encontra-se muito larga, outras vezes estreita, com inclinação maior ou, então, muito plana. É um ambiente muito dinâmico!

Quanto à energia hídrica, as praias podem ser classificadas em:


  • Dissipativas: possuem pequena declividade, areia de granulometria fina e muito fina, e uma larga região de arrebentação.

  • Refletivas: são caracterizadas por um relevo de alta declividade e forte ação das ondas, com granulometria de média a grossa.


Composição de duas fotos. A de cima mostra uma praia bastante plana, com larga faixa de areia e o mar ao fundo, seguido de morros e nuvens no céu. Há folhas caídas e sombra de uma árvore sobre a areia no primeiro plano. A foto de baixo mostra uma praia com declive e uma faixa de areia mais estreita que a anterior. Ao fundo, o mar, um costão rochosodo lado esquerdo da foto, duas pessoas caminhando sobre a areia. Parte da areia está sombreada por uma árvore que não está visível na foto.

Praia do Lázaro, exemplo de praia dissipativa (A) e Praia da Sununga, exemplo de praia refletiva (B). Ubatuba, São Paulo. Fonte: Douglas Peiró, 2020 ©

Quando as ondas são maiores e com mais energia, criam uma praia de granulometria e inclinação maiores e diz-se que o estado morfodinâmico da praia é refletivo. Ao contrário, as praias dissipativas são formadas por ondas de pequena altura e com menos energia, com grãos de areia menores e com baixa inclinação. Em praias refletivas, a duração e a amplitude do espraiamento (a dispersão da água do mar sobre a areia da praia) são pequenas e sua velocidade é grande. Em praias dissipativas, o inverso acontece: a duração e a área do espraiamento são grandes e a velocidade é pequena.

O mecanismo pelo qual as ondas modificam as praias baseia-se na ascensão dos grãos de areia pela turbulência que acompanha a passagem de uma onda, e a queda destes mesmos grãos sobre o fundo, quando a onda não exerce mais força sobre eles. Os grãos de areia estão sendo continuamente reposicionados, alterando a configuração da praia. Cada vez que um grão é erguido do substrato, ocupa uma posição diferente.

INTERFACE ENTRE CONTINENTE E OCEANO

A região de interface entre o continente e o oceano pode ser dividida em costa, costa afora e praia.

  • Costa é definida como um a faixa que se estende entre o continente e o mar, indo para o interior continental até às primeiras mudanças significativas nas feições fisiográficas (presença de morros, por exemplo); faixa que varia normalmente de poucos a algumas dezenas de quilômetros.

  • Costa afora é a região que vai desde a zona de arrebentação das ondas até a borda da plataforma continental.

  • Praia é constituída por três elementos: o material sedimentar (areia, por exemplo), uma fonte de energia para movimentá-lo (as ondas) e a área costeira na qual este material se move (área geográfica).

O sedimento das praias é constituído por grânulos de vários tamanhos, promovendo a formação de diversas composições granulométricas. Grãos mais finos tendem a repousar em equilíbrio em praias de baixas declividade e energia hídrica, enquanto o diâmetro do grão aumenta em áreas mais íngremes e com maior energia hídrica.

ZONAÇÕES DAS PRAIAS ARENOSAS

A praia pode ser dividida em três sub-regiões, de acordo com a localização em relação às alturas de marés:


  • A região supralitoral localiza-se fora do alcance das ondas e marés normais (é alcançada pela água somente quando há ocorrência de marés muito altas ou tempestades). Portanto, é uma região marcada apenas pela umidade e pelos borrifos das ondas. É na região supralitoral que se formam as escarpas (inclinações) praiais.

  • Região intermareal (entremarés), ou seja, entre o nível da maré baixa e o da maré alta. É a porção da praia que sofre normalmente a ação das marés e os efeitos do espraiamento (a dispersão da água do mar sobre a areia da praia) e refluxo da água.

  • Região sublitoral (infralitoral), que vai do nível da maré baixa até além da zona de arrebentação (até a base da onda).

FAUNA DAS PRAIAS ARENOSAS

Dentre os principais fatores relacionados com o sucesso evolutivo das espécies que vivem em praias arenosas está a adequação dos organismos às condições ambientais contrastantes, as adaptações conquistadas na alternância de marés, ressacas e calmarias.

As praias arenosas sustentam uma comunidade típica, composta por invertebrados (equinodermos, moluscos, crustáceos e outros artrópodes) e vertebrados (aves marinhas, tartarugas marinhas durante a desova ou arribada e peixes litorâneos). Também, por sua produtividade, hoje já não é mais considerada como um depósito de areia estéril.

A maioria das adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais da fauna de praias arenosas está relacionada à dinâmica do ambiente costeiro, que é determinada por fatores como a morfologia da praia, o regime de ventos, ondas, correntes e marés.

As praias arenosas também possuem uma zonação na distribuição de sua comunidade, como os costões rochosos. Entretanto, nas praias arenosas os organismos não estão tão expostos e visíveis e há uma sobreposição das zonas. A comunidade dos organismos intersticiais, nas praias brasileiras, engloba cerca de 100 espécies que medem de 0,5 a 0,05 mm, com até 20 mil organismos em cada kg de areia.


Ilustração de uma praia, mostrando alguns pequenos animais enterrados próximos à superfície da areia, ou em túneis. Outros animais estão na água.

Ilustração representando a praia arenosa e a zonação na diversidade de organismos que a habitam. Fonte: Lencioni Neto, 1993.

A comunidade das praias arenosas possui populações relativamente numerosas, porém com baixa diversidade, consequência da escassa oferta de alimentos - pois ela é carente de algas, ou demais produtores primários essenciais como base da teia trófica - sendo constituída basicamente de animais, como vermes poliquetas, moluscos bivalves e crustáceos. A maioria deles é filtradora ou detritívora.

Poucos peixes habitam a zona de arrebentação e, os que ali vivem, devem ser capazes de suportar grandes variações de suprimento de água e de temperatura. Alguns deles, como o coió/voador, têm nadadeiras peitorais largas que os ajudam a se movimentar pelo fundo. Outros apresentam adaptações que lhes permite ficar aderidos ao fundo mesmo em águas turbulentas, como as raias e linguados. O peixe-serra, por exemplo, também se esconde na areia para detectar caranguejos e se alimentarem. Alguns podem ingerir areia, como por exemplo o parati-barbudo, para tirar dela as microalgas e outros nutrientes, e expelem os grãos limpos. Apenas algumas espécies se aproximam da arrebentação, quando há algas suspensas.

O ecossistema das praias arenosas é frequentemente visitado por animais terrestres, principalmente aves, em busca de uma rica fonte de alimentos (os animais que ali habitam). O formato e tamanho de seus bicos são plenamente ajustados para o tipo de presa que capturam: os habitantes subterrâneos das praias arenosas, possuindo estratégia de sobrevivência que consiste em investir um maior esforço em enterrar-se.