Lições de uma professora polvo

Atualizado: 4 de fev.

Autor: Pedro Henrique Soares Nogueira


Fotografia colorida de um mergulhador paramentado com óculos e snorkel nadando junto a um polvo. O mergulhador é um homem que aparenta 50 anos e de pele bege clara. O homem observa o polvo, um pouco acima dele, em meio ao ambiente da floresta de algas no fundo do mar.

O mergulhador Craig Foster nada junto ao polvo e o observa em meio a floresta de algas - My Octopus Teacher foi eleito o melhor documentário do Oscar 2021, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas — Foto: Divulgação Netflix.



Ao longo da vida, nos colocamos com frequência na busca por conexões singelas e profundas, que vêm do vislumbre de viver um estado de completude emocional, física, social ou política – podendo, talvez, encerrar-se no conceito de saúde – e que propicia, ao observador atento, viver e partilhar destas – hoje – raras ocasiões.


E na busca por esses estados de epifania ou nirvana, como se quiser chamar, é necessário, antes de tudo, amar. Como diria o ilustre Guimarães Rosa, em trecho do livro Grande Sertão: veredas, “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Recobrando sua vida na infância e em busca desses estados, Craig Foster, cineasta e amante dos oceanos, volta ao mar sul, gélido e revolto, da Cidade do Cabo, na costa sul-africana, e partilha conosco no documentário “My Octopus Teacher” um destes raros momentos. A atriz principal: um polvo fêmea.


O arrebatamento inicial com a história de Craig e este lugar comum, em que locutor e espectador se encontram, levam à introspecção e abrem caminho, na trama, ao afeto e respeito de uma (improvável) amizade. “Professor Polvo”, dirigido por Pippa Ehrlich e James Reed, sutil e delicadamente vai além da barreira das discussões relacionadas às nossas responsabilidades quanto à preservação ambiental das florestas subaquáticas e propõe várias reflexões do íntimo humano, como a nossa relação com a natureza, a busca pela empatia, a objetificação do mundo animal, até aquelas relacionadas ao fim da vida. Numa narrativa envolvente, os espectadores, depois de poucos minutos, já compenetrados às telas, acompanham Craig em seus mergulhos em apneia nas águas geladas e revigorantes daquele oceano e a construção de uma relação entre ele, o animal e o ambiente contíguo.


Este documentário original da Netflix, feito em parceria com a organização Off the Fence e o The Sea Change Project, nos contempla com uma fotografia estonteante da floresta de algas sul-africana e nos conta a história do retorno de Craig, após uma crise existencial e desconexão com os prazeres do trabalho, da família e da natureza, ao seu oceano interior.


Sem os trajes de mergulho, sem a pressão pela produção e sem ter barreiras que o impediriam estabelecer uma real conexão, Craig se dispõe a viver novas experiências e, ali, encontra de novo o prazer de fazer o que mais ama. A atenção plena direcionada aos sinais incríveis e sutis da natureza e o estado de entusiasmo com que Craig observava o ambiente criam expectativas, traduzidas ora em momentos de suspense, ora em imagens contemplativas.


Fotografia colorida de um polvo utilizando as ventosas de seus tentáculos para apanhar conchas de diferentes cores e se esconder no fundo do mar, sobre um substrato arenoso.

Amontoado de conchas - polvo envolvendo-se em conchas para se esconder e se proteger de predadores — Foto: Divulgação Netflix.



Através das lentes de sua curiosidade, é possível acompanhar o momento em que Craig avista, durante um mergulho, uma imagem que pode ser descrita como “esquisita”: um amontoado de conchas em meio a um clarão. Para sua surpresa, sai dali um polvo, que foge, observa, se protege envolvendo-se em algas e se esconde.


É possível compreender, então, que o polvo estava utilizando aquelas conchas e a alga como uma ferramenta, um escudo de proteção. Craig define aquele momento: “É difícil explicar, mas, às vezes, você tem um pressentimento e sabe que há algo nesta criatura que é muito incomum. Há algo para aprender aqui”.


Os capítulos seguintes desta instigante história mostram a aproximação diária de Craig e do polvo, a interação do animal com o meio, as fugas e estratégias de sobrevivência, a reprodução e a morte. Neste contexto, chama a atenção até do espectador mais desatento a inteligência com que o polvo planeja seus ataques, se esquiva quando atacado e, surpreendentemente, à luz de nossa ignorância a respeito da cognição destes animais, interage com o mergulhador. Numa cena comovente, que é difícil não associar com a obra de Michelangelo, “A criação de Adão”, a confiança da aproximação, o respeito pelo ambiente do animal e a persistência diária de Craig são premiadas com o primeiro contato com os tentáculos tímidos, curiosos e sinceros do polvo.


Fotografia colorida de um polvo camuflado em meio a corais e ouriços. Ele tem cor arroxeada e  estende seus tentáculos em direção aos dedos da mão do mergulhador.

O polvo estende seus tentáculos em direção à mão do mergulhador - o primeiro contato. Foto: Divulgação Netflix.



Os polvos – animais pertencentes à classe dos cefalópodes, que ainda contempla as lulas e os chamados chocos – são conhecidos pela complexidade e tamanho dos seus sistemas nervosos, que se estendem pelos tentáculos. São apresentados argumentos a respeito de sua cognição e senciência. O filósofo e mergulhador Peter Godfrey-Smith, em seu livro “Outras Mentes”, defende esta ideia, segundo a qual os polvos seriam capazes de reconhecer-se como seres vivos, que experienciam a dor, o medo e não agiriam simplesmente segundo os estímulos autômatos ao meio em que vivem – ainda que há muito o que se aprender a respeito de sua cognição.


Em uma das cenas mais bonitas do documentário, o polvo estende seus tentáculos contra um cardume de peixes – de forma descompromissada, sem o intento de pegá-los. Ao fundo, Craig narra aquele momento e abre o questionamento sobre a possibilidade de que o animal estaria apenas se divertindo.


Ao longo da obra cinematográfica torna-se clara uma relação de afeto muito grande que é construída à medida que, dia após dia, Craig revisita o polvo. E chama a atenção o fato de que, mesmo tendo amor por aquele animal, Craig não interfere nas situações de risco nas quais o polvo é perseguido por tubarões.


Neste sentido, um dos clímax do documentário centra-se na discussão dos limites éticos de nossas interferências, como humanos, na natureza e o respeito que dispensamos pelos seres do ecossistema marinho. Craig não antropomorfiza o polvo: não dá a ela – posteriormente, descobre-se que era de fato um polvo fêmea – um nome, não compara as suas ações com as de humanos e não questiona sua inteligência utilizando como régua a nossa capacidade cognitiva.


Para além de divulgar um fato científico, no mínimo, curioso, “Professor polvo” vem para questionar os vieses de nossas percepções sobre a inteligência animal e traduzir, na experiência de Craig, a nossa vasta ignorância em relação a este universo tão bonito e tão pouco estudado que é o mundo subaquático. E mostra, com riqueza de imagens, que é por meio do processo de tomarmos consciência do impacto de nossas ações sobre os ecossistemas que poderemos ter, verdadeiramente, um estado de completude – uma real conexão. My Octopus Teacher é, inescapavelmente, inspirador.


Link para trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=3s0LTDhqe5A.




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Bibliografia


GODFREY-SMITH, P. Other minds: The octopus, the sea, and the deep origins of consciousness. 1ª. ed. New York: Todavia, 2017.


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