Ecologia e estrutura de sistemas estuarinos

Atualizado: 16 de out. de 2020

Autores: Filipe Guilherme Ramos Costa Neves, Mariana P. Haueisen, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



fotografia aérea de um rio barrento encontrando com o mar, de águas mais azuis. Nas margens do rio e do mar há vegetação e é possível ver alguns cursos de rios mais estreitos, que também desembocam no mar.

Um exemplo de ambiente estuarino (Estuário do Rio da Prata, Buenos Aires, Argentina, 2003). Pequenos afluentes (abaixo) fluem para o estuário com suas águas repletas de material orgânico (em marrom) adentrando o oceano (logo acima na imagem). Fonte: Earth Sciences and Image Analysis Laboratory, NASA Johnson Space Center/Wikimedia Commons (CC0)



Na região costeira encontramos uma variedade de ecossistemas. Cada um deles apresenta comunidades de organismos em constante interação entre si e com os componentes abióticos, ou seja, a água, a atmosfera e o substrato com suas características físicas e químicas. São exemplos de ecossistemas marinhos costeiros:

Tais ecossistemas podem apresentar uma conectividade, sendo o estuário um ambiente de grande produtividade e exportação de nutrientes. Vamos descobrir por quê!?



O ECOSSISTEMA ESTUARINO


O estuário é caracterizado como uma reentrância da linha de costa para o continente, onde a água doce de um rio se mistura à água salgada do oceano. Nesse ambiente há uma ‘dança’ estuarina: a água salgada entra no estuário por baixo da água fluvial, isto é, a água proveniente dos rios; esta, por sua vez, sai em direção ao mar. No movimento ocasionado pelas marés, essas águas revelam a ‘dança’ estuarina.


As características de mistura dessas duas águas, a fluvial e a marinha, podem definir os tipos de estuários:

  • Cunha salina: o estuário apresenta altos níveis de estratificação, ou seja, águas com diferentes níveis de salinidade, por exemplo, uma massa d’água mais salina em baixo de outra menos salina, estabelecendo assim os diferentes estratos. Esse tipo de estuário também possui baixíssimo nível de mistura. É perceptível uma camada de água doce em cima e uma camada de água salgada embaixo.

  • Parcialmente misturado: há mistura de água salgada com a água doce, mas ainda há um pouco de estratificação no sistema.

  • Bem misturado: a água doce é completamente misturada à água salgada. O estuário apresenta um gradiente de água menos salina para mais salina conforme se aproxima do oceano.



Imagem de satélite do rio Amazonas, cujas águas estão em azul e cortam uma grande região em verde. As águas do rio fluem para o oceano que está em azul mais escuro. Ao longo do rio, nas margens e em alguns locais do verde, as aglomerações urbanas estão representadas como manchas em rosa.

Estuário do Rio Amazonas visto em imagem de satélite (Região Norte do Brasil). As águas do Rio Amazonas, em azul, fluem para a desembocadura do estuário e, então, para o oceano, com as águas em azul mais escuro. Fonte: Nasa’s globe software World Wind/Wikimedia Commons (CC0).



Conforme o grau de mistura, as regiões estuarinas também podem ser classificadas conforme a seguir:

  • Alto estuário: região de grande influência fluvial, onde há quase nenhuma mistura entre as águas fluviais e marinhas.

  • Médio estuário: região onde há grande mistura de águas fluviais e marinhas.

  • Baixo estuário: região onde há grande influência marinha.

As grandes variações na salinidade, ou seja, variações da quantidade de sais na água, é uma característica marcante dos estuários. Há espécies que se distribuem nesse ecossistema de acordo com o grau dessa variável e, então, podemos classificar dois tipos de organismos:

  • Organismos estenohalinos: organismos que se distribuem em áreas com uma pequena variação de salinidade. São específicos de um determinado valor de salinidade.

  • Organismos eurihalinos: organismos que se distribuem em áreas com uma ampla variação de salinidade.



Esquema ilustrado de um estuário e suas subdivisões de acordo com o grau de mistura. O baixo estuário está logo abaixo, próximo ao oceano, o médio estuário mais acima e o alto estuário, bem acima. Manchas verdes representam os manguezais. Espécies eurihalinas são encontradas nos três tipos, já espécies estenohalinas são associadas a somente um tipo.

Esquema de um estuário e suas subdivisões de acordo com o grau de mistura. As manchas verdes representam os manguezais. Espécies eurihalinas são encontradas nos três tipos de subdivisões, já espécies estenohalinas são associadas a somente um tipo. Fonte: Filipe Neves, 2020 ©



Essa variável abiótica associada a outras, como o tamanho dos grãos do sedimento, são determinantes na distribuição dos seres vivos no estuário. Por exemplo, em estuários bem misturados há um gradiente de distribuição dos organismos desde o alto estuário até o baixo estuário.


Isto é, organismos mais associados a ambientes fluviais, de baixa salinidade, têm maior distribuição no alto estuário; enquanto organismos mais associados a ambientes marinhos, de alto valor de salinidade, são encontrados no baixo estuário. Assim, temos um gradiente de distribuição de organismos desde o alto estuário ao baixo estuário. Espécies eurihalinas podem ter maior ocorrência no médio estuário, onde as variações de salinidade são bruscas.



A ECOLOGIA EM ESTUÁRIOS


- Entendendo a produtividade no sistema estuarino


E como se dá a relação dos organismos estuarinos com o seu tão variável habitat? Os estuários são ambientes altamente produtivos em termos da quantidade de carbono no sistema ao longo de um dia (sim, carbono! Esse é o parâmetro pelo qual se mede a produtividade de um ecossistema).


E qual a importância dessa taxa de carbono no sistema, ou melhor, dessa produtividade? É ela que sustenta as várias espécies que existem nos sistemas, inclusive no sistema estuarino. Ela faz parte da composição do alimento, ou seja, fonte de energia para a diversidade de seres vivos do ambiente. Inclusive, os ambientes de maior produtividade no planeta são os que apresentam a maior diversidade de organismos vivos.


E de onde provém esse carbono? Tanto da produtividade primária das algas, plantas e bactérias fotossintetizantes quanto do constante fluxo de matéria orgânica que vem dos rios, marés e circulação do próprio sistema. A produtividade primária pode ser expressa como a massa de carbono que é produzida ao longo de um período de tempo pelos organismos fotossintetizantes. Um outro tipo de produtividade, a produtividade secundária, é a taxa de carbono produzida pelos organismos heterotróficos ao longo de um período de tempo.


É importante entender esse processo de produção de carbono a fim de compreender os fluxos de matéria e energia no sistema, que são peça fundamental no sustento das teias tróficas. E essas teias tróficas nada mais são do que as relações em que um animal (herbívoro) se alimenta de organismos produtores como os vegetais e as algas; por sua vez, um outro animal (carnívoro) se alimenta do herbívoro; outro decompõe o ser vivo que morreu, ou suas partes, e assim vão ocorrendo as relações tróficas ou alimentares no sistema (ou ecossistema).


Por serem ambientes altamente produtivos, os estuários servem como fonte de alimento para uma grande variedade de organismos marinhos. Tubarões, outros peixes, peixes-boi, crustáceos, entre outros, apresentam o hábito de utilizarem os ambientes estuarinos tanto como fontes de alimento quanto locais de reprodução.