Adaptações dos animais aquáticos à vida nos estuários e manguezais

Atualizado: 4 de mar.

Autores: Lucas Garcia Martins, Nicholas Negreiros, Thais R. Semprebom, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró



Estuários e manguezais são ambientes conhecidos pelo encontro de águas do mar e dos rios, onde a dinâmica das marés modifica diariamente os parâmetros físicos e químicos da água, ou seja, a temperatura, a salinidade, a matéria orgânica, entre outros fatores. São áreas muito produtivas, mas também consideradas áreas de condições ambientais extremas para os organismos, devido às constantes mudanças. Contudo, se são tão extremas, como os animais aquáticos conseguem sobreviver tão bem nessas condições?


Estuário de Curuçá, Norte do Pará. Fonte: © Lucas Garcia Martins 2020.



Tenhamos em mente que a água é um meio líquido e, nela, vários elementos químicos estão dissolvidos, como o cloreto de sódio, magnésio, potássio, fósforo, carbono, hidrogênio e outros. As concentrações destes elementos dão características à água, por isso existem águas mais ácidas, mais alcalinas, com mais ou menos oxigênio e lugares mais ou menos salinos. Estes elementos são chamados de íons, que também existem dentro e fora dos animais, sendo necessário haver um equilíbrio entre eles para garantir o funcionamento metabólico do organismo. Mas esse equilíbrio ocorre de forma diferenciada para cada grupo de animais. Vamos lhes contar agora dos principais grupos animais que habitam essas áreas de transição de mar e rios!



CRUSTÁCEOS DECÁPODES


Crustáceos são animais invertebrados que fazem parte do filo Arthropoda. Decápodes são, como o nome sugere, animais que possuem dez pernas, e incluem os camarões, caranguejos, siris e lagostas. Eles obtiveram um sucesso evolutivo tão grande que existem representantes marinhos, dulcícolas (animais de água doce), terrestres e, aqueles que vivem nas áreas de transição de ambientes marinhos e dulcícolas - estes são os que nos interessam aqui.


Nos estuários e manguezais, os principais decápodes são os caranguejos, siris, lagostins e alguns camarões. Para que suportem as variações salinas constantes, possuem um sistema de osmorregulação bem desenvolvido, mas o que é osmorregulação? É a capacidade que os organismos possuem de manter quase constantes as concentrações iônicas internas em resposta às variações externas.


Evolutivamente eles desenvolveram estruturas chamadas glândulas antenais, que ficam na base das antenas, no caso de camarões e lagostins, ou pedúnculos oculares, no caso de siris e caranguejos, que controlam a pressão interna dos fluidos do animal. Em síntese, conseguem controlar a quantidade de água que entra e sai de seu corpo.


Os crustáceos também possuem um exoesqueleto, que é composto de carbonato de cálcio e quitina – proteína impermeável que compõe nossas unhas também. Por ser impermeável, esse exoesqueleto também limita muito a troca de água e íons entre o organismo e o meio aquático, assim eles mantêm-se em equilíbrio, apesar das condições externas.


Caranguejo vermelho do mangue, Neosarmatium meinerti (de Man, 1887), em manguezal do Sul da África. Fonte: Charles J Sharp/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)



MOLUSCOS BIVALVES E GASTRÓPODES


O Filo Mollusca inclui animais de corpo mole e, dentre eles, os bivalves e gastrópodes são alguns dos que secretam uma concha de carbonato de cálcio para proteger seu corpo contra predadores. Os bivalves correspondem às ostras e seu nome deriva do fato de abrirem e fecharem suas duas valvas. Muitos gastrópodes aquáticos possuem uma estrutura chamada opérculo, na abertura da concha única, que também pode ser usado para diminuir seu contato com a água, deixando seu corpo mole total ou parcialmente isolado do meio externo.


Diferente dos crustáceos, os moluscos não são osmorreguladores, mas sim osmoconformantes, ou seja, não controlam as concentrações iônicas de seu sangue, então as variações externas influenciam diretamente na concentração de íons no interior do animal. Como eles conseguem, então, viver nesses ambientes? É bem simples, quando a salinidade começa a cair, para evitar entrada excessiva de água em seu corpo, os animais se isolam fechando suas conchas, no caso dos bivalves, e no dos gastrópodes, utilizando seu opérculo.


Molusco gastrópode que habita os sedimentos dos manguezais, o Terebralia palustris (Linnaeus, 1767). Do inglês, mud creeper, traduzindo para o português, "rastejador da lama". Seu canal sifonal está à mostra para observador. Fonte: Christoph Kühne/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).



EQUINODERMOS


O filo Echinodermata engloba animais como: estrelas-do-mar, ouriços e bolachas-da-praia, além de outros, como os pepinos-do-mar, os lírios e margaridas-do-mar. São animais exclusivamente marinhos e, sobretudo, estrelas-do-mar e ouriços são predadores de topo entre os animais bentônicos.


Nos estuários, são a menor parcela de invertebrados, devido a sua fisiologia. São animais chamados isosmóticos, pois seus fluidos internos possuem as mesmas concentrações de íons que a água do mar. No entanto, por esse mesmo motivo, são poucas as espécies que vivem nos estuários. Elas são representadas nesse ecossistema principalmente pelos ouriços e algumas estrelas-do-mar que vivem nas porções de maior salinidade do estuário.


Essas áreas mais salinas também sofrem variações, e esses animais equilibram os íons internos e externos, ou seja, osmorregulam pela excreção de compostos nitrogenados por difusão. A difusão é o nome do que falamos durante esse artigo várias vezes, a passagem de água com íons de um meio para outro. Mas no caso dos equinodermos, eles eliminam os excessos de íons com ligação ao nitrogênio em áreas na superfície de seu corpo que possuem a pele mais fina. Este mecanismo é o que lhes permite viver no estuário.



Ouriço-vermelho Mesocentrotus franciscanus (A. Agassiz, 1863) sobre substrato rochoso, um dos principais grupos de equinodermos encontrados nos estuários. Fonte: Kirt L. Onthank/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).



MAMÍFEROS AQUÁTICOS


Algumas espécies muito carismáticas entram nos estuários, como os botos do gênero Sotalia: o tucuxi, S. fluviatilis (Gervais e Deville, 1853), que vivem em água doce mas chegam ao estuário para se alimentar, e os botos-cinza S. guianensis (Van Bénéden, 1864), que são costeiros mas também adentram estuários e manguezais, perseguindo cardumes de peixes. Acrescentamos também os peixes-boi-marinhos Trichechus manatus (Linnaeus, 1758), T. senegalensis Link, 1795 e o peixe-boi-de-água-doce T. inunguis (Natterer, 1883), que chegam nessas áreas para se reproduzir, se alimentar e proteger seus filhotes.


E como eles conseguem adentrar nos ambientes suportando a salinidade? A resposta está na excreção. Esses animais não bebem água diretamente do mar, eles adquirem água na alimentação, mas mesmo durante a alimentação acabam engolindo também água salgada. Por isso eles possuem rins muito mais eficientes que os de mamíferos terrestres, com muito mais estruturas chamadas glomérulos, responsáveis pela excreção de sais e amônia. Portanto, esses animais excretam urina com pouca água, mas muito concentrada de sais e amônia, o que garante seu equilíbrio iônico com a água salgada e salobra.


Dois botos tucuxi registrados na Guiana Francesa. Fonte: Amandine Bordin – GEPOG/ NGC/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



Os ambientes aquáticos são muito heterogêneos em todo o planeta e podemos perceber que, evolutivamente, essas características diferenciam os animais que vivem nesses ambientes. Essas adaptações permitem que animais transitem entre as mais adversas condições. Toda forma de vida possui sistemas de excreção e osmorregulação distintos, além da adaptação de seus aparatos bioquímicos e celulares, até mesmo a composição de seus tecidos e corpo é variável.




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