Tartarugas marinhas: diferentes formas de identificação de espécies

Autores: Aline Pereira Costa, Fernanda Cabral Jeronimo, Thais R. Semprebom, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró


 A foto é um filhote de tartaruga verde, que tem cor dorsal preta com uma linha marginal branca por todo o corpo. O filhote está rastejando sobre a areia.

Filhote de Chelonia mydas – podem ser identificados pelas quatro placas laterais na carapaça e plastrão branco. Fonte: Luhur wi/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



Distribuídas por toda região tropical e subtropical, atualmente existem sete espécies de tartarugas marinhas, sendo que cinco delas ocorrem ao longo do litoral brasileiro. Algumas são muito semelhantes, mas cada espécie, e até mesmo cada indivíduo de tartaruga marinha, apresenta características morfológicas externas (aspectos da aparência externa) diferentes entre si.


A identificação de uma espécie de tartaruga marinha pode ser feita por observações da morfologia externa, pelo rastro que elas deixam na areia quando sobem à praia para nidificarem (neste caso realiza a identificação das fêmeas, visto que apenas elas sobem à praia) e também por informações genéticas.


Uma forma de identificação que tem sido cada vez mais usada é a fotoidentificação, porém esse método é mais utilizado na identificação de indivíduos de tartarugas marinhas dentro de uma população, já que cada indivíduo possui marcas únicas (analogamente às impressões digitais dos seres humanos). Esta metodologia foi desenvolvida por Gail Schofield (2008) na Grécia e por Clair Jean (2010) na França, e tem por finalidade identificar o indivíduo por meio dos registros fotográficos de sua cabeça, uma vez que cada indivíduo possui marcas únicas na cabeça (formato de suas placas). O formato das placas e posição não se repetem, o que torna possível o monitoramento fotográfico dos indivíduos desde seu nascimento.



IDENTIFICAÇÃO POR CARACTERÍSTICAS MORFOLÓGICAS


A identificação das espécies utilizando como referência as características morfológicas do animal é realizada a partir de observações das placas (ou escudos) laterais da carapaça; do número de placas pré-frontais e pós-orbitais presentes na cabeça; do formato do corpo e da mandíbula (bico) e a presença ou ausência de unhas nas nadadeiras.


Desenho de uma tartaruga marinha visto de cima. Possível observar cabeça com alguns polígonos representando as escamas. As nadadeiras dianteiras possuem um espinho na cor laranja, que representa a presença das unhas. No casco só é possível observar a carapaça, onde as placas centrais, localizadas no centro do casco, estão em vermelho, nas laterais dessas placas centrais, tem as placas laterais em verde e circundando esses dois tipos de placas, tem as placas marginais que estão em azul.

Ilustração representativa em vista dorsal de uma tartaruga marinha, com a localização das placas centrais, laterais e placas marginais, além da presença da unha. Fonte: © 2021 Douglas Cabral/Instituto Bióicos.



A carapaça de uma tartaruga é dividida em placas centrais (nucal, vertebral e supracaudal), placas laterais (ou costais) e placas marginais. A identificação de uma espécie de tartaruga marinha é realizada principalmente pela observação das placas laterais, onde as placas são numeradas no sentido anterior para posterior.


As escamas queratinizadas da cabeça também são utilizadas para identificação, sendo as principais as escamas pré-frontais e laterais. As escamas pré-frontais ocorrem aos pares, já as escamas laterais, também conhecidas por pós-orbitais, podem variar na forma e quantidade, mas não em sua posição. São escamas que apresentam variações individuais, sendo usadas na identificação de indivíduos de tartarugas marinhas de uma mesma espécie.


Desenho representativo da cabeça de uma tartaruga marinha evidenciando as escamas presentes na cabeça. A cabeça tem a presença das narinas e olhos e bico. Na parte dorsal e lateral da cabeça pode observar mosaicos que representam as escamas. Na parte superior entre os olhos há um par de escamas maiores que está na cor verde, representando as escamas dorsais. Lateralmente pode observar quatro escamas quase simétricas na cor azul, representando as escamas pós-orbitais.

Ilustração representativa da cabeça de uma tartaruga marinha. Em verde, as escamas pré-frontais, e em azul, as escamas pós-orbitais. Fonte: © 2021 Douglas Cabral/Instituto Bióicos.



O formato do bico das tartarugas marinhas também apresenta diferenças, e está relacionado à dieta de cada espécie. Já o formato do corpo pode variar quanto ao comprimento, à largura ou à altura da carapaça, além da variação nas placas dérmicas queratinizadas, exceto na tartaruga-de-couro, em que não há placas dérmicas queratinizadas, mas quilhas. As unhas presentes nas nadadeiras podem variar conforme a espécie.



Identificação de cada espécie de acordo com as características morfológicas


- Tartaruga-verde: Chelonia mydas (Linnaeus, 1758)


Possui carapaça oval e quatro pares de placas laterais justapostas. O plastrão possui quatro escudos inframarginais sem poros. A cabeça é pequena, com um par de placas pré-frontais, e o bico é serrilhado. Sua dieta é onívora quando filhote e herbívora quando adulta. Possui uma unha em cada nadadeira anterior.


Os adultos têm carapaça em cúpula alta e a cor varia de verde claro a escuro com manchas escuras, enquanto o plastrão é branco. A carapaça dos filhotes recém-nascidos é de cor preta/marrom-escuro na carapaça, enquanto a margem da carapaça e o plastrão são brancos.

Imagem composta por quatro desenhos. Em A, o desenho de uma tartaruga marinha voltada com sua cabeça para o lado direito, e suas quatro placas laterais destacadas na cor verde. Em B, o desenho da cabeça, onde na parte superior entre os olhos há um par de escamas maiores que está na cor verde e lateralmente pode observar quatro escamas quase simétricas na cor azul. Em C, o mesmo desenho da cabeça, porém com destaque em laranja para o bico serrilhado. As demais escamas da cabeça neste desenho, não estão destacadas (em branco). Em D, o desenho da parte de baixo do corpo de uma tartaruga marinha, com as divisões do plastrão, sendo que quatro placas inframarginais à direita estão na cor verde.

Ilustração representativa das características morfológicas da tartaruga-verde Chelonia mydas. (A) carapaça com destaque dos quatro pares de placas laterais; (B) cabeça com destaque no par de placas pré-frontais (verdes) e pós-orbitais (azuis); (C) bico e (D) plastrão com destaque para os quatro escudos inframarginais sem poros. Fonte: © 2021 Douglas Cabral/Instituto Bióicos.



- Tartaruga-oliva: Lepidochelys olivacea (Eschscholtz, 1829)


Apresenta carapaça circular e assimétrica com seis ou mais pares de placas laterais. O plastrão possui quatro escudos inframarginais com poros. Sua cabeça é pequena, com dois pares de placas pré-frontais, e as mandíbulas são fortes. Sua dieta é carnívora, alimentando de peixes, moluscos, crustáceos e água-viva. Podem apresentar uma unha nas nadadeiras anteriores e uma ou duas nas nadadeiras posteriores.


O adulto dessa espécie possui carapaça circular com cor verde-acinzentada, enquanto o plastrão é branco. Já o filhote recém-nascido possui cor preta e cinza dorsal e ventralmente.