Caravela-portuguesa: um animal peculiar e potencialmente perigoso que flutua no oceano

Atualizado: 3 de jun.

Autores: Raphaela Müller, Fernanda Cabral Jeronimo, Thais R. Semprebom, Mariana P. Haueisen e Douglas F. Peiró



Foto de uma caravela marinha flutuando no oceano. Na foto aparece a parte flutuante fora d'água e os tentáculos dentro d'água. Ao fundo aparece uma montanha e o céu.

O nome popular caravela-portuguesa, a Physalia physalis, vem do formato da parte flutuante, que se parece muito com o chapéu usado pelos marinheiros portugueses e com as caravelas utilizadas como navios de guerra. Fonte: Montse Grillo/Flickr (C).



As caravelas-portuguesas são animais que pertencem à classe Hydrozoa e são do gênero Physalia. Existe apenas uma espécie dentro desse gênero, a Physalia physalis. As caravelas marinhas são muito confundidas com águas-vivas, porém não são águas-vivas. Não são nem mesmo um único animal, mas sim uma colônia de indivíduos. Elas flutuam em mares tropicais e subtropicais, como nas águas do Índico, Pacífico e do Atlântico.


As caravelas são incomuns por serem constituídas por uma colônia de indivíduos especializados e geneticamente idênticos (clones) chamados zooides ou pólipos. Eles possuem várias formas e funções, mas todos trabalham juntos, não sobrevivendo separadamente.


Os pólipos que compõem a colônia são:

  • Um pneumatóforo, transformado numa vesícula flutuadora que se inclina lateralmente, garantindo que eles flutuem em diferentes direções. Os flutuadores são muito semelhantes a bexigas, são preenchidos por gás carbônico e apresentam coloração roxo-azulada.

  • Os tentáculos são chamados de dactilozoóides, que podem chegar a 50 metros de comprimento e servem para capturar as presas.

  • Os gastrozoóides ou gonóforos formam o aparato digestório da colônia.

  • Os gonozoóides, responsáveis pela reprodução.


Foto de uma caravela marinha com legendas nas partes. De cima para baixo: Pneumatóforo, gastrozooides, região de formação dos gonóforos e dactilozooides.

Os zooides são divididos em quatro partes, e cada parte é responsável por uma função específica, como flutuar, capturar presas, alimentar-se e reproduzir-se. Fonte: imagem com modificações, cedida gentilmente por Alvaro Migotto ©.



Os tentáculos possuem nematocistos, cápsulas microscópicas carregadas com tubos farpados em espiral. Eles liberam substâncias tóxicas sempre que as células são estimuladas (por algo encostando ou por mudanças osmóticas de água) e são capazes de paralisar e matar crustáceos e pequenos peixes. Quando a presa está paralisada, os gastrozooides fixam e puxam o alimento até os gastrozooides. Além da alimentação, essas cápsulas são usadas para a defesa do animal.


Desenho mostrando a sequência de disparos e a anatomia das células nematocísticas. Estão localizadas na parte inferior do desenho da direita para a esquerda o tentáculo e a cápsula. Na parte superior, no mesmo sentido, os nematocistos e as farpas.

O desenho esquematiza a anatomia de uma célula nematocística, ou células urticantes, e sua sequência de "disparo", da esquerda para a direita. Fonte: com modificações de Josuevg/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).



Esses animais geralmente são vistos em mar aberto, mas podem acabar aparecendo nas praias. Eles não atacam os humanos, porém, se você entrar em contato com um de seus tentáculos enquanto nada, ou até mesmo caminhando na praia, pode causar desde vermelhidão e coceira até queimaduras profundas. Em casos raros, os casos podem levar à morte. Mesmo depois da caravela estar morta, ela ainda pode causar queimaduras.


Os gonozoóides ou gonóforos das caravelas possuem bolsas que abrigam ovários ou testículos, portanto, cada colônia pode ser considerada masculina ou feminina. Embora não se tenha certeza de como esses animais procriam, a teoria que se tem é que os gonozooides liberam os óvulos ou espermatozóides no oceano aberto e são fertilizados quando se cruzam. Eles se reproduzem rapidamente, gerando uma grande quantidade de colônias.


Foto de quatro caravelas marinhas flutuando. Elas estão bem próximas, parecendo até uma única colônia.

As caravelas não são vistas apenas isoladamente, já foram observadas mais de 100 colônias flutuando juntas. Fonte: gentilmente cedido por Pierre Jaquet ©.



QUEM PREDA ESSES ANIMAIS TÃO VENENOSOS?


Os principais predadores das caravelas são as tartarugas marinhas. Elas possuem papilas espinhosas que apontam em direção à garganta do animal. Essas papilas revestem o esôfago da tartaruga desde a abertura da boca até o estômago. Elas são feitas de queratina, a mesma proteína encontrada em nossos cabelos e unhas. Eles não apenas protegem a garganta e a boca da tartaruga das picadas de água-viva e de caravelas, mas também ajudam a quebrar a comida e retê-la ao expelir o excesso de água salgada.


Foto do esôfago de uma tartaruga-de-couro. O esôfago parece com vários espinhos.

Esôfago de uma tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea. Fonte: Karumbé/Wikimedia Commons (CC0).



As caravelas marinhas, consideradas potencialmente perigosas para os humanos, são de extrema importância para o ecossistema marinho, servindo de alimento para as tartarugas e de abrigo para outros peixes (que possuem muco protetor, os protegendo contra os nematocistos). O excesso desses indivíduos pode gerar um desequilíbrio no ambiente, por isso, a preservação das tartarugas ajuda a controlar a quantidade de caravelas-marinhas e águas-vivas que habitam os oceanos.



Escute este artigo também pelo nosso Podcast. Clique aqui!



Bibliografia