O coral-sol: um astro invasor

Atualizado: 4 de fev.

Autores: José Pedro Vieira Arruda Júnior, Nicholas Negreiros, Thais R. Semprebom, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró


Imagem de indivíduos de coral-sol agregados em um substrato no mar. Da esquerda para a direita, há cerca de 80 indivíduos com os pólipos para fora ou não.

O coral-sol é uma espécie exótica invasora que ameaça a biodiversidade marinha brasileira (Ilha da Âncora, Búzios). Fonte: Maraguary/Wikimedia Commons (CC0).



A intensificação do trânsito marítimo, desde as grandes navegações, permitiu que organismos fossem transferidos para áreas que não sejam de sua ocorrência natural. Esses organismos são chamados de espécies exóticas e podem causar grandes problemas ecológicos e econômicos no ambiente em que são encontrados, como é o caso do coral-sol (Tubastraea spp.).



O QUE SABEMOS SOBRE O CORAL-SOL?


Coral-sol é o nome comum para espécies animais do gênero Tubastraea, originários do Indo-Pacífico e que chegaram ao Brasil por volta dos anos 1980, em incrustações de plataformas petrolíferas no Rio de Janeiro. No Brasil, são encontradas duas espécies, T. tagusensis, de cor amarelada, e T. coccinea, de cor alaranjada (entre outras características morfológicas que as distinguem), tanto em ambientes naturais da costa brasileira como também em plataformas petrolíferas, navios e bóias. Esses organismos estão se dispersando na costa do Brasil, mas principalmente nos estados de Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, e mais recentemente em outras áreas do Nordeste, como Pernambuco e Ceará.



MAS COMO ESSAS ESPÉCIES CONSEGUIRAM SE ESTABELECER NO BRASIL?


Quando uma espécie consegue ser uma boa competidora por espaço, ela pode exercer influência ao longo de uma área e ter vantagem na competição com outros organismos que não sejam de sua espécie (competição interespecífica). Além disso, uma maior área de influência possibilita que a espécie exótica tenha maior disponibilidade de recursos para crescer e se reproduzir. A ausência de predadores naturais também intensifica a área de influência desses organismos. Todas essas características podem favorecer a espécie de tal forma que ela se torne invasora no local.


O coral-sol possui características que o torna um excelente competidor por espaço e por recursos. Por exemplo, não precisa de zooxantelas (microalgas) para realizar fotossíntese e, por isso, não branqueiam como os corais zooxantelados. Além disso, possui altas taxas de reprodução (sexuada e assexuada), principalmente em águas quentes, onde o seu metabolismo é acelerado.


A reprodução desse organismo acontece por meio da dispersão de uma larva pelágica (plânula) que, devido à capacidade de natação e de dispersão, consegue se estabelecer como pólipos em áreas distantes da sua área de liberação. Além disso, esses organismos produzem substâncias químicas que impedem o assentamento (estabelecimento da larva em um substrato) das suas larvas próximas da área de liberação (alelopatia), obrigando essas larvas a buscarem áreas distantes da influência desses compostos químicos. Assim, o coral-sol consegue aumentar a sua área de distribuição no Brasil.



Imagem retratando diferentes fases do ciclo de vida do coral-sol. Na seção (A), região superior esquerda, é evidenciado o coral-sol adulto de cor amarelada e com pólipos para fora. Na seção (B), região superior direita, duas formas de embrião alaranjados são colocadas, a primeira à esquerda com forma circular e com bordas irregulares, e a segunda à direita com forma circular. Na seção(C), região inferior esquerda, duas larvas de coral-sol são evidenciadas, a de baixo tem forma oval, de menor tamanho e cor amarelada, e a de cima é oval, de cor amarelado, de maior tamanho. Na seção (D), larvas maduras e amareladas de coral-sol são evidenciadas, a de cima de maior volume e a de baixo com menor volume e mais achatada.

O coral-sol (A) e seus estágios iniciais de desenvolvimento como embrião (B), larva evidenciando seu poro oral (C) e larva madura (D). Fonte: adaptado de Luz et al. (2020) (CC BY 4.0).



QUAIS SÃO OS PREJUÍZOS ECONÔMICOS E ECOLÓGICOS DA INVASÃO DO CORAL-SOL?


Na Bahia, o coral-sol compete com o coral-cérebro (Mussismilia braziliensis), que é a espécie mais encontrada nos recifes e chapeirões de Abrolhos. Como o primeiro se reproduz e cresce mais rápido, o segundo sucumbe a esse excelente competidor. Assim, as estruturas que conhecemos dos chapeirões nos recifes da Bahia estão ameaçadas. Além disso, esponjas e algas, que também compõem e formam recifes no Brasil, vão sendo sufocadas pelo coral-sol à medida que estes crescem e acabam homogeneizando os recifes.


Dessa forma, a biodiversidade dos recifes brasileiros reduz drasticamente, já que espécies que antes habitavam ali acabam desaparecendo pela falta de recursos e condições para se estabelecer. O coral-sol pode transformar ambientes recifais e afetar negativamente atividades econômicas, como a pesca local e o ecoturismo subaquático.



O QUE PODE SER FEITO PARA CONTROLAR AS POPULAÇÕES DE CORAL-SOL NO BRASIL?


É importante sempre que haja a união da sociedade, da academia e de instituições públicas e privadas na luta contra espécies exóticas para a construção de um plano de ação adequado à realidade de cada região.


O plano de ação segue protocolos compostos pelo diagnóstico e monitoramento, onde são conhecidas as características biológicas e ecológicas desses organismos, além de sua distribuição no Brasil. Depois, são compiladas formas de controle e manejo que já existem, juntamente com projetos desenvolvidos pelo Poder Público e Privado no Brasil:


  • Controle químico, com substâncias específicas para as espécies e não cumulativas, ou seja, que não se acumulam nos organismos marinhos.

  • Controle físico, com a remoção mecânica.

  • Controle biológico, que acontecem por meio da introdução de parasitos específicos da espécie, predadores e/ou melhores competidores. No entanto, esse controle não é tão bem aceito, pois pode introduzir outras espécies exóticas.

  • Financiamento de pesquisas em Universidades Públicas e Instituições Privadas para desenvolvimento de planos de ações para o manejo do coral-sol em diversas regiões do país e para a sensibilização e educação ambiental em comunidades tradicionais que estão sendo afetadas negativamente pela presença do coral (ex.: Projeto Coral Sol e outros projetos desenvolvidos).


Imagem de dois mergulhadores em uma embarcação.Ao fundo, o continente indica ser um ambiente costeiro. A embarcação parece ser de grande porte.

O mergulho é a principal forma de acesso às colônias de coral-sol para sua remoção (Mergulhadores Felinto Perry, Dezembro de 2013) Fonte: Marinha do Brasil/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)



Assim, embora as espécies de coral-sol causem problemas ecológicos e econômicos na costa brasileira, existem diversas instituições que atuam no controle e manejo dessas espécies em conjunto para que possamos suprimir essa invasão, principalmente em áreas marinhas protegidas que são centros da biodiversidade marinha brasileira.




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Bibliografia


Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA). Controle e monitoramento Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-Sol (Tubastraea spp.) no Brasil, 2018. E-book. Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/esectamoios/images/stories/2019-08-02-Plano-Nacional-de-Prevencao-Controle-e-Monitoramento-do-Coral-sol-Tubastraea-spp-no-Brasil.pdf. Acesso em: 20 Jun. 2020.


LUZ, B. L. P et al. Life‐history traits of Tubastraea coccinea: Reproduction, development, and larval competence. Ecology and Evolution, v. 10, p. 6223–6238, 2020. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1002/ece3.6346. Acesso em: 20 Jun. 2020.


MIRANDA, R. J. et al. Coral invasor Tubastraea spp. em recifes de corais e substratos artificiais na Baía de Todos os Santos (BA). 2012. Trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Oceanografia, Associação Brasileira de Oceanografia, 2012, Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/285839929_Coral_invasor_Tubastraea_spp_em_recifes_de_corais_e_substratos_artificiais_na_Baia_de_Todos_os_Santos_BA. Acesso em: 20 Jun. 2020.


OIGMAN-PSZCZOL, S. et al. O controle da invasão do coral-sol no Brasil não é uma causa perdida. Ciência e Cultura, v. 69, n. 1, p. 56-59, 2017. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252017000100019. Acesso em: 20 Jun. 2020.


OLIVEIRA, A. C. B. O invasor coral sol e mudanças climáticas: efeitos da temperatura na dispersão pelágica e competição interespecífica. 2012. Tese (Doutorado em Biologia Comparada) - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2012. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/59/59139/tde-18022020-222423/pt-br.ph. Acesso em: 20 Jun. 2020