Iguanas-marinhas-de-Galápagos: a única espécie de lagarto adaptada à vida marinha

Atualizado: 1 de abr.

Autores: Aline Pereira Costa, Fernanda Cabral Jeronimo, Thais R. Semprebom, Mariana P. Haueisen e Douglas F. Peiró


A foto mostra o iguana marinho de coloração cinza escuro, seu dorso apresenta estruturas em formas de espinho. Este iguana repousa sobre uma rocha de coloração escura com alguns poros (pequenos círculos por toda a rocha). Ao fundo pode-se perceber o mar com imagem desfocada.

Iguana-marinha Amblyrhynchus cristatus, termorregulando sobre a rocha. Fonte: Diego Delso/ Wikimedia Commons (CC BY-SA).



Conhecidos por sua morfologia nada convencional e até mesmo descritos por Charles Darwin como seres horrendos, as iguanas-marinhas-de-Galápagos são animais fascinantes se apreciarmos além da sua aparência. Adaptados à vida marinha, essas iguanas são os únicos lagartos existentes capazes de viver nesse ambiente.


O arquipélago de Galápagos é constituído por 13 ilhas principais e diversas ilhotas de origem vulcânica que estão situadas a oeste do Equador. Distantes mais de 900 km da costa, essas ilhas são conhecidas por ser um laboratório natural para estudos evolutivos, pois possuem uma diversidade incrível de vida marinha muito bem adaptada às condições que as ilhas proporcionam (isolamento geográfico, falta de água potável e correntes marítimas que proporcionam riqueza de nutrientes).


Ilustração de um mapa das ilhas do arquipélago de Galápagos. O fundo em azul representa o Oceano Pacífico, ao centro observam-se cinco estruturas brancas, que são as maiores e principais ilhas do arquipélago. Outras estruturas menores são pequenas ilhas que também compõem o arquipélago.

Mapa ilustrativo das ilhas que compõem o arquipélago de Galápagos no Oceano Pacífico. Fonte: adaptado de Ecuador_Galápagos_Islands_location_map.svg: NordNordWest/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).



Galápagos é o berço de várias espécies “incomuns”, como exemplo o famoso George, a tartaruga gigante, Chelonoidis abingdonii, e as iguanas-marinhas. A espécie de iguana-marinha Amblyrhynchus cristatus é a única cujos lagartos são adaptados à vida marinha, endêmicas (que ocorrem apenas neste local) destas ilhas. Os cientistas acreditam que as iguanas-marinhas tenham evoluído de iguanas terrestres do continente, que chegaram às Ilhas Galápagos boiando em troncos há milhões de anos. O gênero Amblyrhynchus teria evoluído de uma linhagem monoespecífica (uma única espécie) juntamente com as três espécies de iguanas terrestres de Galápagos (do gênero Conolophus) viventes nas ilhas.


A imagem é uma representação da linhagem evolutiva dos iguanas marinhos. A esquerda a faixa preta representa o período de divergência que é de 8,25 milhões de anos. A imagem no topo é um lagarto de cor cinza claro com algumas faixas escuras no dorso (representação do gênero Ctenosaura), dessa imagem saem duas ramificações, sendo a esquerda a imagem do lagarto do gênero Conolophus, com coloração amarela no ventre e cinza escuro no dorso. Enquanto a imagem a direita é a representação do gênero Amblyrhynchus, sendo sua coloração cinza escuro para preto. Em seu dorso nota-se a presença de estruturas semelhantes a espinhos.

Linhagem evolutiva de Amblyrhynchus e Conolophus. Ambos os gêneros divergiram de um ancestral comum, Ctenosaura, por volta de 8,25 Ma (milhões de anos). Fonte: elaborado por Aline Pereira com base no estudo de MacLeod, et al. (2015). Fotos: Roman Bonnefoy/ Wikimedia Commons (CC-BY-SA 2.5); Haplochromis/Wikimedia Commons (CC-BY-SA 2.5); sibcruiser/Pixabay.



Presentes em todas as ilhas do arquipélago, esses animais se adaptaram ao ambiente e sobreviveram, e se tornaram animais fascinantes aos olhos dos pesquisadores. Exclusivamente herbívoros, as iguanas passaram a se alimentar de algas presentes nas águas salgadas do Pacífico, ocorrida devido às suas adaptações fisiológicas.


Por serem animais ectotérmicos (dependem da temperatura do ambiente para controlarem sua temperatura corporal), as iguanas passam horas sob o sol regulando a sua temperatura para, então, poderem mergulhar em busca de alimento. Como o Oceano Pacífico na região de Galápagos é controlado pela corrente oceânica Humbolt (uma corrente de águas frias), as águas desta região são geladas, fator que pode ser crucial para um lagarto. Diante disso, as iguanas-marinhas necessitam aumentar sua temperatura corporal para aproximadamente 36°C antes de se alimentarem pois, ao mergulharem, sua temperatura reduz cerca de 10°C.


Mas essa não é a única adaptação evolutiva. Podemos notar que os pés dessas iguanas possuem garras bem afiadas, uma forma de sustentação ao se alimentarem, tendo em vista que as fortes correntes marinhas podem carregá-los. Além disso, as iguanas-marinhas possuem o focinho mais curto quando comparado ao seu grupo irmão, as iguanas-terrestres-de-Galápagos. O formato curto do focinho, juntamente com a presença de dentes pequenos e afiados, é o que permite a estes indivíduos rasparem as algas das rochas durante a alimentação.


Uma outra característica das iguanas-marinhas, se comparada com as terrestres, é sua cor cinza-escuro, o que permite a estes animais maior absorção do calor do sol enquanto termorregulam. Além disso, sua cauda é achatada lateralmente, o que confere propulsão e auxilia na movimentação durante a natação.


A foto é a comparação de iguanas marinhos e terrestres de Galápagos. A esquerda tem-se a foto do iguana marinho de coloração cinza escuro, seu dorso apresenta estruturas em formas de espinho. Este iguana repousa sobre uma rocha de coloração escura com alguns poros (pequenos círculos por toda a rocha). A direta, tem-se a foto frontal de um iguana terrestre, sua coloração é amarela clara com tons de marrons, ele está sob uma vegetação rasteira de coloração verde com algumas pedras a sua frente, ao fundo da foto é possível ver um costão envolto pelo mar.

Comparação entre iguanas-marinhas e iguanas-terrestres-de-Galápagos. À esquerda, a espécie de iguana-marinha, Amblyrhynchus cristatus, enquanto à direita tem-se a espécie de iguana-terrestre, Conolophus subcristatus. Fonte: Max Pixel (CC0) e Samuel Meylan/Wikimedia Commons (CC-BY-SA 3.0).



Porém, de todas as adaptações da espécie Amblyrhynchus cristatus, a mais importante talvez sejam as glândulas de sal. Essas glândulas estão presentes em suas narinas e são responsáveis pela eliminação do excesso de sal no sangue. Quando se alimentam das algas, as iguanas-marinhas acabam ingerindo junto o sal presente nas águas oceânicas. Este sal em excesso no corpo é prejudicial, logo, as iguanas o eliminam por meio de borrifos em forma de espirro.


Quem visita as ilhas de Galápagos pode apreciar colônias de iguanas-marinhas sobre as rochas, já que estes animais estão acostumados a viver em grupos numerosos por todas as ilhas do arquipélago. Apesar de estarem presentes ao longo das rochas próximas ao oceano, as fêmeas desta espécie buscam áreas arenosas para deposição de seus ovos. Ao encontrarem o local ideal para deposição dos ovos, as fêmeas cavam um buraco, põem em torno de 1 a 6 ovos e ficam próximas aos ninhos por volta de 16 dias.


Apesar de numerosas ao longo de todas as ilhas do arquipélago, as iguanas-marinhas são considerados como vulneráveis à extinção devido a sua área de ocorrência ser muito pequena, já que as populações estão restritas a cada ilha do arquipélago. Embora esta espécie seja protegida pela legislação nacional do Equador, a pressão antrópica resultou na introdução de espécies como cães, gatos e ratos, levando à predação de ovos e filhotes por predadores não nativos das ilhas. Ademais, os impactos das mudanças climáticas, como o aumento do nível do mar e da temperatura global, também podem afetar o habitat de nidificação e forrageamento desses animais, bem como sua capacidade de termorregulação, impactando na sua sobrevivência.


A verdade é que, apesar de sua aparência não agradar a todos, não podemos negar que as iguanas-marinhas são animais fascinantes aos olhos da evolução. São animais com adaptações únicas para sobreviver às condições de vida que as Ilhas Galápagos proporcionam.



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Bibliografia


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