Albatrozes: os gigantes dos ares e dos mares

Atualizado: 6 de mai.

Autores: Julia R. Salmazo e Thais R. Semprebom

Foto de um albatroz logo acima da superfície do mar. O seu corpo todo branco com as duas asas abertas um pouco curvadas no sentido vertical. As asas possuem uma coloração branco e cinza.

Albatroz-gigante (Diomedea exulans) durante voo. Fonte: JJ Harrison/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).



Os albatrozes são aves marinhas migratórias pertencentes à ordem Procellariiformes (procela, do latim = tempestade), juntamente com as pardelas e os petréis, também conhecidos como bobos, painhos, almas-de-mestre e outros nomes populares.


Os animais pertencentes a essa ordem têm como principais características possuir as narinas em forma de tubo e um bico longo e curvado na ponta. Variam bastante em tamanho, mas os albatrozes são as maiores aves voadoras, podendo chegar a 3,6 metros de envergadura de asa, como o albatroz-gigante (Diomedea exulans).


Os Procellariiformes são amplamente distribuídos por todo o globo, mas é o no hemisfério Sul onde ocorre a maior diversidade de espécies. São aves de hábito pelágico, ou seja, passam a maior parte de suas vidas no oceano aberto, pairando sobre o mar e mergulhando para se alimentar, permanecendo em terra apenas no período de reprodução, quando fazem seus ninhos em regiões costeiras e, principalmente, em ilhas.


Falando em reprodução, são animais k-estrategistas extremos, o que significa que possuem grande longevidade, baixa mortalidade de adultos e baixa taxa de reprodução. Eles atingem a maturidade sexual tardiamente, começando a se reproduzir por volta dos 5 aos 6 anos nas espécies menores e por volta dos 11 anos nas grandes espécies de albatrozes. Vivem por muitos anos: há registros de uma fêmea de albatroz-real-setentrional (Diomedea sanfordi) que se reproduziu aos 61 anos de idade e de uma fêmea de albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis) que foi mamãe recentemente, aos 67! Além disso, produzem apenas um ovo por temporada reprodutiva, sendo que estas ocorrem geralmente a cada dois anos ou mais.



Na imagem há dois albatrozes na frente e dois no fundo. Os dois da frente estão em contato através do bico, sendo que um está alimentando o outro.

Albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis) alimentando seu filhote. Repare nas narinas tubulares e bico curvado na ponta, características dos Procellariiformes. Fonte: Sabine's Sunbird/Wikipedia (Domínio Público).



Como dito, são aves migratórias, realizando grandes movimentos de migração e viagens de alimentação muito longas, que podem cobrir milhares de quilômetros. Algumas espécies que nidificam em ilhas do Atlântico Sul podem viajar ao Atlântico Norte no inverno, por exemplo. Inclusive, recentemente um bobo-pequeno (Puffinus puffinus) foi encontrado morto pelo Instituto Biopesca no litoral de São Paulo 62 dias após ter sido anilhado em Pembrokeshire, no Reino Unido, e viajado 9.367 quilômetros. Essa capacidade de migração e a ampla área de distribuição trazem algumas implicações para a conservação dos Procellariiformes, já que a atividade pesqueira em águas brasileiras pode afetar as populações de espécies que nidificam no Ártico, na Antártida e em outras ilhas pelo mundo, e vice-versa.


O Brasil é uma importante área de alimentação para essas aves, mas apenas duas se reproduzem em nossas ilhas: a pardela-de-Trindade (Pterodroma arminjoniana) e a pardela-de-asa-larga (Puffinus lherminieri).


Os albatrozes, que são os maiores Procellariiformes, pertencentes à família Diomedeidae, não nidificam no Brasil, mas vêm aos nossos mares para se alimentar. No mundo existem 22 espécies de albatrozes; destas, 10 têm ocorrência no Brasil e seis delas possuem interação com a atividade pesqueira, seguindo as embarcações e alimentando-se dos descartes da pesca. Isso representa um problema, já que essas mesmas seis espécies estão ameaçadas de extinção em diferentes graus.



QUAIS AS PRINCIPAIS AMEAÇAS AOS ALBATROZES?


As aves marinhas, em geral, estão enfrentando a diminuição de suas populações em um ritmo mais acelerado que de qualquer outro grupo de aves, não sendo diferente com os albatrozes. Aliás, é até pior, considerando suas características reprodutivas que foram citadas acima e as várias ameaças a eles, tanto nas áreas de reprodução quanto de alimentação.


Nas áreas de reprodução, os principais problemas dos albatrozes estão relacionados à degradação do habitat, já que a cobertura vegetal das ilhas é cada vez mais suprimida, diminuindo as áreas disponíveis para a nidificação. A introdução de animais domésticos nesses locais também é um problema, pois ratos, gatos, cães e teiús podem predar ovos e filhotes, e cabras podem também contribuir para a supressão vegetal.


Foto com vários albatrozes nidificando em uma área costeira, alguns estão sobre a vegetação e outros sobre a areia. Ao fundo da imagem vemos o mar.

Área de reprodução de albatrozes. Essas aves nidificam principalmente em ilhas. Fonte: Patte David/Pixnio (Domínio Público).



Já nas áreas de alimentação, a captura incidental em pescarias oceânicas é a maior ameaça às espécies de albatrozes em todo o mundo. Isso ocorre porque as aves são atraídas pelos descartes das embarcações e pelas iscas utilizadas na pescaria e, infelizmente, a área de atuação das frotas pesqueiras pelágicas coincide com a área de ocorrência desses animais. Ao tentarem se alimentar das iscas, as aves ficam presas aos anzóis e às redes e acabam morrendo afogadas. Há registros de interação de albatrozes com diversas artes de pesca: redes de deriva, redes de arrasto, rede de espera para peixe-sapo e até pesca de vara com isca viva. Mas a pior delas, a que mais captura albatrozes, é a pesca de espinhel.


A pesca de espinhel consiste em uma forma passiva de pesca ocêanica, onde são utilizadas iscas para atrair as espécies-alvo. Os alvos são peixes grandes, como o atum, o espadarte (ou meca, como é comercialmente conhecido) e tubarões (vendidos como cação). Porém, muitos outros animais como tartarugas, mamíferos e aves, incluindo nossos albatrozes, também são capturados incidentalmente. Os albatrozes não são grandes mergulhadores (suas penas densas e impermeáveis funcionam como uma bolha de ar quente que mantém seus corpos aquecidos e secos, mas impede que afundem muito na água, descendo a apenas aproximadamente 5 metros), mas são atraídos pelas iscas no momento em que a linha é lançada e tentam capturá-las enquanto ainda estão próximas à superfície. É aí que acabam sendo fisgados pelos anzóis, afundam e morrem afogados.


Na ilustração há uma ambercação com uma rede de espinhel e vários albatrozes sendo fisgados pelos anzóis.

Ilustração representando a pesca de espinhel e albatrozes sendo fisgados incidentalmente pelos anzóis. Fonte: Emily Eng/Smithsonian.



O QUE FAZER PARA DIMINUIR ESSAS AMEAÇAS?


Uma série de medidas vêm sendo tomadas para minimizar os impactos que afetam negativamente as espécies de albatrozes. Uma delas foi a criação, em 1991, do Projeto Albatroz, mantido pelo Instituto Albatroz, cujo objetivo principal é desenvolver ações que reduzam a captura desses animais nos espinhéis, tanto por meio de pesquisas para subsidiar políticas públicas quanto pela educação ambiental.


Outra medida muito importante foi a criação do Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (PLANACAP), do Ibama/MMA, que tem como principal objetivo assegurar que as colônias reprodutivas localizadas no Brasil sejam viáveis, reduzindo a captura incidental desses animais pela pesca de espinhel para níveis mínimos (igual ou menor que 0,001 ave/1.000 anzóis, ou seja, uma ave a cada um milhão de anzóis) e assim fazendo do Brasil um agente significativo para a conservação dos albatrozes e petréis, residentes e migratórios.