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Neocaiçara: a sobrevivência da tradição no mundo contemporâneo

Atualizado: 1 de dez. de 2022

Autores: Roberto Rodrigues Peres, Fernanda Cabral, Raphaela A. Duarte Silveira e Douglas F. Peiró



Fotografia do pescador Roberto R. Peres em sua canoa de voga, manejando uma rede de pesca. Na foto, observa-se o pescador, localizado dentro de sua canoa, que possui as extremidades afiladas. Ao redor da canoa, observa-se água do mar e, em segundo plano, observa-se ilhas cobertas de vegetação. Ao fundo da foto e em último plano, tem-se a silhueta da serra do mar e o céu.

Roberto R. Peres, um neocaiçara, realizando pesca no modelo tradicional. Fonte: © Roberto Rodrigues Peres.



As comunidades ou povos tradicionais constituem grupos modelados com organizações sociais próprias e que possuem intrínseca ligação com os territórios e recursos naturais utilizados para a sua sobrevivência. Os conhecimentos e práticas pertencentes às comunidades tradicionais são únicos e são transmitidos oralmente de geração em geração, de forma a organizar e perpetuar sua cultura.


A cultura é definida por elementos significativos que identificam a memória coletiva de um grupo, como crenças, sistemas linguísticos, costumes, vestimentas, objetos materiais, entre outros. Altamente variável e adquirida por meio do aprendizado, a cultura permite a adaptação humana ao ambiente natural em que o grupo está estabelecido. Existem diversos tipos de culturas e comunidades tradicionais espalhadas pelo mundo que, atualmente, de forma trágica, sofrem com a desvalorização e a perda da identidade como, por exemplo, a cultura caiçara.



A CULTURA CAIÇARA


Os caiçaras constituem uma comunidade tradicional que habita a região entre o mar e a serra, desde o Paraná até o Rio de Janeiro. Seus hábitos próprios que os identificam enquanto caiçaras foram originados a partir da mescla dos costumes indígenas, portugueses e dos escravos africanos. Dentre as características, estão: a comida, a vestimenta, o artesanato, a agricultura, as formas de falar e as atividades profissionais.


Durante muito tempo, as terras litorâneas férteis permitiram o exercício da agricultura rotativa como complemento à pesca, cultivando arroz, feijão, milho e, principalmente, a mandioca. No entanto, uma das principais referências do caiçara é a utilização de recursos marinhos para a preparação de pratos típicos, como peixes e frutos do mar (consumo da tainha no inverno e da corvina no verão), servidos com farinha de mandioca. Outra característica marcante da cultura caiçara é a canoa de voga. Essas embarcações são escavadas a partir do tronco de uma árvore e antigamente eram utilizadas para o transporte de insumos e produtos em viagens de longa distância, geralmente em direção à Santos (SP) e Angra dos Reis (RJ). Hoje ainda são utilizadas, porém para atividades de pesca em curta distância.


Fotografia de uma canoa-de-voga sendo manejada por pessoas, para ser colocada ou retirada da água. A canoa possui grande extensão, tem diversas cores e está na areia da praia, sendo manipulada por 5 homens. Ao fundo, observa-se o mar e cadeias de montanhas, com nuvens no céu.

Canoa de voga, típica das comunidades caiçaras. Fonte: Joao lara mesquita/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



A necessidade de sobrevivência no ambiente em que os caiçaras estão localizados originou conhecimentos profundos e específicos sobre a Mata Atlântica e sobre os animais e plantas da região. Porém, essa realidade e a sua identidade podem estar em processo de transformação no mundo moderno.



O NEOCAIÇARA


O desenvolvimento das cidades aconteceu com a expansão das atividades comerciais, como abertura de novos portos para importação e exportação de produtos, construção de rodovias para a comunicação com outros centros comerciais e, consequentemente, a expansão do turismo, atraído pelas belas paisagens. Dessa forma, o antigo cenário transformou-se, dando lugar à especulação imobiliária, ao grande fluxo de informações e pessoas, além de restrições à pesca, caça e agricultura tradicional.


Fotografia de uma praia turística super lotada. Em primeiro plano, observa-se a beira do mar, com diversas pessoas tomando banho e sol, além de pedras ao fundo, como uma costeira. Em segundo plano, observa-se diversos guarda-sóis e, em último plano, tem-se um grande barco.

O desenvolvimento das cidades moldou seu cenário, dando lugar ao grande fluxo de pessoas e à especulação imobiliária. Fonte: Massachusetts Office Of Travel & Tourism/Flickr (CC BY-ND 2.0).



A transformação do cenário global e social moderno levou a um distanciamento dos costumes tradicionais, a fim de haver um novo encaixe social, sem que sua existência cultural seja eliminada, assim como a sua memória e identidade. A cultura humana é cumulativa e tem o potencial de se adaptar e persistir em um mundo contemporâneo. Dessa forma, as identidades tradicionais como os caiçaras podem enfrentar uma crise de identidade e, posteriormente, emergirem em novos papéis, como o neocaiçara.


Além da globalização, o neocaiçara enfrenta cenários desafiadores à sobrevivência individual e cultural, como o aquecimento global, a elevação do nível do mar, a exploração desenfreada de recursos naturais e um mercado de trabalho competitivo. O neocaiçara é justamente o resultado da longa mudança ocorrida no espaço e no tempo desta comunidade tradicional que, agora, busca interagir com o ambiente de outra forma, adequando-se a uma realidade diferente da que se desenvolveu historicamente.


Um exemplo de adaptação seria por meio do empreendedorismo e da inserção no setor turístico sustentável e o ecoturismo, uma área que valoriza as pessoas, a preservação do ambiente e a transmissão cultural por meio da fala. Dessa forma, o neocaiçara, enquanto indivíduo, é capaz de sobreviver e perpetuar a cultura caiçara a outras gerações, apesar de transmutada.


Em nossas pesquisas, encontramos o termo neocaiçara pela primeira vez na monografia de conclusão de curso Neocaiçara: arranjo cultural (2011) de Roberto Rodrigues Peres, descendente direto de caiçaras originais da Praia do Lázaro, na cidade de Ubatuba - SP.




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Bibliografia


ADAMS, C. As populações caiçaras e o mito do bom selvagem: a necessidade de uma nova abordagem interdisciplinar. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 43, n. 1, p. 145-182, nov. 2000. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0034-77012000000100005. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77012000000100005&script=sci_arttext. Acesso em: 11 abr. 2021.


PERES, R. R. Neocaiçara: arranjo cultural. 60 p. Trabalho de Conclusão de Curso - MBA em Negócios e Sustentabilidade: Ambiente, Cultura e Turismo. Universidade Católica de Santos, Santos, 2011.


SANTAELLA, L. et al. Da cultura das mídias à cibercultura: o advento do pós-humano. Revista Famecos, [S.L.], v. 10, n. 22, p. 23-32, 12 abr. 2008. EDIPUCRS. http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2003.22.3229. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/322. Acesso em: 10 abr. 2021.


SILVA, D. C. O mar e o caiçara: a corrida de canoas como jogo tradicional e fortalecimento identitário. Motrivivência: Revista de Educação Física, Esporte e Lazer, Florianópolis, v. 32, n. 63, p. 1-21, dez. 2020. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/view/2175-8042.2020e72453. Acesso em: 10 abr. 2021.





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Responsável: prof. Dr. Douglas F. Peiró

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